SECÇÃO: Região

O ADARVE DA MURALHA

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No âmbito das comemorações do DIA UM de Portugal/2019, de 24 de junho, foi inaugurado, no dia 30 do mesmo mês, o adarve da muralha de Guimarães, na sua parte mais extensa, a qual delimita todo o lado poente da avenida Alberto Sampaio. O ato revestiu-se de solenidade condigna e atraiu a curiosidade de boas centenas de vimaranenses.
Para o cidadão minimamente conhecedor da nossa história, aquele momento era sentido como despertador a debitar memórias do passado: das origens como povo livre e independente e de esforço e tenacidade dos nossos antepassados em construir, proteger e defender a Nação alicerçada na fé cristã. Ficou aberta aquela passagem pedonal, testemunha certamente, de muitas vigílias e incertezas, face a possíveis ataques inimigos.
O percurso, assim requalificado, na nossa opinião e arte, acompanha o interior de toda a muralha, desde a capela da Senhora da Guia até à praça Condessa Mumadona. Pode ser utilizado num e noutro sentido; todavia, de acordo com as palavras do senhor presidente da Câmara, doutor Domingos Bragança, é na direção sul-norte que o caminhante poderá imergir na grandeza do património que, a partir de Guimarães, caraterizou Portugal. O piso do adarve, feito por módulos metálicos, em sequência de subida e, olhando bem em frente, atrai a atenção para a colina sagrada, onde se levanta, imponente, o Paço dos Duques de Bragança, por detrás do qual se encontra a igreja românica de São Miguel e o castelo de Guimarães, conjunto apanhado e protegido por outro pano de muralha, bem conservado também.
Olhando para nascente, por entre as ameias, o visitante poderá contemplar o santuário de Nossa Senhora da Penha, qual torre de vigia, assente sobre o pedestal maravilhoso que é a serra de Santa Catarina. Todavia, do lado poente, mesmo aos pés do caminho e quase tangível, apresentam-se quadros preciosos para rememorar as origens e a nossa história local. Tudo, como proclamou a doutora Isabel Maria Fernandes, diretora do Paço dos Duques e do Museu de Alberto Sampaio, no ato da inauguração, obra de duas mulheres, cada uma delas incomparável na sua ordem: Santa Maria e Condessa Mumadona. Naquele chão sagrado do coração do centro histórico, cheio do passado e prenhe do presente, os vestígios arqueológicos e outras verdades documentais são, hoje, expressão eloquente de continuidade da aplicação da herança recebida. A igreja da Colegiada, grande, sobretudo a partir da reformulação profunda. Operada por ordem de D. João I, patenteia a devoção de Mumadona ao Salvador do Mundo e a Santa Maria e aos Apóstolos. Objeto de sucessivos restauros, o último dos quais realizado nos anos sessenta-setenta do século passado e, mais recentemente, beneficiado com o restauro do órgão de tubos, retábulo-mor, ábsides laterais e ainda dos quatro altares das duas naves e consolidação do soalho da sacristia, a igreja da Senhora da Oliveira assume-se, cada vez mais, como ex-libris da Cidade-berço. O Museu de Alberto Sampaio, que foi sede da benemérita Colegiada e residência da figura principal da instituição, o dom prior, guarda o acervo notável do património cultural e artístico que foi possível preservar e, graças à competência, dedicação e empenho das últimas direções e zelo de funcionários(as) seletos(as) vai renovando, ampliando e recriando aquela fonte da história local e da própria Nação.
Continuando a subir pelo adarve, é visto, imponente também, o edifício do Centro Pastoral D. António Bento Martins Júnior com o Patronato de Nossa Senhora da Oliveira. Com muita pertinência, poderá afirmar-se que esta instituição, em boa hora nascida em meados do século XX, graças às negociações e bom entendimento institucional entre a arquidiocese de Braga e o governo da Nação, protagonizados por monsenhor António de Araújo Costa, arcipreste e, mais tarde, dom prior da Colegiada e o ministro das Obras Públicas, engenheiro Eduardo Arantes e Oliveira, ultimamente dotado com novas instalações do Patronato, é a versão atual da Colegiada. Numa área coberta de aproximadamente 1.500 metros quadrados, o Centro Pastoral está aberto à Comunidade e desenvolve especialmente atividade de caráter pastoral, no âmbito da paróquia de Nossa Senhora da Oliveira e do arciprestado de Guimarães e Vizela. Os espaços exteriores falam-nos ainda da vida, alegre e feliz, de cerca de 90 crianças que frequentam as valências do patronato. Mais escondida e resguardada por um muro antigo, está a Casa da Criança, cujas instalações foram cedidas, em direito de superfície, pela Fábrica da Igreja de Nossa Senhora da Oliveira e, agora, profundamente remodeladas e ampliadas pela Associação, então criada, com ajudas substanciais, sobretudo da Câmara Municipal e Segurança Social.
O terceiro módulo edificado visto do adarve, também ele carregado de memórias, é a sede do Município e Câmara Municipal. Há aproximadamente cinquenta anos, os serviços da administração local que, antes, funcionavam na casa Martins Sarmento, ao largo do Carmo, foram instalados no antigo convento de Santa Clara. Desde finais do século XIX, neste mesmo edifício, funcionara o Seminário-Liceu, uma das imposições de 1891. No lado norte deste edifício, funcionou simultaneamente o Internato anexo ao Liceu, o qual ainda se manteve ativo, durante algum tempo, após a transferência, no princípio da década de sessenta do século passado, para as instalações atuais, à alameda Professor Abel Salazar, hoje Escola Secundária Martins Sarmento. O convento de Santa Clara serviu também, numa fase posterior, durante algum tempo, de prolongamento da Escola Industrial e Comercial de Guimarães (Escola Secundária Francisco de Holanda) para o ciclo preparatório (EB2) e curso geral do comércio (noturno) com algumas salas.
Toda a realidade descrita, abrangida pela muralha e adarve, resume, de facto, um condensado histórico, bem interessante para apreciar e divulgar. Dizem as estatísticas que o Paço dos Duques e o Castelo são os monumentos do norte mais visitados, tendo atingido a fasquia muito próxima de meio milhão de visitantes/ano. A estes podemos acrescentar a muralha e o adarve. Parece, portanto, que, para além do gesto louvável de a Câmara Municipal permitir a circulação gratuita, algo mais deverá ser pensado que permita aos visitantes levarem, gravadas no seu espírito, tantas memórias que aquele pedaço do centro histórico encerra.
Espaço atraente, que é o adarve da muralha afonsina de Guimarães, eis o miradouro a gerar energias para a autoestima mais consistente de ser português.

Lima de Carvalho

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