SECÇÃO: Região

(conclusão da edição anterior)
Jornadas do Órgão Histórico da Oliveira

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Quais os seus trabalhos na área do património?

Neste âmbito tenho trabalhado em investigação há alguns anos, em matérias de organaria e música sacra, trabalhos a publicar futuramente. Como consultor da Direcção de Cultura do Norte tenho trabalhado na agilização dos processos de restauro e promoção dos órgãos históricos. Por exemplo nas «Jornadas Europeias do Património» (27 a 29 de Setembro) implementei esta modalidade de visitas guiadas musicais ao órgão histórico da Igreja do Mosteiro de S. Bento da Vitória, no Porto: foi um evento de grande sucesso, concebido para cativar o grande público para os órgãos.

Qual as virtualidades desse modelo que propõe? Em que se inspira?

Pois, as visitas musicais são uma modalidade combinada de “visita guiada” e “concerto” que suscita maior curiosidade do público, promove proximidade física em relação à música, fornece explicações acessíveis, faz ouvir peças breves e de compositores nacionais – assim chegamos ao público de forma mais eficaz. O modelo baseia-se na didáctica dos países de forte cultura musical, ora ainda se justifica mais no nosso: é diferente de estar sentado uma hora no mesmo sítio a ouvir música de órgão sem parar, algo que nunca aconteceu na História. Costumo receber o público num espaço aparentemente alheio ao órgão (por exemplo no claustro), e crio um itinerário comentado e pontuado por etapas, até chegar ao instrumento. Faço a contextualização e preparo as mentes para a música que vão ouvir, a dita “sensibilização musical”: não conseguimos gostar de algo que não entendemos! Abordo os temas com palavras simples (troco o vocabulário técnico em miúdos), explico o que é a música sacra, a sua origem e função na Igreja, o poder do canto, a função do órgão, o seu funcionamento e historial, um pouco da biografia do compositores e dos organeiros, etc.

É um itinerário interpretado que conduz o público a conhecer o contexto, a importância e o valor da música sacra, a sua função na Igreja, e através dela o órgão, quase completamente desconhecido, mas que habita quase todas as nossas igrejas centenárias.

Como foi o itinerário que concebeu para a Oliveira?

Nas Jornadas do Órgão da Oliveira começámos no claustro, para conhecer a sede da Colegiada e a razão da sua existência: a Solenização do Culto Sagrado; depois entrávamos para a Igreja não pela porta principal, mas pela “Porta das Conchas”: o acesso desde o claustro, donde vinham os cónegos várias vezes ao dia celebrar a Eucaristia e o Ofício; de seguida levava o público a sentar-se no cadeiral dentro do presbitério de frente ao retábulo-mor da Sra. da Oliveira: eis uma experiência por si só cheia de significado espiritual e estético; daquele espaço acusticamente privilegiado escutavam breves peças musicais de autores portugueses; por fim o público subia ao coro-alto para conhecer o instrumento de perto, identificar os diferentes registos sonoros, ver a complexa máquina do instrumento, o seu funcionamento, as trombetas, os foles, etc. No final, concluía com a valorização e salvaguarda do valioso património organístico português, de que a cidade de Guimarães foi um polo de produção.

O que tem o órgão histórico da Oliveira de especial?

Ora, o órgão da Colegiada, fazendo jus à solenidade e zelo das suas Liturgias, é um instrumento de grande porte, entre os maiores do Norte. Possui um Flautado de 24 Palmos (c. 5 metros) que só tem par nos órgãos da Sé Primacial de Braga e no órgão da Igreja do Mosteiro de S. Bento da Vitória no Porto. É um instrumento de grandes recursos, com uma paleta alargada de diferentes sonoridades, além da sua antiguidade. Ali é possível ouvir sonoridades de há 200 e 300 anos atrás! tendo em consideração que grande parte dos registos sonoros foram aproveitados dos órgãos anteriores pré-existentes. Já antes deste órgão encomendado a Luís António de Carvalho em 1831, a Colegiada tinha não um mas dois órgãos, desde 1305!

Qual a importância de Guimarães na Organaria?

Guimarães foi um polo de produção da arte organeira nacional, pois ali se fixou em 1759 o mestre organeiro Francisco António Solha, discípulo do galelo Frei Simão Fontanes que construiu os órgãos da Sé de Braga. Solha foi o mais importante organeiro da 2ª metade do séc. XVIII no Norte de Portugal, tendo construído grandes, bons e importantes órgãos: S. Gonçalo de Amarante, Cabeceiras de Basto, S. João de Tarouca, Santa Maria de Pombeiro, e em Guimarães: Santa Marinha da Costa, Misericórdia, Capela de N. Sra. da Conceição, entre outros. Foi ele mestre do vimaranense Luís Carvalho a quem deixou em testamento “as ferramentas” ou seja, a sua oficina na Rua de Santo António. Carvalho continuou o legado do mestre em Guimarães construiu o órgão da Colegiada até 1839, quando faleceu.

Tem planos ou desafios para o nosso futuro?

Penso que tenho a missão de despertar o público português para o valor do seu património musical sacro.
É preciso fazer entender que o órgão histórico foi-nos legado pelos nossos antepassados, é nossa herança e é nossa responsabilidade mantê-lo e legá-lo a quem há-de vir. Todavia a Colegiada, a Liturgia, a Música Sacra, o Órgão Histórico – só serão aquilo que fizermos deles todos os dias. Sem público não há culto, não há cultura. Disse no concerto final: «Apropriai-vos do vosso património e ele vos mostrará o tesouro que vos renderá». Acredito que a paróquia da Oliveira deva investir decididamente na Pastoral Cultural, só assim fará reviver “A Colegiada” num centro histórico cheio de turistas. A Cultura religiosa é hoje instrumento de Catequese, de aproximação aos valores cristãos, da espiritualidade, do Belo. O plano é que a Colegiada saiba pegar neste modelo e desenvolvê-lo sem medo.

Obrigado pela entrevista. Gostaríamos de contar com os seus conhecimentos e contributos em próximas edições d’O Conquistador: conhecer melhor o património organístico vimaranense, os nossos organeiros, as práticas litúrgicas e musicais de terras germânicas, e muitos outros temas.

Assim seja!

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