SECÇÃO: Informação Religiosa

juntos, dum modo sinodal, descortinemos um novo modo de ser Igreja

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No âmbito do plano da arquidiocese de Braga e da Visita Pastoral ao arciprestado de Guimarães e Vizela, que culmina no próximo domingo, na paróquia de Nossa Senhora da Oliveira; numa relação de proximidade e abertura, e, se nos é permitido, em jeito de análise e balanço, colocamos ao senhor D. Jorge Ortiga, arcebispo primaz de Braga algumas questões cuja resposta publicamos nesta edição mensal de O CONQUISTADOR.

OC - No âmbito do plano pastoral da arquidiocese e a terminar um ano de Visita Pastoral a este arciprestado, o que destaca?
D. Jorge - Sabemos que a Igreja é presença de Deus na história dos homens. Cristo incarnou para sublinhar a paternidade universal de Deus e a consequente fraternidade entre todos os homens.
O nosso programa pastoral é uma proposta para que vivamos esta realidade no interior da nossa comunidade e que ousemos sair para construir um mundo novo na lógica desta Verdade.
Parece-me que, concretamente, temos crescido muito. Outrora o cristão reduzia a sua religião a uma relação com Deus. Hoje, começamos a sentir necessidade de descobrir o valor e a importância do irmão. Na verdade, somos ou devemos ser comunhão. Como consequência imprescindível emerge a consciência de missão confiada a cada um na diversidade das vocações.
Não quero formular qualquer juízo quanto à realidade eclesial. Sugiro que cada um, sacerdote ou leigo, pense e reflita sobre estas duas palavras, comunhão e missão, não como realidades distintas, mas sendo nuances da mesma experiência. Onde nos encontramos em termos de concretização? O que nos pede o Espírito para o hoje da Igreja neste arciprestado de Guimarães e Vizela?

OC - Em vinte anos de Arcebispo o que é que ainda o surpreende na Visita Pastoral?
D. Jorge - Nos últimos anos tenho pegado na lógica da semente para interpretar a missão da Igreja. Semente que é a Palavra de Deus que deve ser semeada dentro e fora das comunidades.
Reconheço que a vida das comunidades vai crescendo lentamente como a semente. Por vezes, caio na tentação de pensar que muito mais poderia ser feito. Penso que ainda estamos muito centralizados na eucaristia, o que é importante, mas concedemos pouco espaço para a centralidade da Palavra a anunciar, a celebrar, sobretudo, a viver. Não foi por acaso que solicitei a constituição de Grupos Semeadores de Esperança. São encontro com a Palavra e responsabilidade para a levar ao diferente contacto da vida. Não surpreende nada. Gostaria que, e isto tem sido abordado em todas as Visitas Pastorais, fosse uma Igreja congregada em torno da Palavra para a colocar no coração da cidade dos homens.

OC - Ao longo dos anos que relação manteve com o arciprestado?
D. Jorge - A relação com o arciprestado foi normal. Evidentemente que é possível melhorar. O encontro com as comunidades só acontece nas Visitas Pastorais ou quando sou solicitado para iniciativas da vida eclesial. Os bispos auxiliares são uma presença do arcebispo que devo agradecer sempre a Deus. Com os sacerdotes procuro mostrar presença no momento mais significativo da vida de cada um. A palestra, momento formativo do clero arciprestal, é um momento de encontro que me dá muito prazer. Preocupo-me, também e faço referência a isto para testemunhar gratidão aos sacerdotes que nos antecederam, em estar presente nos funerais dos padres e dos pais. Muito mais gostaria de ter feito. Falo de comunhão efetiva e afetiva. Gostava que fosse mais visível por aquilo que deveria oferecer aos sacerdotes.

OC - Qual a mensagem que deixa?
D. Jorge - A minha mensagem é de gratidão a quantos constroem comunidades através da doação do seu tempo e capacidade. Dum modo particular recordo os sacerdotes. Sabemos que os tempos são exigentes. À gratidão associo o apelo para que, juntos, dum modo sinodal, descortinemos um novo modo de ser Igreja e que arrisquemos um pouco mais para testemunhar que Cristo Vive e que vai operando por nosso intermédio.

OC - O que gostaria de ver realizar neste arciprestado?
D. Jorge - Depois de tudo quanto refleti penso ser óbvio que o que mais alegria me daria é poder verificar que somos Igreja-comunhão/missão com tudo o que isto implica. Já percorremos um bonito caminho. Há mais para percorrer.
Nesta atitude teremos de concretizar uma Igreja em saída não só no sentido de ir ao encontro da periferia, mas de estar presente em todas as realidades humanas (política, economia, ensino, saúde, arte).

OC - Qual a principal ilusão e desilusão no âmbito da missão pastoral do arcebispo?
D. Jorge - Devo confessar que procuro não analisar a vida nessa perspetiva. Sei que o que hoje parece uma desilusão amanhã é uma oportunidade. A mim convido-me a refletir para ser capaz de ver o que me pede. Posso dizer que é maravilhoso. Tenho sonhos, projetos. Há alegria, tristeza… Há sempre um lado positivo. Importa descobri-lo.

OC - Como imagina as paróquias daqui a 50 anos?
D. Jorge - Não quero fazer futurologia. Uma coisa é certa, não serão o que hoje são. O território deixará de ser o critério e os laços fraternos mostrarão comunhão a concretizar em missão a ser interpretada sobretudo por leigos. Os sacerdotes serão o princípio e o sustentáculo da unidade.

OC - De que modo podem os leigos contribuir na atividade pastoral das paróquias?
D. Jorge - Tudo pode ser feito pelos leigos, menos a celebração das eucaristias. Importa, porém, não improvisar. Urge trabalhar para uma formação cristã e para a preparação para suscitar convenientemente uma diversidade de ministérios. Há uma mudança de paradigma que urge incrementar nunca ignorando o que alimentou as nossas comunidades ao longo de séculos. As mudanças têm de ser preparadas e isto vai exigir muito tempo e persistência.

OC - Como é que o turismo se pode transformar numa oportunidade de evangelização?
D. Jorge - Evangelizar é sinónimo de colocar o evangelho nas experiências humanas. Numa sociedade da mobilidade a Igreja tem de ir ao seu encontro. Ninguém ignora que são muitos os que nos procuram. Não vamos fazer proselitismo, mas vamos mostrar-lhes o que é a nossa cultura e identidade.
O Património, quase todo ele religioso, é uma responsabilidade para as comunidades. Os turistas querem fruir daquilo que possuímos; nós, no respeito por culturas diferentes, não tememos mostrar o que somos. Eles agradecem, ainda que fiquem só em conhecimentos históricos.
Penso que esta Visita Pastoral deveria proporcionar um itinerário turístico com alguém a explicar a nossa história. Guimarães não pode fugir a esta responsabilidade.

OC - Como descansa um arcebispo?
D. Jorge - O descanso vai-se concretizando aproveitando momentos que a vida nos deixa livres – gosto de visitar os sacerdotes, de ir a um santuário. Sobretudo, aproveitar alguns momentos para parar. Não gosto de férias a não fazer nada, pois a leitura é uma companhia retemperadora. São poucos os momentos. Estou atento para os aproveitar.

5 perguntas com resposta rápida:

OC - Chá ou café?
D. Jorge - As duas coisas, conforme as circunstâncias.

OC - Qual o livro que está a ler?
D. Jorge - Non é quel che credi. Um livro sobre as imagens falsas de Deus que ainda estão muito na nossa evangelização.

OC - Qual o último filme que viu?
D. Jorge - Gosto muito de cinema. Não tenho tempo. Terei de o encontrar. O último foi o já velho “A vida é bela”.

OC - Qual a música que o acompanha?
D. Jorge - São muitas. Prefiro músicas serenas e de mensagem.

OC - O que não dispensa no inverno?
D. Jorge - É tempo de estar mais com a família.

Complete

OC - Renovação pastoral inadiável é…
D. Jorge - … ouvir a Voz do Espírito e não adiar. É hora de arriscar.

OC - A Igreja está em saída quando…
D. Jorge - …não gira em seu torno, mas vai ao encontro. Tão importante como as periferias é a cultura emergente com os seus alucinantes desafios.

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