SECÇÃO: Região

Dr. Fernando Monteiro (1927-2019)

“Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus Ele o criou;
e criou-os homem e mulher” Gn 1, 27

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Ao fazer memória do doutor Fernando José Antunes Saraiva Monteiro deparamo-nos com um daqueles casos em que transparece, cheia de atualidade, a passagem da Bíblia acima citada. De facto, não me parece possível recolher apontamentos e apresentar traços da vida deste saudoso amigo sem associar o perfil e ação de sua esposa amada, a doutora Maria Odete Carreira Saraiva Monteiro. Os dois, ainda de acordo com a descrição das origens, carregada de simbolismo, testemunhavam a verdade revelada, transmitida pelo autor sagrado: tornaram-se uma só carne, um só. E tanto mais surpreendente era este consórcio quão bem manifesta a diferença de temperamento de cada um. E foi assim que ambos compreenderam o aspeto positivo desta realidade para uma complementaridade exemplar na tríplice dimensão do matrimónio, conjugal, familiar e social.
Conheci o dr. Fernando Monteiro desde o outono de 1959, durante, portanto, 60 anos de vida e ministério sacerdotal, fazia ele parte, como vogal, da direção das Oficinas de S. José, hoje Centro Juvenil de S. José, juntamente com o dr. Raúl Rocha Abreu, Belmiro Mendes de Oliveira, padre Manuel de Freitas Leite, dr. Gonçalo Brandão Leite de Faria, David Garcia, José Luís Pires e Aprígio da Cunha Guimarães.
Eu tinha sido nomeado auxiliar do diretor interno, padre Manuel de Freitas Leite; com a mesma tarefa de educador, tinha sido nomeado o meu condiscípulo Mário da Costa Azevedo, que viria a receber a ordenação de presbítero um ano mais tarde. Estava fresca na memória do dr. Fernando Monteiro a comovente festa da Missa Nova do seu primo, padre José Arnaldo, nosso condiscípulo em que o Mário desempenhara o exigente cargo de pregador de circunstância.
Tudo isto fez com que a relação entre nós fosse muito mais do que institucional; foi antes o elo de ligação para uma amizade que foi crescendo, sobretudo nos últimos quase quarenta anos. A doutora Maria Odete vim a conhecê-la em finais de 1962 nas reuniões da Conferência de S. Vicente de Paulo, na paróquia da Oliveira, para onde, então, fui transferido. Logo nos primeiros contactos, retive a imagem duma senhora jovem , excecionalmente prendada. Entre as suas companheiras, senhoras mais maduras e com estatuto social, a doutora Odete aliava, na perfeição, a força do seu caráter ao ideal comum de servir os pobres. Pelos anos fora, fui descobrindo que o casal Monteiro teve, nas suas famílias, a raiz fecunda de afirmação assumida como cristãos autênticos.
A somar a esta graça, a educação complementar recebida, ela, em colégio de regras austeras; ele, como estudante do liceu, a filiação na Mocidade Portuguesa e nos quadros da Ação Católica.
O dr. Fernando Monteiro, ainda adolescente, ficou órfão de pai, e, mesmo assim, impreparado, ele encarou a necessidade de se formar em Farmácia para dar continuidade à atividade e garantir os requisitos legais, como detentor do estabelecimento da família, nas Caldas das Taipas. Licenciada também em Farmácia, a doutora Odete viria também a repartir a sua vida de dona de casa com o exercício da profissão no seu estabelecimento na cidade de Guimarães. Aqui, ela intuiu que os princípios e valores que apreendeu do evangelho tinham de ser aplicados com atenção e oportunidade. E, foi assim que ela terá ganho algumas vidas: acolhendo mulheres perturbadas perante gravidezes indesejadas e que, por isso, procuravam meios para subtrair vidas inocentes, ela soube aproveitar o dom de conselheira, tendo conseguido algumas vezes a inversão do propósito de provocação de abortos. Até teve a felicidade de ser surpreendida por pessoas, já adultas, as quais, tendo tido conhecimento da sua história de vida, contada pelas mães, e ser agradecida como se própria mãe tivesse sido também. O dr. Fernando Monteiro, que também fora responsável dum laboratório de análises clínicas, contava com indisfarçável alegria todos estes acontecimentos protagonizados por sua mulher.
Em princípio dos anos setenta, o casal Monteiro entrava num ciclo de vida especial: eram três filhos que iniciavam a aventura da vida e, naturalmente, a prioridade de ação, como casal, estava voltada para as crianças. Era eu, então, o pároco de S. Dâmaso onde, recentemente, tinha sido implantado o Movimento Escutista (CNE). Atentos a isso, ofereceram aos filhos esta excelente oportunidade de complementarizarem a sua formação humana e cristã. E, também, neste ponto, o dr. Monteiro era exemplar: chegou a estar de vigília, dentro da sua viatura, em noites de acampamento, em que participava a sua filha.
As quase quatro últimas décadas permitiram-me, efetivamente, uma proximidade e cumplicidade preciosas, primeiro como conselheiro da equipa de Casais de Nossa Senhora, designada “Guimarães 5” e a seguir como pároco de Nossa Senhora da Oliveira. Nesta dupla realidade, a figura do dr. Fernando Monteiro foi-se agigantando, por meios de que a sociedade quase não se dá conta, porque enformados pela humildade e discrição. Nunca o Fernando Monteiro se mostrava agastado, consumido pela vida, perante o porque-tem-que-ser, apesar de a mesma a todos ocasionar momentos-de-tudo. Ele era presença discreta e rica em comunicar; atento e ávido de conhecer; compreensivo e generoso para com os outros elementos da equipa; com a Maria Odete era um casal que respirava saúde e paz pela vivência do matrimónio na sua dimensão total.
Como membro da comunidade paroquial de Nossa Senhora da Oliveira é de relevar a sua atenção e resposta pronta e generosa aos problemas e necessidades a que ele podia acorrer; esteve sempre na linha da frente, designadamente no cuidado dos pobres.
Quanto a nós, a grande prova da sua vida foram os oito anos mais próximos do fim da Maria Odete, uma doença prolongada em que ele soube comprovar as virtudes de um matrimónio abençoado. O “hospital” foi a sua própria habitação: ainda que bem assessorado por pessoas diligentes e capazes, ele era o companheiro atento e pronto na ocorrência a toda a espécie de cuidados. E um deles, que lhe merecia particular atenção, era o seu ritual próprio por ocasião da receção da eucaristia. Qua quadro lindo resultava a preparação e a ação de graças que dirigia, qual sacerdote da igreja doméstica!
Em conformidade com as normas das equipas de casais, as respetivas reuniões eram de caráter rotativo e, muitas vezes, na qualidade de anfitrião, realizaram-se na casa de Esporões, herança da sua mãe. Nesta circunstância, o encontro era iniciado com a celebração da eucaristia na capela de Santa Ana, anexa ao edifício e, mais ainda que este, objeto de requintado cuidado de conservação e restauro, realidade que, diríamos, permitia uma boa leitura do caráter do casal Fernando/Maria Odete e uma lição de vida cristã a todos os títulos responsável, especialmente para a sua família.
Para quem conhecia de perto o dr. Fernando Monteiro, a sua postura era de um homem simples, sereno, de apresentação modesta, curiosamente sóbrio na maneira de vestir e até na qualidade e modelo das viaturas que usava.
Serviu algumas instituições, tanto em Caldas das Taipas como em Guimarães, com realce para a Venerável Ordem Terceira de S. Domingos.
As caminhadas do dr. Fernando Monteiro, mais observadas nos últimos tempos, de casa para a Farmácia, no Toural, e/ou para a igreja da Colegiada deixaram certamente a marca do homem-peregrino que sabiamente compreendeu que era assim que se enchia a bagagem para o grande encontro da vida, resultante da vida como serviço a Deus e ao próximo. Que descanse em paz.

01 de novembro de 2019
Monsenhor José Maria Lima
de Carvalho

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