SECÇÃO: Generalidades

Diogo Freitas do Amaral | 1941 – 2019 In memoriam

Não foram muitos, nem de forma sistemática, os momentos em que tive o privilégio de privar com esta figura notável, que foi o Professor Doutor Diogo Pinto de Freitas do Amaral. O mais recente deu-se em 2017 por ocasião do lançamento da obra de sua autoria “Da Lusitânia a Portugal”, no Paço dos Duques de Bragança. Poucos dias depois, recebia um exemplar com a seguinte dedicatória “Para o Revdo Senhor D. Prior com a velha amizade e muita simpatia do Diogo Freitas do Amaral” 2017.
O contacto último, porém, aconteceu há cerca de um ano com a sua resposta pronta e generosa à campanha de angariação de fundos por mim dirigida aos paroquianos e amigos da Senhora da Oliveira, para resolver a crise de tesouraria e financeira da paróquia. Esta, afinal, viria confirmar que aquela qualificação “velha amizade” não era dito banal ou expressão de circunstância. E, recuando a 2009, na celebração dos meus 50 anos de sacerdócio, o seu testemunho numa recolha de memórias, publicadas em livro, a meu respeito, transforma-se também em grato reconforto.

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O início da segunda metade do século passado trouxe para a ribalta do meio vimaranense a pessoa e ação do engenheiro Duarte do Amaral, tal era a fama e o prestígio como homem do Estado Novo, da união Nacional e deputado da Nação. Através da sua ação persistente, condimentada pelo indesmentível amor á sua terra, Guimarães entrou em fase de crescimento muito importante, a par do propósito manifesto de trazer ao de cima o fundamento das razões e dos direitos de berço da Nação, situada no papel da Condessa Mumadona em meados do século X, seguindo-se logo a instituição da Colegiada, a qual contribuiu inquestionavelmente para o desenvolvimento religioso, cultural e social da Região e do próprio País. E foi aqui que o engenheiro Duarte do Amaral deixou a sua marca indelével com o restauro da igreja-monumento de Nossa Senhora da Oliveira (1967-1973) e a nomeação da dignidade de D. Prior da Colegiada, em 1967, na pessoa de monsenhor António de Araújo Costa, por parte do arcebispo de Braga, D. Francisco Maria da Silva, continuando assim canonicamente viva aquela instituição.
O menino Diogo cresceu embalado pelo latejar da fé e fervor patriótico do pai. A licenciatura em Direito, aos vinte e dois anos de idade, com elevada classificação foi notícia em Guimarães. Conservo na memória a postura fidalga e elegante do novel doutor, quando chamado a participar, como leitor, salvo erro em 1964, na celebração do 24 de junho, Dia Um de Portugal, presidida pelo arcebispo D. Francisco Maria da Silva, na igreja de S. Miguel do Castelo. Estava-.se em plena realização do Concílio Vaticano II e não estava ainda determinada nem oficializada a participação dos leigos nas ações litúrgicas, pelo que o próprio prelado não conseguiu esconder ao clero presente a sua surpresa por tal convite. Todavia, nos momentos que se seguiram, manifestou o seu aplauso. Foi aqui, na envolvência da comemoração da batalha de São Mamede que conheci o professor Diogo Freitas do Amaral.
Uns anos mais tarde, Freitas do Amaral foi convidado de honra para proferir uma conferência nas novas instalações da sede da Assembleia de Guimarães, situada naquela que viria a designar-se Praça da Igualada, cidade catalã geminada com Guimarães. Para fazer a apresentação do orador foi convidado precisamente o seu pai. Perante esta realidade, de todo invulgar, pressentia-se o embaraço do apresentador e do conferente. Mas os homens inteligentes e ilustres descobrem sempre o modo mais adequado para o desempenho das suas tarefas, e assim foi. O engenheiro Duarte do Amaral, acusando a posição incómoda de ser apresentador do filho, referiu, logo à partida, que limitar-se-ia a dizer o que os outros diziam a respeito do seu filho e passou a ler o curriculum vitae do Diogo, curriculum tanto mais invejável quanto referente a um período ainda de poucos anos de carreira. De si próprio, quanto ao conferente, o filho Diogo, acrescentou uma nota não menos encantadora do que tudo que havia referido: “o Diogo foi sempre bom filho, penso que é bom marido e bom pai e peço a Deus que seja sempre assim. A curiosidade de ouvir as primeiras palavras do orador, nomeadamente de agradecimento a quem o apresentou, contagiou uma assembleia que alargava a capacidade do espaço. E o doutor Diogo começou assim, sensivelmente por estas palavras “para que isto não pareça um complot familiar só tenho a dizer que me orgulho de meu pai, que sempre tem sido um bom pai e peço a Deus que assim o conserve”. A conferência, então proferida, versou sobre questões de Direito Administrativo; entre os participantes era patente a larga representação de juristas e profissionais da Função Pública de Guimarães e da Região. Face aos aplausos que ratificaram o valor e o agrado da dissertação, estou habilitado a dizer que aquele ato ficaria memorável e era prenúncio da carreira de um vimaranense que muito honraria a sua terra pelo serviço que viria a prestar ao País. Encerrou a sessão o governador civil do distrito de Braga, dr. Manuel Ascensão Azevedo, homem simpático, de discurso fácil, mas que preferiu sintetizar a ressonância da lição que acabara de receber com uma afirmação, deste género: “todos nós que andámos pelo universidade sabemos quão ciosos são os professores dos seus pergaminhos. Então, se o professor Marcelo Caetano quis repartir a autoria duma obra sobre Direito Administrativo (não fixei a designação), pelo discípulo Freitas do Amaral, isto significa o máximo daquilo que se poderia dizer a respeito da conferência que acabámos de escutar.
Com a revolução de abril de 1974, sentiu-se que o ponto mais negro da mudança não pouparia a família Freitas do Amaral, particularmente o engenheiro Duarte do Amaral. Mas também os verdadeiros amigos não se compadeceram com qualquer tipo de saneamento. E foi assim que, em 1979, quando o cheiro a PREC (Processo revolucionário em curso) ainda causava algum incómodo, o Engenheiro Duarte do Amaral tomava a iniciativa e presidia a um evento de raro alcance histórico e cultural: o (I) Congresso histórico sobre Guimarães e sua Colegiada. De retumbante sucesso falam as atas que pouco tempo depois, foram publicadas.
Este bichinho pela história e o nexo umbilical, que o tema desenvolvido tinha com a fundação da nacionalidade, entusiasmou o professor doutor Digo Freitas do Amaral, no encontro de sentimentos recíprocos com o então presidente da Câmara de Guimarães, dr. António Magalhães, à organização, em 1996 do II Congresso Histórico (que inevitavelmente tinha de ser) sobre D. Afonso Henriques e a sua Época.
O facto que me proporcionou um contacto mais direto e pessoal com este distinto personagem e que terá contribuído para a condição grata de podermos chamar-nos amigos deu-se por ocasião do casamento da sua filha Filipa, em 1993, que veio a realizar-se na igreja da Colegiada. De tudo se falou pormenorizadamente; a data, os processos canónico e civil, toda a logística, presbítero assistente, animação coral… Uma questão foi colocada com que sinceramente não contava: os custos. Sim, acrescentou ele, esta é uma questão de todo pertinente, pois se se gasta tanto com as outras coisas, banquete, fotografias etc… acho que em primeiro lugar, deverá atender-se a tudo o que envolve a igreja à qual, nestes casos, deve ser dada toda a prioridade. Em coerência com este princípio ele contribuiu com a importância de quinhentos mil escudos. Quanto ao assistente religioso pediu para ser dada delegação ao padre Daniel Coelho Henriques Lopes, pároco de Benavente, amigo pessoal e conselheiro espiritual de sua esposa, D. Maria José, particularmente nos momentos complicados e de ansiedade que teve de suportar com o envolvimento do marido no contexto social e político da revolução de abril.
Em tarde de sábado, 12 de junho de 1993, o casamento atraiu a atenção e curiosidade de muitíssimas pessoas. Entre os convidados sobressaía o presidente da república Mário Soares. Quando Freitas do Amaral, ao tratar-se da organização da cerimónia, me revelou esta circunstância, confesso que, por dentro, fiquei surpreendidíssimo. Só uma alma grande de coração nobre seria capaz de relegar para plano secundário as habilidades do adversário político para considerar o amigo. Surpreendido fiquei também com o lugar que me foi atribuído no banquete: precisamente na mesa do presidente da república. Aqui também, o nosso grande homem, professor Diogo Freitas do Amaral manifestou que realmente era um anfitrião diferente: para ele eu era um convidado especial, alguém revestido do caráter sacerdotal e representante da instituição mais antiga, a insigne e real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira.
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Nada do que acaba de ser dito consta do interminável e suculento curriculum, do homem cujo objetivo claro foi servir a Nação. Entendi, no entanto, que deveria partilhar estes recortes das minhas insignificantes memórias, as quais me ajudaram a crescer e a não esquecer que a plataforma de amizade consiste em ser fiel aos princípios e valores que determinam o objetivo da nossa existência: servir a Deus e aos homens.
Termino com a declaração frontal do próprio Diogo Freitas do Amaral inserta no último parágrafo da sua obra mais recentemente publicada “Memórias Políticas III (1982-2017), pag. 370: “Fui formado na doutrina social da Igreja no tempo do grande Papa João XXIII (1958-1963) e chego ao fim da minha carreira política no pontificado do excepcional Papa Francisco. Ninguém poderá dizer, creio bem, que a minha evolução intelectual e política tenha sido contrário à acentuação da prioridade social dada pela Igreja Católica à sua doutrina nos 60 anos que decorreram desde que entrei para a universidade em 1958, até à conclusão destas memórias, em 2018”.

5 de outubro de 2019
Mons. José Maria Lima de Carvalho

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