Arquivo: Edição de 17-05-2019

SECÇÃO: Região

A história da pia batismal de D. Afonso Henriques

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A tradição diz que o batismo do infante Afonso Henriques ocorreu na Capela de S. Miguel, junto do Castelo de Guimarães. Porém, esta tradição não é assim tão linear, pois, além do período inicial, a pia batismal esteve 276 anos ininterruptos no santuário de Santa Maria de Guimarães (Nª Srª da Oliveira), como se pode verificar pelo seu roteiro:
1 - A 1ª transferência da pia batismal do seu local de origem, ou seja, do santuário de Santa Maria de Guimarães para a Capela de S. Miguel terá ocorrido na altura em que a Capela passou a ser a igreja paroquial da nova freguesia de S. Miguel do Castelo e cuja sagração ocorreu em 1239.
2 - No dia 12 de novembro de 1664, o Prior da Colegiada, D. Diogo Lobo da Silveira, mandou transferir para a igreja de Nossa Senhora da Oliveira a pia batismal, colocando-a ali em um nicho defendido por barras de ferro e com uma inscrição que atribuía ao arcebispo S. Geraldo o ato do batismo, no ano 1106.
3 - As Memórias Paroquiais de 1758, referindo-se à capela de S. Miguel do Castelo e D. Afonso Henriques regista a existência da pia ainda no mesmo local. A mesma informação é prestada pelo Padre António José Ferreira Caldas (1843-1884), no seu livro “Guimarães – Apontamentos para a sua história”, publicado em 1881:

E quando é que a pia batismal foi colocada novamente na capela de S. Miguel do Castelo?
Ao longo da sua história, a vetusta Capela foi objeto de dois restauros: um entre 1874-1880 e outro entre 1937-1940. O estado de ruína do edifício era tal que o arcebispo de Braga, D. José Joaquim de Azevedo e Moura, vendo-o impróprio para o culto religioso, foi obrigado a privá-lo de todas as antigas prerrogativas paroquiais e um pouco mais tarde o telhado abatia. Em 17 de Agosto de 1874, foram iniciadas as obras de restauração, que não prejudicaram a arquitetura antiga: uma Capela humilde, de rude construção e de reduzidas dimensões. Quase seis anos depois, em 20 de julho de 1880, a Capela, já restaurada, foi reaberta aos fiéis.
Acontece que a Direção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais (DGEMN), para as comemorações do 8º Centenário da Fundação da Nacionalidade, e atendendo aos danos provocados pelo tempo, procedeu à restauração do Castelo e da Capela e cuja inauguração ocorreu a 4 de junho de 1940.
Foi neste último restauro, entre 1937-1940, que a pia batismal voltou para a Capela de S. Miguel e aí foi resguardada por uma grade de ferro, com uma lápide informativa sobre o batismo de D. Afonso Henriques. Os responsáveis pelo restauro foram imbuídos de um patriotismo e nacionalismo populistas, em vigor na época, não tendo em conta a realidade histórica da pia batismal e da Capela. Estávamos numa época em que os nacionalismos campeavam, exacerbadamente, por toda a Europa. Em Portugal, esse movimento nacionalista tornou-se bem visível, em 1937, com uma extensa campanha a favor da restauração dos Castelos portugueses, com vista às Comemorações Centenárias da Fundação da Nacionalidade (1140?) e da Restauração (1640), integradas nas grandes festas apologéticas do Estado Novo, iniciadas, com pompa e circunstância, a 2 de junho de 1940. A esse movimento “restauracionista”, atribuem os autores várias alterações que não respeitaram a traça original dos monumentos intervencionados. No caso concreto da Capela de S. Miguel é incompreensível ter sido retirado o campanário que se encontrava por cima da porta principal, bem como a demolição de dois pequenos altares. Esqueceram-se os “restauracionistas” de 1940 que estes três elementos (o sino e as capelas) nos conduziam ao tempo em que a Capela servia de igreja paroquial.
Convém ter em atenção que a informação constante da lápide não diz que o batismo ocorreu na Capela de S. Miguel, mas apenas regista o “batismo na pia”. A invocação da tradição confunde as duas realidades, fazendo uma interpretação extensiva, concluindo que se foi “nesta pia” também o foi “na capela”. Ora, tudo aponta para que essa pia batismal pertença ao santuário de Santa Maria de Guimarães, denominado de Nª.Sª da Oliveira a partir de 1342 por virtude do “milagre” do reverdecimento da oliveira.
Os que defendem a tradição a favor da Capela de S. Miguel atribuem a D. Henrique (pai do infante Afonso Henriques) a iniciativa da sua construção, para sua Capela Real. Porém, essa opinião é rejeitada por vários investigadores mais modernos, os quais afirmam que “pela sua datação, o românico já não é perfeito, e parece prenunciar, em alguns aspetos, a ascensão do gótico”, atribuindo a sua construção à Colegiada de Nª. Srª. da Oliveira, apontando as suas origens para as duas primeiras décadas do século XIII. Portanto, a sua construção ocorreu muitos anos depois do nascimento de D. Afonso Henriques.
Se a chamada Capela Real tivesse sido obra do Conde D. Henrique não é crível que permanecesse desprovida de consagração cerca de século e meio. E essa sagração solene da capela apenas se efetuou em 1239, com a intervenção do Arcebispo D. Silvestre Godinho”. Acrescente-se que, do mesmo modo, também não se compreenderia que a sua existência estivesse tanto tempo ausente dos documentos da época. Com efeito, a primeira referência documental que se conhece, relativamente à Capela de S. Miguel do Castelo, encontra-se na concordata, de 23.10.1216, entre D. Estevão Soares e o Capítulo da Colegiada. Alguém acredita que D. Henrique iria construir, para sua Capela Real, uma edificação tão pobre e rudimentar, quando na altura se construíam monumentos religiosos tão imponentes, como, por exemplo, as Sés e mosteiros?
Em 1220, a Capela ainda não tinha alcançado a categoria de igreja paroquial, uma vez que não é objeto das Inquirições desse ano (D. Afonso II). A capela surge, porém, nas inquirições de 1258 (D. Afonso III) como paroquial e sufragânea (dependente) da Colegiada (da igreja de Santa Maria).
É sabido que a História portuguesa está escrita com numerosas inexatidões, o que muitas vezes acontece pelo facto de o erro, uma vez lançado por autor com alguma audiência, vai-se inveterando, passa de livro em livro e de voz em voz e em certa altura torna-se dificílimo retificá-lo.
Ora, sendo um dos objetivos da “Grã Ordem Afonsina-Vida e Obra do Rei Fundador”, (associação recentemente criada em Guimarães), pugnar pela verdade histórica, espera-se, com o apoio da hierarquia da Igreja da diocese, se consiga repôr essa verdade, trazendo a pia batismal para o seu local de origem, de onde nunca deveria ter saído.

Narciso Machado
(Juiz desembrgador jubilado)
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