Arquivo: Edição de 13-02-2009

SECÇÃO: Informação Religiosa

A imagem de Deus criador

No pórtico de entrada para o monumento literário e religioso que é a Bíblia deparamos com uma imagem majestosa: a de Deus criador, imponente, soberano, princípio de todas as coisas e pessoas. Só podemos compreendê-la atendendo à linguagem que a pinta nas narrativas da criação em Gn 1-11. Lendo-as no contexto cultural, literário e religioso do antigo Próximo Oriente em que foram escritas, aparecem como mitos de criação. Esta conclusão, que emerge da exegese dos textos, é positiva e fecunda para a compreensão deles. Bastará para isso ter em mente a sua significação, hoje consensual entre os especialistas. Eles são uma forma de comunicação, aproveitada para a revelação desse traço da imagem de Deus cristalizar por escrito. De facto, “na Sagrada Escritura Deus falou por meio de homens e à maneira humana” (Dei Verbum 12) e “nenhum dos modos de falar, de que entre… os orientais se servia a linguagem para exprimir o pensamento, se pode dizer incompatível com os livros santos” (Pio XII, Divino afflante 20).
No mundo da Bíblia, os mitos de criação, entendidos como narrativa que incorpora símbolos primitivos fundamentais e arquétipos de existência humana, visam compreender a complexidade das realidades do mundo, compreensão que transcende a experiência sensível e o discurso abstracto. Como forma de dar-lhes a maior dignidade possível e o mais elevado sentido humano e religioso, contam as suas origens e atribuem-nas à acção criadora do Deus único “no princípio” absoluto de tudo. São autênticos actos de fé: resultantes de uma atitude contemplativa dos seus autores, vêem Deus em todas as coisas e apreendem todas as coisas à luz de Deus. Pela fé, interpretam e sublimam a existência. Como o ícone, proporcionam um encontro de comunhão espiritual e de reconhecimento de uma Presença transcendente. Com imagens, exprimem simbolicamente uma experiência de relacionamento activo do Deus invisível com o mundo visível, convidando os humanos a senti-lo na sua vida e a enchê-la de significado. Abrindo-nos ao Mistério, do qual são Imagem e representação, abrem-nos a Deus como Inefável Criador e transformam-nos.
Portanto, os mitos de criação são narrativas reveladoras de sentido e repositório de sentido. Não relatam acontecimentos localizáveis no tempo e no espaço. Nem se entendem à letra, sob pena de obscurecer a transcendência de Deus e pôr a nu contradições entre a primeira e a segunda narrativa da criação! Assim retiram toda a consistência ao criacionismo. Não respondem a perguntas científicas sobre as origens físicas do mundo e da vida. Não são históricos senão na medida em que implicam e explicam a história humana. Só remontam ao original para explicar o actual. Não são fotografia do que aconteceu fisicamente “no princípio”, mas radiografia do mundo conhecido, por eles projectada em negativo nas origens; são uma imagem do mundo, visto à luz de Deus. Dizer “Deus criou o mundo” não é pensar que o arrancou do nada ou de matéria pré-existente, por evolução ou duma assentada; nem é pensar no momento ou no acto da sua feitura. É um convite a contemplar nele uma abertura ao transcendente, pondo ao vivo o mistério da sua relação com Deus e vendo-o como feito por Ele.

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A dos mitos bíblicos de criação é, pois, uma teologia de relação, um discurso que diz verdade sobre Deus e diz a verdade suprema do homem e da mulher, ao afirmar na fé que provêm de Deus. Desde as primeiras páginas da Bíblia, a imagem de Deus não é a do Ser em si, como se pudéssemos falar d’Ele com objectividade neutral. É a de um Deus para: o Deus da pessoa e para a pessoa. O Deus criador é Alguém que age, fala e se revela em relação com o destino humano. Ao fim de contas, porém, Deus tem de ser o Deus do universo. Nem seria Deus se não fosse Deus de tudo o que existe.
A concepção bíblica de criação sublinha, então, a transcendência de Deus. O único traço de união com a própria obra é a sua Palavra. Dizer que Deus criou pela Palavra (“Deus disse” e as coisas foram existindo) significa que ele não está no mundo senão para além dele: a criatura é totalmente outra em relação ao Criador. Não se pode dizer que a sua Palavra seja causa produtora de efeitos; nem que o seu criar seja um efectuar. Precisamente porque as coisas são vistas como criadas pela palavra de Deus, podemos dizer que elas falam d’Ele. Para a fé, o universo projecta para o exterior o ser de Deus (Sl 19,2-7), tornando-o objecto de contemplação. Assim os relatos de criação fazem acontecer revelação. E esperam que o leitor actue à altura da sua dignidade de imagem de Deus.
Entendendo as narrativas da criação como mitos, o Deus que nelas se projecta deixa de aparecer como deus menor, mesquinho ou irritado, que castiga com justiça os desobedientes. A desobediência, cometida antes de os humanos terem adquirido o conhecimento e de estarem criados, tem a função de dar sentido aos aspectos penosos da vida, descrevendo-os como criados por Deus em forma de sanção dos humanos que estavam a ser criados, por terem transgredido a proibição divina, miticamente arranjada.
Contando que as coisas foram criadas por Deus, os mitos de origem sugeriam que o sentido das coisas é Deus e que a perda de Deus do horizonte da vida seria a perda do sentido! Ficaria só uma vida sem alma, uma vida desalmada, um deserto insuportável. Para aí aponta a mensagem das narrativas da criação: Deus é o tudo de cada coisa e do ser humano.

P. Armindo Vaz
professor de Bíblia na UCP
in A.E.

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