Arquivo: Edição de 16-05-2008

SECÇÃO: Generalidades

Leituras e Mensagens...

160.° – História do Milagre de Santarém

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Quem lê o segundo volume das “Viagens da Minha Terra” de Almeida Garrett, logo se apercebe do sabido gosto que ele nutre pelo Romantismo, o mesmo é dizer, pelo surgimento dos testemunhos chegados até nós do passado histórico da nação. O revivalismo de um sentimento profundo na alma do romancista leva-o a esconjurar os pseudo-restauros operados casuisticamente em tantos monumentos civis e sobretudo religiosos vindos até ao séc.XVIII e então completamente esventrados pelo mau gosto da época. Daí, por exemplo, o terem-se coberto com estuques interiores de igrejas românico-góticas tão belas nas suas pinturas murais ou nos seus frescos geomórficos, escondendo arte de expressão religiosa e litúrgica de um valor irrecusável.
Almeida Garrett estadiava por Santarém nas últimas horas de um dia onde ele contemplava embevecido “os ornatos e glórias suburbanas que ainda possuía a nobre vila, não lhos destruindo de todo; sobretudo os seus olhos contemplavam os olivais de Santarém, cuja riqueza e formosura proverbial é uma das crenças populares mais gerais e mais queridas, os olivais de Santarém lá estão ainda. As igrejas quase todas, porém, as muralhas e os bastiões, algumas das portas, e poucas habitações particulares, conservam bastante da fisionomia antiga e fazem esquecer a vulgaridade do resto”- assim se exprimia – lamentando na sua tristeza interior – o grande poeta e romancista.
A milagrosa Santa Iria – Santa Irene – que deu o seu nome a Santarém, primitivamente cognominada a “Scalabis”, e depois de Júlio César ter concedido à cidade várias regalias, passou a chamar-se “Praesidium Julium”, aí, a mencionada nobre donzela – Santa Irene – natural da antiga Nabância, hoje a cidade de Tomar, viveu e imolou a sua vida por vontade ao Divino Crucificado do Gólgota.
Diz a lenda que, vivendo recolhida no convento duplex beneditino de Tomar onde pastoreava o santo abade Célio, dela se enamorou extremosamente um jovem chamado Britaldo filho do conde ou cônsul que governava aquelas terras. Tentou e conseguiu tirar-lhe aquela paixão tão louca e prosseguir a obra de conversão do enamorado Britaldo. Diz a mesma história que convertido o jovem, logo o demónio se foi encaixar em não menor personagem do que o monge Remígio, que era o mestre e director da bela Iria. Arde o frade em concupiscência, e não obtendo nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se. Corre a fama de que a santa, tomando uma bebida de diabólica preparação operada pelo monge, logo a adormeceu e se aproveitou para a violar. Britaldo que se julga escarnecido pela hipocrisia daquela mulher artificiosa, aproveitando a ocasião em que ela todas as noites ía desabafar numa oculta lapa ao pé do rio Nabão, para ali estar mais a sós com Deus, espreitou a ocasião e ali a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a história conservou para maior testemunho da verdade: chamava-se Banam.
É esta a história de Santa Iria ou Santa Irene que deu o seu nome a Santarém e aqui se encontra claramente expresso o motivo que explica o grande interesse dos Românticos, como Almeida Garrett, pelas tradições populares. O saber colectivo das tradições orais descobre mais valias nos ecos longínquos que os ventos fazem retinir no coração atento e apaixonado. Este é o estro do grande romancista.
A nossa história do grande “Milagre de Santarém” bordeja também a paisagem da encosta escalabitana. Conta-se assim:
- O Templo do Milagre, hoje monumento nacional, está ligado a uma das mais nobres tradições de Santarém, o Santíssimo Milagre, sucedido no ano de 1266. Vem narrado nas crónicas de Dom Sancho II e Dom Afonso III de Frei António Brandão.
- Certa mulher da vida, desejando recobrar o amor do marido que a maltratava constantemente, consultou uma comadre sua, judia, que se entregava à prática de bruxaria. O conselho que recebeu foi o de ir à Igreja de Santo Estêvão e roubar durante a missa, fingindo comungar, uma hóstia consagrada. Assim fez a pobre mulher. Ao voltar para casa com a hóstia embrulhada numa beatilha, notou, porém, que o pano se alagava em sangue. Escondida a hóstia numa arca, sucessos mais extraordinários ocorreram ainda durante a noite: a casa foi inundada de luz e de um suavíssimo perfume. Confusa, a pobre mulher contou o que se passara ao marido que, imediatamente, o foi comunicar ao pároco. A hóstia foi então levada processionalmente para a Igreja de Santo Estêvão e metida numa Custódia de Cristal que se venera hoje no templo do Milagre. Perto desta Igreja no local onde se deu o miraculoso facto, foi mandada construir, em 1654, pelo médico Manuel dos Reis, uma capela, que ainda hoje se pode visitar. O Templo do Milagre é um dos mais belos de Santarém. Tem três naves, transepto com tetos de madeira e seis colunas que datam dos sec.XVI e XVII.
Eis aqui mais uma bela história das terras lusitanas cujo chão sagrado está todo ele repassado do amor e da devoção ao Santíssimo Sacramento e a Santa Maria Mãe de Deus. Vale a pena visitar a bela Santarém, terra de Santa Iria, e o não menos admirável “Templo do Santíssimo Milagre”. Pode bem ser um esplêndido roteiro de férias a programar.

Pe. Armando
21/04/2008

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