Arquivo: Edição de 16-05-2008

SECÇÃO: Generalidades

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Farrapos de Verdade

1. - Um dicionário Bíblico, descreve do seguinte modo o burro: “ O burro da Palestina é muito vigoroso, aguenta o calor, alimenta-se de cardos; a forma dos seus cascos torna segura a sua marcha; enfim, a sua manutenção é pouco custosa. Os seus únicos defeitos são a teimosia e a preguiça”.
É. Teimoso e preguiçoso!
Como o burro – desculpem-me o exemplo – parecemos nós também: urra-se em casa, nos supermercados, nas casas comerciais, nos estabelecimentos hospitalares, nas ruas com tanta falta de civismo e de segurança.
Avançamos no ritmo que nos é próprio: lentos a pensar e a agir, calmos na acção e na execução do presente e, receosos na preparação do futuro.
Aceitamos e trilhamos os caminhos pedregosos da vida nacional e nada fazemos para melhorar o piso de uma vida social digna que temos direito. Esbarram-nos nos muros de pedras afiadas e nos problemas cancerosos que nos têm afundado. Avançamos no silêncio, ruminando apáticos e deixamo-nos embebedar na preguiça que só aos oportunistas faz jeito.
Por caminhos esburacados do descontentamento, deixamo-nos montar ao zumbir do elevado custo de vida e não receamos a existência da organizada preguiça, que a alto preço pagamos. Silenciosamente, teimosos como o burro – desculpe-se novamente a comparação – insistem em nos oferecer um jugo e um fardo tão pesados de problemas nacionais que, ao apercebermo-nos de constantes mentiras, de quando em vez apresentam farrapos de verdade: que nos enfraquecem, nos envergonham e nos colocam sob as árvores da frustração.
Teimosamente, insistem em cardos utópicos que não tragamos e gastando-nos os cascos em caminhos duvidosos, em discursos de ocasião, em demagogia constante, confundem-se ou não têm competência para saber que os “cascos” a romper pelo povo, serão sempre os caminhos da objectividade, do rigor, da disciplina social e na alegria de ser português!

2.- Mme. Di Epinay, diz que se costuma ver o passado melhor do que na verdade foi; que se acha o presente pior do que é; e diz que se espera o futuro mais feliz do que deverá ser.
Ninguém discorda, creio bem, que o passado de qualquer homem ou comunidade, é bom, se proporcionou bons acontecimentos. Se pouco ou nada existiu de bom, o passado poderá ser recordado, somente, pelos anos a menos que se tinha então.
O passado do homem, dos povos, somente provocará pena, se o presente estiver a ser mau. É assim que se pensa, se sente e julga, e é assim que até em política, se pode “regressar ao passado”, que normalmente são regressos perigosos!
Quando o presente é mau, situação que pode atirar com os povos ao encontro do passado, é evidente que poucos acreditarão no futuro. Razão também porque as crises se instalam: como o desinteresse, desconfiança, pessimismos, etc. Quando muito, em relação às esperanças do futuro, se o presente estiver mau, fazem-se experiências, e estas nunca serão a base dum bom e organizado futuro.
Mais: se o presente teve como base o passado, o futuro terá sempre como base, ambos. Isto, é o percurso normal de qualquer povo!
De maneira que, tendo muita razão a pensadora Di Epinay e meditando nas suas afirmações práticas e cheias de vivência, Portugal, tem sido gente de pouca sorte durante esses três tempos, sobretudo nos últimos cem anos passados: com governantes traidores, mentirosos e, tantos outros, cobardes.
Fomos um grande povo, mas pequenos no atletismo da política, da indústria e da economia. Melhores os espanhóis, que “miraram” em todas as direcções e profundidade e, hoje, praticamente, somo-lhes submissos.
Fomos possuidores de um grande Império, admirados pelo mundo e, hoje, encontramo-nos reduzidos a seiscentos por trezentos quilómetros de terreno!
Creio bem, que os nossos antepassados, descobridores e conquistadores, dão saltos de revolta e de vergonha na tumba, por “verem” a nossa insignificância: pedintes e pretensiosos.
Mas vivemos tranquilos! Cheios de nada e portadores da filosofia das esquinas ensebadas. E se por momentos pensamos ou paramos para reflectir, talvez consigamos sentir um pouco de vergonha, por sermos fortes em segurar as calças numa mão e, na outra, o saco da pedinchice.
Tantas vezes, arrotando não se sabe a quê, somos capazes de “fisolofar” e dar a impressão nos palcos televisivos, que somos os maiores e sem falhas. Nunca ou quase nunca ninguém se engana! Nunca temos culpa de nada e raramente nos sentimos responsáveis pelo que de mal acontece. E se necessário, partimos os dentes a quem não os tem ou damos uma chapada a quem (já) não se pode defender. Conhecemos os recos à volta da gamela e começamos a pensar imediatamente porque não estamos lá também, bem como o filho, o sobrinho, o afilhado ou mesmo a amante!
Assim caminhamos, de sorriso amarelo, mas, se possível, com festas de arromba, onde nas montras da televisão, surgem sempre em grande plano os bichas e os vacómetros de pele alisada pelo ferro eléctrico da moda.
Somos os maiores em estrelas de futebol e no que sentimos por Fátima. Desse modo, cantamos o Fado de cinto colado à barriga e, esta às costelas, e quanto ao presente e ao futuro de Portugal, quem vier atrás que resolva, porque o trabalho é cansativo e mata sobretudo os políticos. E viva Portugal!!!

Artur Soares

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