Arquivo: Edição de 11-04-2008

SECÇÃO: Região

Escultor António de Azevedo

Em 18 de Abril de 1968, celebrar-se-ão os 40 anos sobre a morte do escultor António de Azevedo, e talvez os bem-pensantes entendam dever esperar mais 10 anos, aguardando o ano de 2018, para então, no cinquentenário da sua morte, lhe prestar a homenagem que bem merece. Não é minha vontade esperar tanto tempo, porque não sei se serei vivo nessa altura, e principalmente porque, como já foi salientado, a sua sepultura, no nosso cemitério, se encontra presentemente ao abandono.

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É imperioso, e urgente, que Guimarães cumpra o seu dever para com este grande artista, e, no meu entender, temos agora uma boa ocasião: passa-se no dia 30 de Março de 2008 os 50 anos sobre a data em que o escultor António de Azevedo se aposentou, deixando a Escola Industrial de Francisco de Holanda, que superiormente serviu como director desde 1931.
Se Guimarães se orgulhasse dos seus artistas, certamente, já teria incluído o nome de António de Azevedo na toponímia da cidade (depois da sua morte, só se esperou cinco anos para incluir Molarinho na toponímia da cidade!). Mas, como António de Azevedo não era, nunca foi político, continua à espera que uma alma mais sensível o proponha para tal homenagem. Ficaria bem ao Conselho Directivo da sua - e minha – escola propôr à Câmara Municipal que dessem o seu nome a uma das nossas ruas; Vila Nova de Gaia já o fez porque António de Azevedo, (embora sem o querer), nasceu no seu concelho: não será caso de fazermos nós o mesmo quando António de Azevedo quis, por sua própria vontade, viver em Guimarães os últimos 37 anos da sua vida e aqui produzir parte importante da sua obra?...
Tenho uma razão muito particular para aqui o recordar. Houve um dia em que os meus passos se cruzaram com os seus: corria o ano de 1949, era ele director da Escola Industrial de Guimarães e eu aluno do Ciclo Preparatório dessa escola. Habituei-me a vê-lo na aula de Trabalhos Manuais observando com atenção as peças de barro que os alunos iam fazendo. Certo dia, mostrando eu dificuldade em fazer os olhos de um medalhão de D. Afonso Henrique, ele propôs-se mostrar-me fotografias de esculturas célebres onde poderia encontrar sugestões para o meu trabalho. Pouco me lembro do que vi na sua casa, ali bem perto da Escola, mas retenho na lembrança uma cabeça monumental, de olhos esbugalhados, que só muitos anos depois vim a saber tratar-se da cabeça do imperador Constantino, que, muito recentemente, tive a oportunidade de ver, com os meus próprios olhos, num dos museus de Roma.
Dos meus trabalhos em barro, António de Azevedo escolheu um para concorrer ao Salão Nacional de Educação Estética da Mocidade Portuguesa: era a estatueta de um cavalo que se empinava sobre as patas trazeiras, que eu fiz sob a influência do cavalo do Zorro, da banda desenhada. Soube mais tarde que fora premiada nesse salão e por isso iria receber a respectiva insígnia. Recebi-a efectivamente, em Braga, das mãos do Professor Doutor Marcelo Caetano, então Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa.
Muito tempo depois, vim a saber, por mero acaso, que o meu director tinha feito pressão junto dos jornais locais para que neles fossem referidos os nomes dos alunos premiados. Encontrei há dias, no Comércio de Guimarães de 24 de Fevereiro de 1950, essa referência, onde, no meio dos premiados, se lê: “Fernando José Teixeira, infante, do C.E. 2”.
Estas linhas servem, portanto, para prestar a minha homenagem ao escultor António de Azevedo, director da minha Escola, não só pelas obras de arte com que enriqueceu Guimarães e que eu me habituei a admirar, mas também e sobretudo pela amizade e apoio que me dispensou como aluno da sua Escola quando, na verdura dos meus anos, tive felicidade de o conhecer.
Se eu mandasse, daria o seu nome ao Jardim da Alameda, onde se encontra o “Faunito”, de um lado, e a “Rapariguinha”, do outro, duas das suas mais belas esculturas. Numa altura em que ainda não sabemos o destino a dar às obras de arte existentes no Toural, face aos ventos da mudança que sopram por estas bandas, talvez a vizinhança do nome do seu criador poupassem a essas esculturas um êxodo forçado. Que Deus me ouça!

9 de Março de 2008
Fernando José Teixeira

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