Arquivo: Edição de 08-02-2008

SECÇÃO: Generalidades

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O Nosso Mundo
A cirurgia que falta

Há dias atrás, um velho amigo que já não vinha a Portugal há mais de quarenta anos, procurou-me e, realmente, não o reconheci. Como estava mais magro, distinto no vestir, falar e, diferente na sua maneira de estar, foi necessário exibir-me uma foto antiga para saber que se tratava do Pileca, militar que, então, comigo sobreviveu por terras do oriente. Nesses tempos, o Pileca era bastante gordo, abandalhado, grosseiro até, sem pejo. Razão porque o alcunharam de “Pileca”.
Indiquei ao meu amigo o mais cómodo e luxuoso hotel da zona – assim o exigiu – e estivemos na conversa desde as nove horas da noite às dez da manhã do dia seguinte. Falamos de si, de mim, da política, do nosso apalhaçado futebol profissional (muito se riu do que lhe contei), da saúde e da podre economia portuguesa, para, seguidamente, entrarmos no problema das religiões, caminhos de vida que visam a cura ou a perfeição das Almas, do Espírito do homem.
O meu amigo vive desde longa data em Nagpur, na India, e informou que nesse oriente longínquo, há religiões para todo o género de almas e malabaristas para todo o género de personalidades. Uma coisa afirmou o Pileca: acredita-se na India que não há homens sem alma, uma vez que estes se distinguem dos animais, embora alguns se comportem como tal. E como só o homem lamenta e sofre com os desaires ou os cancros da alma, na sua modesta cidade de Nagpur, já existe uma Clínica de Almas, de cirurgia avançada, devido à falta de Directores Espirituais que, como em Portugal, vão sendo agulhas em palheiro.
- Mas, desculpa a interrupção, Pileca. Que género de cirurgia se faz à alma e como se conclui que há almas doentes?
- Bom. Devo dizer-te antes de mais, que vim a Portugal a mando desse grande cirurgião de almas, o senhor Noack, porque conhece as enfermidades espirituais de vários países do mundo, em especial as dos portugueses. O senhor Noack, natural de Mumbai-India, está na disposição de montar uma clínica de almas em Portugal e investir cá cinquenta milhões de Euros, criando seiscentos postos de trabalho na clínica. Actua o senhor Noack, com métodos especiais-espirituais e, afianço-te, que nunca recorreu à hipnose, à lavagem de cérebros ou anestesia. Até porque, as almas, normalmente, não são doentes. Ganham defeitos que podem ser amputados, tais como defeitos de cegueira, de indecisão, de orgulho, as dores da cotovelite (ciúmes), avareza, tumores intelectuais, gatunice, banditismo, terror da morte, vícios e tantos outros! Resolve também o senhor Noack, defeitos de virtudes excessivas, bem como virtudes doentias: a mania, por exemplo, do perfeccionismo – seja em que classe social for – a caridade torpedeada, o parternalismo excessivo e excêntrico, enfim, tudo que estorve a alma dos outros. São cirurgias com precisão, sem dor e sem pressas, sem faltas de paciência e sem serem de borla, pois claro!
- Desculpa interromper-te novamente, Pileca. Mas não se tratando de curar almas através da espontânea confissão e conselhos pessoais, será o senhor Noack um psicólogo, neurologista ou coisa do género, que, por isso mesmo, tem sucesso nas almas cancerosas e nas de virtuosidades excessivas?
- Repara, companheiro. Freud, estudou os distúrbios mentais, as causas nervosas, a ausência de moral no homem e outros males. E tais estudos não servem nem se aplicam a possíveis amputações na alma. Mas, Noack, porque é Indiano e convicto seguidor do Cristo, tornou-se especialista infalível, como cirurgião do espírito e, só do espírito! É que há almas que crescem de mais: ficam jactantes, incham, e sonham sem parar e nada concretizam. Há dores do pecado: os remorsos que anulam o bem-estar. Há a podridão da excessiva cultura injectada: que aumenta o pedantismo doentio, conforme se verifica nos Ministérios, em várias repartições públicas, certas instituições privadas ou não. Enfim, há defeitos de todos os graus e qualidades, que é necessário amputar, anular. Porque, nota bem: “uma alma limpa, é a força do homem, tal como a electricidade é a força do motor ou do gerador. E a melhor paz para a humanidade é cada homem viver o melhor possível sob o ponto de vista espiritual”. Mais: se em certas zonas da India, se crê, que Alguém emprestou ao homem a alma limpa e perfeita, como poderá regressar à Origem, defeituosa? Não será melhor para o homem “entrar com um só olho ou uma só mão na Vida, do que ser lançado na geena do fogo?
- Mas justifica-se tal Clínica em Portugal? – Perguntei.
- Claro que sim! Cá, já não existem almas limpas e perfeitas que vos justifiquem como “nobre povo, nação valente e imortal”! Clínica? Sim. Pois “quem investe na alma, colherá do Espírito a vida eterna!
- Amigo Pileca, diz-me: quanto custa sacar da alma oito ou dez defeitos? E diz-me também se uma alma pode ser substituída.
- Há defeitos na alma, que já têm pêlos ou estão rançosos. Nestes casos e para começar, seriam vinte e cinco mil euros. Quanto à substituição da alma, isso é possível, uma vez que há por aí almas perdidas e, compram-se por tuta-e-meia, em qualquer tempo. Mas esse serviço é polémico, pois repara que pode passar depois um homem a viver com alma de um facínora qualquer, como por exemplo a alma de alguns políticos que nos têm governado.
Disse ao meu amigo que iria iniciar a legalização da tal clínica, tendo em atenção a existência da Concordata com o Estado, que poucos a entendem, logo, poucos a podem explicar.
Desta visita, já lucrei, por o meu amigo com convicção afirmar que “quem semear(investir) na alma, colherá do Espírito a vida eterna”.
Há muito trabalho a fazer em prol das almas e, temo que os milhões se não invistam em Portugal e o amigo Pileca desapareça para sempre. Talvez não!

Artur Soares

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