Arquivo: Edição de 08-02-2008

SECÇÃO: Região

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Antigamente… O Toural

É sabido que nos princípios do século XIV os conventos de S. Francisco e de S. Domingos estavam sendo erguidos junto das muralhas da vila de Guimarães, o primeiro ao pé da Porta da Torre Velha, (junto às escadinhas que dão para o largo da Condessa do Juncal), o segundo, junto à Porta da Vila (à saída da Rua da Rainha). Essa localização criou sérios problemas à defesa do burgo vimaranense durante o cerco de 1322; e Mem Rodrigues de Vasconcelos, meirinho da região de Entre-Douro-e-Minho, “temendo outros encontros, arriscados como este, informou a El-Rei (D. Dinis) do perigo em que estivera pela muito vizinhança dos sobreditos conventos. E logo lhe foi enviada ordem para os lançar por terra, demarcando as distâncias e sítios em que ambos podiam edificar-se de novo” (“História Seráfica”, vol. I, p. 148).

Pouco depois, no reinado de D. Fernando, por ocasião do cerco de Henrique de Trastâmara, as autoridades vimaranenses, para facilitarem a defensão da vila foram forçadas a destruir casas e árvores nos arrabaldes mais próximos da vila. Foi posta a questão a El-Rei, com o pedido de que “daqui em diante não houvesse aí arrabaldes porque eram danosos à defesa da vila, nem árvores nem casas ao redor do muro a cerca de um tiro de besta”. O monarca anuiu e, em carta de 20 de Setembro de 1369, ordenou que “daqui em diante não façam nenhumas casas nem ponham árvores ao redor da vila do lado de fora tão chegadas ao muro que possam daí atirar e lançar uma boa besta… E se algumas casas ou árvores aí estão, agora mandamos que as derribem e tirem aqueles a quem pertencem sob pena de as perderem” (Fernando José TEIXEIRA – “O Castelo e as Muralhas de Guimarães”, Guimarães, 2001, p. 109 e segs.).
Toural com a Igreja de S. Sebastião, ao fundo (fotografia anterior a 1864)
Toural com a Igreja de S. Sebastião, ao fundo (fotografia anterior a 1864)

Talvez não haja exagero se dissermos que desta determinação régia resultou o rocio do Toural e o espaço vazio de casas e arvoredo que outrora se prolongava até ao Campo da Feira (sabemos que a Colegiada desacatou esta determinação mantendo na sua posse uma vinha situada entre o Postigo do Campo da Feira e o convento de S. Francisco, mas dela se desfez quando D. João I, por carta de 16 de Fevereiro de 1391, manifestou a sua vontade de que os franciscanos estendessem por essa vinha o adro e rossio do seu convento).

Este amplo espaço veio a ser afectado nos finais do século XVI com a construção da pequena ermida de S. Sebastião, levantada pelos devotos, que o arcebispo de Braga, D. Frei Bartolomeu dos Mártires mandou substituir por uma igreja mais ampla, sede da nova paróquia de S. Sebastião. Essa igreja erguia-se defronte da Torre da Alfândega, que hoje ostenta, orgulhosa, o letreiro luminoso “Aqui nasceu Portugal”.
A partir de então, o grande espaço criado pela determinação do rei D. Fernando viu-se partido ao meio: de um lado, o Toural, do outro, a actual alameda, com as suas alpentradas coladas à muralha.

Mas nem assim o Toural ganhou os seus galões de “Praça Maior”. Por força da tradição, eles pertencem (e sempre pertencerão) à Praça da Oliveira… apesar de ser mais pequena. Se quisermos ser fundamentalistas e quisermos mesmo chamar praça maior àquela que, de facto, o é, talvez tenhamos de nos virar para o Campo da Feira que, até agora, tem estado calado, como que alheio à controvérsia.

Se o Toural é um espaço à parte, deve-o aos prédios que se perfilam na sua face ocidental… mas isso é outra história.

Fernando José Teixeira
28 de Janeiro de 2008

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