Arquivo: Edição de 28-07-2006

SECÇÃO: Generalidades

O Nosso Mundo

EU E KIRIBIBATI
Nesta noite de insóneas, em que o ponteiro do relógio atingiu as três da madrugada, sinto-me cansado. Cansado! Embora deitado, sinto que tenho forças para nevegar, imaginando a fome e a guerra por mim vividas.
Navego no barco “VERA CRUZ”, sentado nas escadas de acesso à piscina, com paredes forradas a azulejo branco e com três metros de água salgada, que refresca os inocentes militares de bordo.
Trinta meses de mato e tiros, choros e risos descabidos e, depois, o regresso de África no "NIASSA" amalucado pelas ondas que nele embatiam, barco porco, indigno do transporte de humanos.
Hoje, trinta e seis anos depois, deitado e imaginando essa feiticeira Áfri-ca, perfeitamente narrada pela autora de “ÁFRICA MINHA”, vejo-me a amealhar fundos que me irão proporcionar uma viagem à República do Congo e Tanzânia, com a mira de, neste país, dar um salto clandestino de jeep a Moçambique, concretamente à vila da Mueda, um dos locais da minha (dos políticos de então) guerra colonial.
Tentarei passar por Marrupa, vila com certeza degradada e local onde se encontram nove militares da minha Companhia, mortos em cambate, com a intenção de, bem perto deles, recomendar a Deus as suas almas. Eles estão lá, sinto-os, embora as suas famílias vivam convencidas que os veneram no dia um de Novembro, nos cemitérios das suas terras.
Assim, já com o dinheiro imaginado, avião marcado e tudo devidamente organizado, parto com escala no Egipto, depois Congo. Pernoito neste país e finalmente voo até Dar-es-Salaam, na Tanzânia. Dois dias depois alugo um portentoso jeep com um condutor conhecedor da zona, por ser caçador de leopardos em Moçambique e com o mínimo de mantimentos, marco a hora da partida.
Partimos finalmente. O condutor, homem de uns quarenta anos, é um negro robusto, de nome Kiribibati, mede à vontade um metro e oitenta e é de um negro luzidio, mas sobretudo um grande conversador. Fala português e pergunto-lhe como aprendeu a minha língua:
– No tempo dos portugueses andarem na guerra de Moçambique, era eu pequenino, meu pai dava instrução de guerrilha aos Moçambicanos que eram apanhados nas povoações e, alguns falavam português. Meu pai – continuou –aprendeu o português e, entretanto, como passei a caçar, e ainda hoje caço leopardos em Moçambique, junto das povoações, fui melhorando o português. Razão porque, no hotel, lhe indicaram ser eu o condutor.
Continuamos a viagem, falando da caça que por vezes nos acompanha com o olhar, falamos de Moçambique, do estado sobrevivente das povoações do interior, das suas desavenças politicas, “milandos trivais” e, finalmente, atingimos Mueda, devidamente suados e enfarruscados do pó da picada. Avenida acima, agora em alcatrão danificado que nos obrigava a procurar a estrada entre os buracos, viramos à direita ao encontro do cemitério. Deduzi o local e acertei. Capim alto, ervas de várias raças, cruzes em cimento e tampas das sepulturas estaladas pelo tempo e, até as pequeninas ruelas por onde se passava, pedem um esqueiro aceso para renovação do capim. O meu companheiro, taciturno e sem capacidade para falar, sorri compreensivo ao ver-me verter algumas lágrimas que se instalam na camisa empoeirada.
– Vamos já para Montepuez, disse. – Seguimos por Muiriti, atingimos a zona das bananeiras onde um dia fui ferido. Vamos ao encontro do irmão do China, meu amigo de então, para nos escondermos em sua casa e seguir para Marrupa.
Durante o percurso, Kiribibati respeitou o meu silêncio. Paramos na zona das bananeiras, à saída da Mueda. Como procurei o local exacto do meu tombo pelo som das metrelhadoras, disse ao meu companheiro: – para os políticos que me obrigaram a ser militar, nada havia de mais importante a não ser a guerra. Os que ficavam ou fugiam para o estrangeiro, eram vadios, eram anti-patriotas e, se pudessem, prendiam-nos. Os pais portugueses de então, como os meus, escutavam os tambores e viam, sempre a chorar, o sorriso amarelo dos filhos que partiam.
– Mas a política é uma arte! – disse Kiribibati. – Pelo menos é o que defendem seus apaixonados e filósofos – acrescentou. Só é pena que a maioria dos dirigentes políticos, adquiram a arte da política em águas estagnadas. Isso prova – continuou Kiribibati – que em débil política ou em guerra, há ausência da filosofia, da paixão e da psicologia. E a falta de cultura política ou a força dos ditadores, são um estado terrível! – E como dizia Séneca: – na política e na guerra, “não há ventos favoráveis para quem não sabe para onde vai” – citou.
O irmão do China, o Chinoca – por ser demasiado baixo e forte – ficou estupefacto quando me reconheceu. Contei-lhe da minha saudade de revolta pelos mortos e em ver Marrupa. Compreendeu e afirmou: – Pelo que tenho lido sobre os ex-combatentes portugueses depois do 25 de Abril, não há nenhum deles que se sinta feliz por ter passado por cá como militar.
Saímos pelas duas da madrugada da casa do Chinoca em direcção a Marrupa. As ruas da vila, eram as mesmas, em terra batida; a capela da Senhora de Fátima, estava fechada e quasi a desmoronar-se; a Senhora, abandonda, esperava que algum filho passasse e a mudasse para uma zona de católicos. Descemos a Avenida Samora Machel, com destino ao Batalhão de Caçadores, local onde jaziam os militares da minha guerra. Capim, capim alto e a capela mortuária a cair, identificavam o cemitério dos portugueses mortos em combate, de toda aquela zona. Ali estavam os seus nomes, conseguidos com a ajuda dum sacho que Kiribibati arranjou: o padeiro, o trinta e dois, o chaves, etc. etc. Chorei e emocionei-me, tossindo fortemente.
– Chorar os mortos aqui enterrados, Kiribibati, é chorar vidas que se perderam desnecessáriamente, afirmei.
Regressamos a Dar-es-Salaam e caçamos dois bonitos e meigos leapardos, mortos por aço frio de arma quente.
Na cama, fiz a continência aos meus camaradas de guerra, dei meia-volta e chorei verdadeiramente. No dia seguinte, tomei dois camprimidas AVAMIGRAN, que atenuam as dores de cabeça.

Artur Soares

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