Arquivo: Edição de 26-05-2006

SECÇÃO: Informação Religiosa

«Os Media: rede de comunicação, comunhão e cooperação»

Amados Irmãos e Irmãs
1. Em continuidade com o quadragésimo aniversário da conclusão do Concílio Ecuménico Vaticano II, desejo recordar o Decreto sobre os Meios de Comunicação Social, Inter mirifica, que reconheceu aos mass media o poder de influenciar toda a sociedade humana. A necessidade de usufruir do melhor modo possível de tais potencialidades, em benefício da humanidade inteira, estimulou-me, nesta minha primeira mensagem para o Dia Mundial das Comunicações Sociais, a reflectir acerca do conceito de que os media se podem configurar como uma rede capaz de facilitar a comunicação, a comunhão e a cooperação.
São Paulo, na sua carta aos Efésios, descreve detalhadamente a nossa vocação humana para «participar na natureza divina» (Dei Verbum, 21): através de Cristo podemos apresentar-nos ao Pai num só Espírito; assim já não somos estrangeiros nem hóspedes, mas concidadãos dos santos e familiares de Deus, tornando-nos templo santo e habitação de Deus (cf. Ef 2, 18-22). Este retrato sublime de uma vida de comunhão engloba todos os aspectos da nossa existência como cristãos. A chamada a ser fiéis à comunicação de Deus em Cristo é uma chamada a reconhecer a Sua força dinâmica dentro de nós, que depois se alarga aos outros, para que este amor se torne realmente a medida dominante do mundo (cf. Homilia para a Jornada Mundial da Juventude, Colónia, 21 de Agosto de 2005).

2. Em certos aspectos, os progressos tecnológicos dos meios de comunicação venceram o tempo e o espaço, permitindo a comunicação imediata e directa também entre pessoas divididas por enormes distâncias. Este desenvolvimento exige uma grande oportunidade para servir o bem comum e «constitui um património que deve ser salvaguardado e promovido» (O rápido desenvolvimento, 10). Mas como bem sabemos, o nosso mundo está longe de ser perfeito e verificamos quotidianamente que a rapidez da comunicação nem sempre consegue criar um espírito de colaboração e de comunhão no âmbito da sociedade.
Iluminar as consciências dos indivíduos e ajudá-los a desenvolver o próprio pensamento não é uma tarefa fácil. A comunicação autêntica deve basear-se na coragem e na decisão. Quantos trabalham nos media devem estar determinados a não se deixarem subjugar pela grande quantidade de informações e não devem contentar-se com verdades parciais ou transitórias. De facto, é preciso procurar difundir as verdades fundamentais e o significado profundo da existência humana, pessoal e social (cf. Fides et ratio, 5). Desta forma os meios de comunicação podem contribuir construtivamente para a difusão de tudo o que é bom e verdadeiro.

3. Hoje o apelo que se faz aos media é que seja responsável, para se tornar protagonista da verdade e promotora da paz que dela deriva, mesmo se isto comporta grandes desafios. Os diversos instrumentos da comunicação social facilitam o intercâmbio de informações e de ideias, contribuindo para a compreensão recíproca entre os diversos grupos, mas ao mesmo tempo podem ser contaminados pela ambiguidade. Os meios de comunicação social são uma «grande mesa redonda» para o diálogo da humanidade, mas algumas atitudes no seu interior podem gerar uma monocultura que ofusca o génio criativo, reduz a subtileza de um pensamento complexo e desvaloriza as peculiaridades das práticas culturais e a individualidade do credo religioso. Estas degenerações verificam-se quando a indústria dos media se torna fim em si mesma, tendo unicamente por finalidade o lucro, perdendo de vista o sentido de responsabilidade no serviço ao bem comum.

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Por conseguinte, é necessário garantir uma cuidadosa crónica dos acontecimentos, uma explicação satisfatória dos assuntos de interesse público, uma apresentação honesta dos diversos pontos de vista. A necessidade de defender e encorajar o matrimónio e a vida da família é particularmente importante, sobretudo porque se faz referência ao fundamento de todas as culturas e sociedades (cf. Apostolicam actuositatem, 11). Em colaboração com os pais, os meios de comunicação social e as indústrias do espectáculo podem servir de apoio na difícil mas nobre e satisfatória vocação de educar as crianças, apresentando modelos edificantes de vida humana e de amor (cf. Inter mirifica, 11). Quando se verifica o contrário, todos nós nos sentimos desencorajados e aviltados. O nosso coração sofre sobretudo quando os nossos jovens são subjugados por expressões de amor degradantes ou falsas, que ridicularizam a dignidade doada por Deus a cada pessoa humana e ameaçam os interesses da família.

4. Para encorajar uma presença construtiva e concreta dos mass media na sociedade, desejo realçar a importância de três aspectos, indicados pelo meu venerado predecessor, o Papa João Paulo II, indispensáveis para um serviço destinado ao bem comum: formação, participação e diálogo (cf. O rápido desenvolvimento, 11).A formação para um uso responsável e crítico dos media ajuda a pessoa a servir-se dela de modo inteligente e apropriado. O impacto incisivo de um novo vocabulário e de novas imagens, que sobretudo os mass media electrónicos introduzem tão facilmente na sociedade, não devem ser subestimados. Os media contemporâneos formam a cultura popular, portanto deve vencer qualquer tentação de manipulação, sobretudo em relação aos jovens, procurando ao contrário educar e servir, para garantir a realização de uma sociedade civil digna da pessoa humana, e não a sua desagregação.

5. A participação nos media nasce da sua própria natureza, como bem destinado a todos os povos. Como serviço público, a comunicação social exige um espírito de cooperação e co-responsabilidade, exige um uso dos recursos públicos sábio como nunca e um sério compromisso da parte de quantos desempenham papéis de responsabilidade pública (cf. Ética nas Comunicações Sociais, 20), recorrendo também a normas de regulação e a outras providências ou estruturas designadas para tal finalidade.
Por fim, a promoção do diálogo através do intercâmbio de cultura, a expressão de solidariedade e a adesão à paz oferecem uma grande oportunidade aos media que necessita ser revalorizada e usada. Desta forma, ela torna-se recurso importante e precioso para construir uma civilização de amor, que é o desejo de todos os povos.
Tenho a certeza de que sérios esforços para promover estes três aspectos desenvolverão nos mass media a sua vocação de redes de comunicação, de comunhão e de cooperação, ajudando homens, mulheres e crianças a tornarem-se mais conscientes da dignidade da pessoa humana, mais responsáveis e mais abertos aos outros, sobretudo aos membros da sociedade mais necessitados e mais débeis (cf. Redemptor hominis, 15; Ética nas Comunicações Sociais, 4).

Para concluir , desejo recordar as encorajadoras palavras de São Paulo: Cristo é a nossa paz. Aquele que de dois fez um só povo (cf. Ef 2, 14). Derrubemos o muro de hostilidades que nos divide e construamos a comunhão de amor, segundo os projectos do Criador, revelados através do Seu Filho!

Vaticano, 24 de Janeiro de 2006,
Solenidade de São Francisco de Sales

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