Arquivo: Edição de 13-04-2006

SECÇÃO: Generalidades

Escolas e Maternidades

No meu tempo... é uma expressão frequentemente usada para designar o que mudou, o que é diferente ou desigual em relação a um período de tempo passado distante. Há dezenas de anos eram geralmente os avós, que se sentiam creditados para falar assim; hoje, dentro da mesma geração, à distância de meia dúzia de anos, vai sendo vulgar ouvir-se no meu tempo: qualquer jovenzinho do ensino básico mais adiantado também se atreve, reportando-se aos primeiros anos de escola, a dizer no meu tempo... E, de facto, parece que há alguma razão para descomplexadamente falar assim.
Na verdade, reflectindo sobre realidades vitais, como são a escola e as maternidades o ímpeto da mudança é, em muitos casos de proporções, imprevisíveis.
Abordando o tema em causa apenas sob o ponto de vista de necessidade e oportunidade em menos de três gerações as mutações têm sido deveras impressionantes.
Há menos de setenta anos, frequentar a chamada escola da Instrução Primária era privilégio de poucos, porque, além de as motivações não serem muitas – não poucas crianças eram lançadas para o trabalho ainda na idade de jogar o pião ou de brincar com as bonecas – era manifesta a deficiência de meios materiais e humanos; a falta de instalações minímamente apropriadas era algumas vezes suprida por qualquer espaço que aparecia e o corpo docente, em muitos casos também, era constituido por pessoas cheias de boa vontade que conseguiram o estatuto de Regente Escolar.

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Tive o privilégio de entrar na escola no mês em que completei sete anos, num dos tais postos de ensino cujo edifício era constituido unicamente por uma sala e servido por um excelente regente escolar. Tive também o privilégio de inaugurar, em 1943, ao entrar na 3ª classe, uma das primeiras unidades do modelo do Estado Novo. Estava-se na II Grande Guerra e, entre nós, era manifesto o empenho daquele Regime em construir escolas por toda a parte. Imagine-se a condição deficitária em que se encontrava o País, que se via na necessidade de encarar assim a educação do Povo ao nível primário.
Não me recordo de, nos tempos de criança, ouvir dizer que algum companheiro de escola ou de catequese tenha nascido no hospital. Eram conhecidas, isso sim, senhoras habilidosas, cheias de generosidade que eram chamadas para assistir aos partos.
Os tempos foram avançando e hoje é felizmente excepção nascer-se noutro lugar que não seja o lugar apropriado para a entrada de novos seres para a aventura da vida no hospital, na maternidade.
Passando ao nosso tempo que cenário temos? Ao que parece escolas e maternidades a mais. E, por isso, fecham-se escolas e maternidades. Bem gostaríamos que as reformas em curso nas áreas da Educação e da Saúde partissem da necessidade e intenção de melhorar e actualizar o parque das instalações existentes. Mas não; milhares de escolas vão ser fechadas e concentrados os serviços de maternidade.
Se não cometemos a ousadia de contestar as decisões de quem de direito, perante várias situações evidentes, custa-nos, no entanto, aceitar a frieza com que as questões são postas e resolvidas sem deixar quaisquer sinais de esperança de que amanhã tudo poderá voltar à normalidade para os mesmos pobres.
O nosso futuro está realmente ameaçado. A mensagem mais insistente que vai passando para os mais novos, quer pela comunicação social, quer por Organismos Oficiais é o de modelos de família sem compromissos e, sob o pretexto de riscos de gravidez indesejada de experiências sexuais, a obstrução à vivência do amor autêntico que deve ser educado, esclarecido e promovido. A par disto o escarninho grosseiro com que por vezes se fala das famílias numerosas como se os progenitores tenham pertencido a uma série de imbecis e a ideia de que a vida é difícil e não dá para ter mais filhos. Preocupante, se não totalmente escandaloso é o que se gasta em serviços voltados para a negação da vida e em contraceptivos.
Agora, são escolas do 1.° ciclo do Ensino Básico que se fecham e maternidades desactivadas. A seguir, talvez algumas escolas doutros níveis de ensino sejam alienadas para armazéns e vejamos maternidades transformadas em locais de destruição de vidas. Teremos, porventura, de encarar tudo isto como fatalismo sem remédio? De certo que não.
Como este, o tempo que vivemos, aqui e agora, é o tempo de todos nós, bom será alicerçar a nossa esperança e darmo-nos as mãos para que as gerações novas possam vir a evocar o passado com memórias dignificantes. No meu tempo...

Lima de Carvalho

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