Arquivo: Edição de 24-03-2006

SECÇÃO: Informação Religiosa

XXI Jornada Mundial da Juventude (9 de Abril de 2006)

Caros jovens!
O tema que proponho à vossa consideração é um versículo do Salmo 118: “A tua Palavra é lâmpada para os meus pés e luz para o meu caminho” (v. 105). O amado Papa João Paulo II comentou assim estas palavras do Salmo: “O orante se lança no louvor da Lei de Deus, que toma como lâmpada para os seus passos no caminho muitas vezes escuro da vida” (Audiência geral de quarta-feira 14 de novembro de 2001). Deus revela-se na historia, fala aos homens e a sua palavra é criadora. Com efeito, o termo hebraico “dabar”, normalmente traduzido com o termo “palavra”, tanto significa palavra como acto. Deus diz o que faz e faz o que diz. No Antigo Testamento, anuncia aos filhos de Israel a vinda do Messias e a instauração duma “nova” aliança; no Verbo feito carne Ele cumpre as suas promessas. Isto também o evidencia o Catecismo da Igreja Católica: “Cristo, o Filho de Deus feito homem, é a Palavra única, perfeita e insuperável do Pai. N’Ele diz tudo, não haverá outra palavra mais do que esta” (n. 65). O Espírito Santo, que guiou o povo eleito, inspirando os autores das Sagradas Escrituras, abre o coração dos crentes à inteligência que estas contêm. O mesmo Espírito está activamente presente na Celebração eucarística quando o sacerdote, pronunciando “in persona Christi” as palavras da consagração, converte o pão e o vinho no Corpo e Sangue de Cristo, para que sejam alimento espiritual dos fiéis. Para avançar na peregrinação terrena até à Pátria celeste, temos todos que nutrir-nos da palavra e do pão de Vida eterna, inseparáveis entre si!
Os Apóstolos acolheram a palavra da salvação e transmitiram-na aos seus sucessores como uma jóia preciosa custodiada no cofre seguro da Igreja: sem a Igreja, esta pérola corre o risco de se perder ou de se destruir. Caros jovens, amai a palavra de Deus e amai a Igreja, que vos permite aceder a um tesouro de tão grande valor introduzindo-vos no apreço pela sua riqueza. Amai e segui a Igreja que recebeu do seu Fundador a missão de indicar aos homens o caminho da verdadeira felicidade. Não é fácil reconhecer e encontrar a autêntica felicidade no mundo em que vivemos, no qual o homem frequentemente é refém de correntes ideológicas, que o induzem, apesar de crer-se “livre”, a perder-se nos erros e ilusões de ideologias aberrantes. Urge “libertar a liberdade” (cfr. Encíclica Veritatis splendor, 86), iluminar a escuridão em que a humanidade vai a cegas. Jesus mostrou como pode acontecer isto: “Se permanecerdes na minha Palavra, sereis verdadeiramente meus discípulos, e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará” (Jo 8, 31-32). O Verbo encarnado, Palavra da Verdade, nos liberta e dirige a nossa liberdade para o bem.
Caros jovens, meditai frequentemente a palavra de Deus, e deixai que o Espírito Santo seja o vosso mestre. Descobrireis, então, que o pensamento de Deus não é o dos homens; sereis levados a contemplar o Deus verdadeiro e a ler os acontecimentos da Historia com Seus olhos; provareis em plenitude a alegria que nasce da verdade. No caminho da vida, que não é fácil nem está isento de insídias, podereis encontrar dificuldades e sofrimentos e, às vezes, tereis a tentação de exclamar com o Salmista: “Estou profundamente angustiado” (Sal 118, 107). Não vos esqueçais de lhe dizer também: Senhor “dá-me vida segundo a tua palavra... A minha alma está continuamente em perigo mas não esqueço a tua lei” (vv. 107.109). A presença amorosa de Deus, através da sua palavra, é lâmpada que dissipa as trevas do medo e ilumina o caminho, também nos momentos mais difíceis.

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O Autor da Carta aos Hebreus escreve: “A Palavra de Deus é viva e eficaz, mais penetrante que uma espada de dois gumes. Penetra até ao limite da alma e do espírito, até às conjunturas e medulas; e perscruta os sentimentos e pensamentos do coração” (4,12). É preciso levar a sério a exortação a considerar a palavra de Deus como uma “arma” indispensável na luta espiritual; esta age eficazmente e dá fruto se aprendemos a escutá-la para depois obedecer-lhe. O Catecismo de la Iglesia Católica explica-nos: “Obedecer (ob-audire) na fé, é submeter-se livremente à Palavra escutada, porque a sua verdade está garantida por Deus, a Verdade mesma” (n. 144). Se Abraão é o modelo desta escuta que é obediência, Salomão revela-se, por sua vez, como um apaixonado peregrino da sabedoria contida na Palavra. Quando Deus lhe propõe: “Pede-me o que queres que te dê”, o sábio rei responde: “Concede, pois, ao teu servo, um coração que entenda” (1 Re 3,5.9). O segredo para ter um “coração que entenda” é formar um coração capaz de escutar. Isto consegue-se meditando sem cessar a palavra de Deus e permanecendo enraizados nela, mediante o esforço de conhecê-la sempre mais.
Caros jovens, exorto-vos a adquirir intimidade com a Bíblia, a tê-la sempre à mão, para que seja para vós como uma bússola que indica o caminho a seguir. Lendo-a, aprendereis a conhecer a Cristo. São Jerónimo observa a este respeito: “A ignorância das Escrituras é ignorância de Cristo” (PL 24,17; cfr. Dei Verbum, 25). Um caminho bem provado para aprofundar e apreciar a palavra de Deus é a lectio divina, que constitui um verdadeiro e apropriado itinerário espiritual por etapas. Da lectio, que consiste em ler e reler uma passagem da Sagrada Escritura tomando os elementos principais, passa-se à meditatio, que é como que uma paragem interior, na qual a alma se dirige para Deus tentando compreender o que a Sua palavra diz hoje para a vida concreta. A continuação, segue a oratio, que faz que nos ocupemos com Deus num colóquio directo e, finalmente, chega-se à contemplatio, que nos ajuda a manter o coração atento à presença de Cristo, cuja palavra é “lâmpada que brilha em lugar escuro, até que o dia desponte e a estrela da manhã nasça em vossos corações” (2 Pe 1,19). A leitura, o estudo e a meditação da Palavra têm que desembocar depois numa vida de coerente adesão a Cristo e à sua doutrina.
O apóstolo Tiago adverte: “Tendes de pôr em prática a Palavra e não apenas ouvi-la, enganando-vos a vós mesmos. Porque, quem se contenta com ouvir a palavra, sem a pôr em prática, é como um homem que contempla a sua fisionomia num espelho: mal acaba de se contemplar, sai daí e esquece-se de como era. Aquele, porém, que medita atentamente a lei perfeita da liberdade e persevera nela —não como quem a ouve e logo se esquece mas como quem a cumpre — esse encontrará a felicidade ao pô-la em prática.” (Tg 1,22-25). Quem escuta a palavra de Deus e se remete sempre a ela põe a sua própria existência sobre um fundamento sólido. “Todo o que ouvir as minhas palavras e as puser em prática, —diz Jesus— será como o homem prudente que edificou a sua casa sobre rocha” (Mt 7,24): não cederá às inclemências do tempo.
Construir a vida sobre Cristo, acolhendo com alegria a palavra e pondo em prática a doutrina: eis aqui, jovens do terceiro milénio, aquele que deve ser o vosso programa! É urgente que surja uma nova geração de apóstolos enraizados na palavra de Cristo, capazes de responder aos desafios do nosso tempo e dispostos a difundir o Evangelho por todas as partes. É isto que vos pede o Senhor, é a isto que a Igreja vos convida, é isto que o mundo—mesmo sem o saber — espera de vós! E se Jesus vos chama, não tenhais medo de responder-Lhe com generosidade, especialmente quando vos propõe segui-l’O na vida consagrada ou na vida sacerdotal. Não tenhais medo; fiai-vos n’Ele e não ficareis desiludidos.
Caros amigos, com a XXI Jornada Mundial da Juventude, que celebraremos no próximo 9 de Abril, Domingo de Ramos, empreenderemos uma peregrinação ideal em direcção ao Encontro Mundial dos jovens, que terá lugar em Sydney no mês de Julho de 2008. Preparar-nos-emos a este grande encontro marcado, reflectindo juntos sobre o tema O Espírito Santo e a missão, através de etapas sucessivas. Neste ano concentraremos a nossa atenção no Espírito Santo, Espírito da verdade, que nos revela Cristo, o Verbo feito carne, abrindo cada um o coração à Palavra de salvação, que conduz à Verdade plena. No ano seguinte, 2007, meditaremos sobre um versículo do Evangelho de São João: “Assim como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (13,34) e descobriremos ainda mais profundamente como o Espírito Santo é Espírito de amor, que infunde em nós a caridade divina e nos faz sensíveis às necessidades materiais e espirituais dos irmãos. Por último, chegaremos à Jornada Mundial do ano 2008, que terá como tema: “Recebereis a força do Espírito Santo, que virá sobre vós e sereis minhas testemunhas” (Act 1,8).
Desde já, num clima de incessante escuta da palavra de Deus, invocai, queridos jovens, o Espírito Santo, Espírito de fortaleza e de testemunho, para que vos torne capazes de proclamar sem temor o Evangelho até aos confins da terra. Maria, presente no Cenáculo com os Apóstolos à espera do Pentecostes, seja para vós mãe e guia. Que Ela vos ensine a acolher a palavra de Deus, a conservá-la e a meditá-la no vosso coração (cfr. Lc 2,19) como Ela o fez durante toda a vida. Que vos encoraje a dizer o vosso “sim” ao Senhor, vivendo a “obediência da fé”. Que vos ajude a estar firmes na fé, constantes na esperança, perseverantes na caridade, sempre dóceis à palavra de Deus. Acompanho-vos com a minha oração, enquanto vos abençoo a todos de coração.

Mensagem de Bento XVI aos jovens do mundo

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