Arquivo: Edição de 27-01-2006

SECÇÃO: Generalidades

Uma Viagem pelos Caminhos da República

AS PRIMEIRAS DAMAS
Está patente no Paço dos Duques de Bragança uma exposição sobre as PRIMEIRAS DAMAS, as esposas dos Presidentes da República Portuguesa.
A exposição foi inaugurada na terça-feira passada, dia 24, pelo Presidente Dr. Jorge Sampaio, acompanhado de sua esposa, a que se juntaram muitas dezenas de individualidades. Esta exposição poderá ser vista até 8 de Abril.
A memória, em desdobrável, diz o seguinte:

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O 25 de Abril de 1974 desencadeou alterações profundas na sociedade portuguesa, entre os quais o movimento de emancipação da mulher. As primeiras-damas, mulheres que passaram a assumir uma cidadania madura, haveriam de dar o retrato paradigmático desta mudança de comportamentos no ordenamento de géneros da sociedade portuguesa.
A agitação política dos primeiros anos da democracia portuguesa acabaria por ofuscar o cônjuge do Presidente da República Portuguesa, sendo-nos difícil, hoje em dia, referir os seus nomes: quem foram, qual o seu percurso, de que forma acompanharam a actividade do Chefe de Estado durante esses tempos conturbados?
Paulatinamente, a primeira-dama portuguesa foi-se afirmando, quer coadjuvando o Presidente na sua função de representação, quer na criação de uma agenda própria gerida por um gabinete informal que foi surgindo no Palácio de Belém. Formalizando essa situação, um decreto-lei de 1996 criou o Gabinete de Apoio ao Cônjuge do Presidente da República, a funcionar no âmbito da Casa Civil, abrindo as portas a uma maior coordenação das actividades desenvolvidas.
Se, na História de Portugal, as rainhas são sobejamente co-nhecidas e identificáveis – mesmo as que ocuparam apenas o lugar de consorte –, já o mesmo não sucede com as mulheres dos Presidentes, nomeadamente da I República (1910-1926). Não só foram esquecidas no seu tempo, como continuaram relegadas para um plano secundário, ou inexistente, na histo-riografia e na memória colectiva. Quem é que hoje recorda os seus traços, as identidades, os percursos, as biografias?
A decisão de recatar a figura do Chefe de Estado, tomada pelo regime republicano, acarretou condicionalismos na exposição pública da família e, consequentemente, na possibilidade de harmonizar um poder exercido somente no masculino. perante este rígido contexto, os holofotes dos contemporâneos não descortinaram o outro lado, ou seja, como as mulheres lidaram com as funções transitórias dos maridos e que lugar lhes foi reservado, nomeadamente no âmbito da filantropia, da caridade, da solidariedade, da beneficência e das iniciativas sociais e protocolares. Aparentemente, nenhum. Daí os registos fotográficos privilegiarem-nas em ambientes fami-liares, junto dos descendentes e cônjuges, como que a realçarem as suas qualidades de mães e de esposas, em conformidade com o exíguo estatuto atribuído às mulheres, e só raramente as fixam em actos sociais públicos ou associadas a eventos oficiais.
Durante a Ditadura Militar e o Estado Novo (1926-1974), as mulheres dos Presidentes da República continuaram num território de penumbra de onde apenas saíram quando a superior conveniência assim o exigiu. Foram actrizes públicas onde a aparência inte-ressava mais do que a essência e, por isso, deixaram apenas registos da sua presença oficial – na sombra dos Chefes de Estado, ou daquela parte das suas vidas privadas que interessava à política do regime ser oficializada, documentos escassos, todavia importantes, que é necessário fazer falar para que a História as recupere.
Das primeiras-damas do Estado Novo esperava-se que fossem as primeiras esposas e as primeiras mães da Nação que, com o marido e os filhos, se tornavam no espelho em que todas as famílias portuguesas se deviam reflectir. Espelho que se mostrava em viagens oficiais pelo Império, em jantares ou inaugurações de obras de carácter social, cultural e diplomático. Atender os pobres e desvalidos, anonimamente ou presidindo a Instituições de Beneficência, era afinal uma inerência do seu “cargo”. Apesar disso não passaram de simples figurantes de primeira fila a quem a História quase ignorou.

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