Arquivo: Edição de 27-01-2006

SECÇÃO: Generalidades

A Ressurreição dos mortos: a esperança cristã

A fé na ressurreição dos mortos assenta na ressurreição de Jesus Cristo, na pregação dos Apóstolos e na tradição. A ressurreição é a resposta à questão da morte.

A ressurreição no NT
Nos Evangelhos e Actos a fé na ressurreição, discutida entre fariseus (que a aceitam) e saduceus (que rejeitam a ressurreição) implica a crença num Deus de vivos e não de mortos. João fala da ressurreição para a vida (justos) e para a morte (malvados). Jesus é a própria ressurreição e a fé nesta é de carácter cristológico e escatológico. Em Paulo, a ressurreição é um tema central com um claro acento cristológico. A esperança na ressurreição parte da fé na ressurreição de Jesus. Tanto para vivos como para mortos a ressurreição é o lugar da reunião. Quem suspeita da ressurreição humana suspeita da própria ressurreição de Cristo pois "se Cristo não ressuscitou é vã a nossa fé". A negação da ressurreição abala, pois, os fundamentos da fé. A ressurreição, para Paulo, é escatológica pois o último inimigo a vencer é a morte. Aquela é a alternativa única e válida à morte e sem ela a vida reduz-se ao presente.
Como ressuscitam os mortos? Com que corpo regressam? A corporeidade dos ressuscitados será espiritual. Este corpo espiritual, pelo poder vivificador de Deus, supera toda a espera e possibilidade humanas da existência corporal. A fé na ressurreição implica continuidade e ruptura, identidade e mudança, mas o sujeito da existência ressuscitada é o mesmo da existência mortal, mas não é a mesma coisa, pois sofreu uma transformação. Corpo, em Paulo, significa o homem inteiro na sua relação com os outros e o mundo, e não uma parte do homem. Pela transformação "este corpo corruptível reveste-se de incorruptibilidade e o corpo mortal reveste-se de imortalidade", e torna- se "corpo espiritual".
A ressurreição é cristocêntrica, parte da ressurreição de Cristo que é fundamento da ressurreição. Ressuscitamos, porque Cristo ressuscitou e à imagem de Cristo ressuscitado. Cristo é a causa eficiente e exemplar. A ressurreição humana acontece à imagem de Cristo ressuscitado. E ressuscitamos como membros do corpo de Cristo ressuscitado. Deus nos ressuscitará, porque ressuscitou Cristo, de quem somos membros. O sujeito completo é o corpo de Cristo, de que os cristãos são membros. A ressurreição não é um acontecimento privado, individual. Cristo ressuscita como cabeça do corpo, e nós como membros do mesmo corpo. A ressurreição é escatológica, dada a sua natureza eclesial, e não pode dar-se até que Cristo como corpo esteja completo nos seus membros. A ressurrreição é a abreviatura da salvação consumada. Na Patrística, os apologistas afirmam a identidade do corpo ressuscitado com o terreno, entendendo a identidade da matéria corporal actual. É uma compreensão rudimentar e simplista da identidade corporal. Relaciona-se com a defesa do corpo como parte da verdade do homem, contra a desvalorização somática e defendem o homem como unidade de corpo e alma. Ao longo da história da Igreja a ressurreição é afirmada nos concílios. É a ressurreição como facto escatológico (LG 48). É um acontecimento universal que inclui a identidade somática e exige a identidade numérica, o mesmo corpo humano: sem ela, nega-se a identidade pessoal.

A perspectiva antropológicada ressurreição
Uma antropologia unitária, que considera a corporeidade como elemento constitutivo do ser-homem. O futuro do homem para além da morte, não pode ser o de uma subjectividade espiritual e acósmica mas é o futuro de um espírito encarnado, com corpo e mundo como elementos constitutivos. A ressurreição dos mortos não significa a sobrevivência de uma parte do homem nem uma devolução dos corpos às almas (como o diziam os padres apologistas); é a restituição da vida ao homem todo.
Como parceiro de Deus, Deus quer o homem para sempre. A ressurreição verifica a seriedade de Deus, ao prometer, além da morte, a reconstituição do homem em todas as suas dimensões, também na sua corporeidade. S. Tomás, a partir de Aristóteles, descobre que a alma é forma do corpo. Corpo e alma são duas dimensões da unidade radical do homem em interpenetração recíproca, pericorética e não duas realidades adequadamente distintas; entre elas pode estabelecer-se uma distinção metafísica e não física. A corporeidade é momento constitutivo do ser homem. Mais do que falar-se em corpo físico deve falar-se em corpo integral ou corporeidade que é uma determinação metafísica e elemento constitutivo do homem. Designa toda a realidade cósmico-histórica material do homem como pessoa. Corpo, em sentido bíblico, designa o homem como ser relação, na sua integridade, enquanto se manifesta e não o oposto a alma. A antropologia unitária considera o homem como unidade e a ressurreição é a reconstituição do homem como sujeito dialógico, fraterno, que ele experimenta mesmo face à morte. Sendo dimensão constitutiva do homem como pessoa a corporeidade tem parte na ressurreição.

A perspectiva cristológica da ressurreição
A ressurreição baseia-se na esperança e na fé da ressurreição do próprio Cristo. A morte é a crise suprema para o homem e é combatida pelo desígnio amoroso de Deus que permanece fiel à aliança e à promessa de salvação. Como ser em relação, o amor surge como explicação do sentido do homem, da existência. A salvação realiza-se para a pessoa como dom gratuito de Deus que ressuscitou Jesus Cristo. O amor gera esperança, confiança mesmo conhecendo a nossa condição frágil. O amor de Deus é modelo do amor dos humanos pelos humanos que gera solidariedade, fraternidade de irmão (M. Torga). O amor é um fenómeno social implicador de todo o indivíduo que se se sente necessitado de ser amado mesmo depois da morte, pois, como diz Torga: "queria era sentir-me ligado a um destino extra biológico, a uma vida que não acabasse com a última pancada do coração". O amor gera comunhão dos homens, solidariedade e fraternidade de um por todos. A vida do ressuscitado não é a vida biológica, mas outra, a vida definitiva, que superou o espaço da morte do biológico, por uma força maior, o mistério do poderoso agir de Deus, que é Amor. A imortalidade pessoal é comunitária, em razão do amor, que lhe está na origem porque a morte não destrói a comunidade humana. A fé na ressurreição é expressão central da profissão cristológica em Deus. A fé na ressurreição nasce da experiência da fidelidade de Deus ao seu povo levando a cabo a solidariedade construtora da comunhão eclesial e da comunhão dos santos. A ressurreição pode esclarecer-se a partir de Deus, e de Cristo, na perspectiva cristológica. A partir de Deus, que nos ressuscita, porque ressuscitou Cristo (1 Tes 1, 10; 2 Cor 6, 14); o amor manifestado na ressurreição de Cristo alarga-se ao "corpo de Cristo", de que somos membros: o que permite afirmar que "com Ele nos ressuscitou " (Ef 2, 6). Deus ressuscita o homem, os homens, porque ressuscitou Cristo, como cabeça do corpo, que é a Igreja, como primícias, ou como primogénito duma multidão de irmãos. A partir de Cristo que viveu, morreu e ressuscitou postula e fundamenta a ressurreição, pois morreu por amor a todos. A ressurreição dá-se a partir de uma iniciativa pessoal de Cristo; a acção salvífica tem incidência causal na ressurreição dos cristãos a partir da solidariedade dele conosco que passa a uma solidariedade de nós com ele. Cristo não está completo até que os seus ressuscitem. Ressuscitamos porque Cristo ressuscitou (causa eficiente); à imagem de Cristo ressucitado (causa exemplar) como membros do corpo ressuscitado de Cristo (Cristo, cabeça da Igreja, seu corpo). Aqui se situa a razão do carácter escatológico da ressurreição, pois a nossa sorte está ligada à da comunidade eclesial. A ressurreição só pode dar-se quando o corpo de Cristo estiver completo, na cabeça e membros; é a reconstituição da unidade originária da família humana.

O problema da identidade corporal
A fé da Igreja exige a identidade corporal numérica: o mesmo corpo da existência terrena é o da existência ressuscitada. Ao longo da história as posições foram divergentes. Hoje, prefere-se a identidade numéria formal, não material (S. Tomás). Nela, o corpo é o resultado da informação da matéria- prima pela alma. O esquema corpo-alma tende a afirmar que o homem é unidade. Ressuscitar "com o mesmo corpo" significa recuperar a vida em todas as suas dimensões humanas; significa ressuscitar com um corpo próprio, que irradia a identidade definitiva sem equívoco. É o corpo glorioso, "corpo espiritual"transformado pelo Espírito.

Sobre a credibilidade da ressurreição
É perfeitamente credível falar-se, hoje, de ressurreição. Esta liga-se à justiça para todos, se todos ressuscitam. Aquele que morre injustamente só será reabilitado se recupera a vida para sempre. Ou há vitória sobre a morte ou não há vitória sobre a injustiça: o assassino triunfa definitivamente sobre a vítima, se a morte é a sorte comum. Liga-se à liberdade para todos e de todas as alienações que oprimem o humano. Na Bíblia, a fé na ressurreição surge do discurso sobre Deus; a dialéctica morte-vida não se define na esfera das razões naturais mas no âmbito das relações históricas interpessoais. As perguntas, que estão na sua génese, sobre a retribuição, não produzem a ressurreição; espantam e aguardam. O NT acentuou que a causa de Deus é a causa do homem em Cristo. Se Deus existe, e é o que "ressuscitou" Jesus, então é possível a ressurreição como justiça, liberdade para todos: O mundo pode ser nova criação.

José António Carneiro
Licenciado em Teologia/ Aluno do
6º ano Seminário Conciliar de Braga

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