Arquivo: Edição de 15-04-2005

SECÇÃO: Informação Religiosa

Editorial
Ao Padre Santo João Paulo II

Combati o bom combate...

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Logo que o mundo da informação se apercebeu da morte iminente do Papa João Paulo II, sobretudo a partir do seu internamento na Clínica Gemelli, em Roma, por entre reportagens e editoriais, começaram a aparecer imagens de marca do Homem que vincou de forma singular a segunda metade do século XX e introduziu o terceiro milénio.
Quem acredita no lema assumido pelo Papa, servo dos servos de Deus, facilmente encontrará no próprio evangelho os contornos iniludíveis da imagem que é preciso construir e deixar: “apascenta os meus cordei-ros; apascenta as minhas ovelhas” Jo. 21, 15-17.
A eloquência do Tempo Pascal foi, este ano, profundamente marcada pela morte do Papa, dia 2 de Abril às 20,37 horas (hora de Roma) e exéquias solenes, também em Roma, no passado dia 8. Penso que a 2.ª Carta de São Paulo a Timóteo, de modo especial os oito primeiros versículos do capítulo 4.º caracteriza, de forma exemplar, o programa, a acção pastoral e o juízo que lhe é feito por personalidades e instituições até aos mais altos níveis: “combati o bom combate, terminei a corrida, permaneci fiel. A partir de agora, já me aguarda a merecida coroa, que me entregará naquele dia, o Senhor, justo juíz” (2 Tim. 4, 7-8).
A exortação solene feita pelo apóstolo São Paulo ao seu discípulo (bispo) Timóteo toda ela encarnou em Karol Wojtyla desde que aos 26 anos de idade consagrou a vida à causa do evangelho e com expressão patente nos vinte e seis anos e meio de pontificado: “proclama a palavra, insiste em tempo propício e fora dele, convence, repreende, exorta com toda a compreensão e competência” (2ª. Tim. 4, 2). Proclama, insiste, convence, repreende, exorta, eis cinco linhas de acção, provenientes da mesma força, “a graça a nós concedida em Cristo Jesus” e a convicção “sei em quem acreditei” (2 Tim. 1, 10 e 12).
A vida, a acção e a obra de João Paulo II, nesta recta final da sua peregrinação, transpareceram para o mundo como lição de que os conteúdos da verdade da Boa Nova de Jesus Cristo são, na prática, inesgotáveis e que ele soube inculcar, na consciência de povos e nações, tão belos matizes.
Tudo o que interessa ao homem para situar-se na sua dignidade pessoal e como construtor do novo mundo preencheu o âmbito do seu magistério, impregnado de paixão ardente pela humanidade e convicto de que o caminho de Deus é o homem.
Como no tempo do apóstolo dos gentios e pelos séculos fora, João Paulo II experimentaria o custo da generosidade e audácia de ser Totus Tuus – identificado com Cristo e com a confiança plena na protecção maternal de Maria. Foi vítima de um gravíssimo atentado nas praça de S. Pedro, de que, segundo ele, foi salvo miraculosamente; escapou, em Fátima, a uma agressão frustrada, de consequências imprevisíveis; foi livre também de outras tentativas programadas. E foi também experimentado pelo sofrimento “como ouro no crisol” para “completar em si o que falta à Paixão de Cristo”.
A hostilidade, a indife-rença e a tibieza por parte de muitos continuarão certamente a acossar a força e a verdade este Padre Santo. Através de opiniões, legítimas, mas inaceitáveis, muitas questões de carácter moral, algumas ridículas, a pessoa do Papa foi e, quiçá, continuará a ser contestada em vários sectores. Como se a doutrina pudesse ajustar-se à visão egoísta ou pragmatista de cada um.
O exemplo de João Paulo II na procura e encontros com os homens dos cinco continentes gritam bem alto que ele concretizou nos seus ensinamentos e atitudes o que é ser fiel à Verdade, a princípios e valores e, por outro lado, a compreensão e tole-rância por quem discorda, não quer ou tem dificuldade em seguir a mesma verdade.
A promoção do diálogo com diferentes culturas, com os poderes instituidos e o diálogo inter-religioso foram uma constante de toda a sua vida em que ele procurou encontrar o caminho para a edificação da Paz. Prémio da Paz, o galardão que vozes respeitáveis e muito responsáveis lhe quiseram atribuir, quer em palavras quer com presença na homenagem do memorável dia 8 de Abril.
Neste mesmo dia, o presidente da Comissão Europeia, Dr. José Manuel Durão Barroso, em breve entrevista à RTP, disse que João Paulo II “é o pai da Europa reunificada”. Que bom seria que a Constitui-ção Europeia pudesse respirar este sentimento!
Seria a retribuição, o prémio, pelo esforço numa causa por que tanto lutou.
A paz, que, cremos, goza em Deus seja penhor de paz para a humanidade que lhe chama PADRE SANTO.

Lima de Carvalho

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