Arquivo: Edição de 11-02-2005

SECÇÃO: Generalidades

Leituras e Mensagens...
129.° – 5.° - A Resposta da Igreja: Confrarias, Irmandes, Ordens Terceiras, Misericórdias.

Ao contrário do que sucedeu em toda a Europa, ao longo da idade média, em qualquer outro país em que a corporação nasceu, foi acolher-se no seio da Igreja, ficando assim sob a alçada do direito canónico e da autoridade eclesiástica, em Portugal - repito, ao contrário - a corporação ou ofício de um só mester ou vários (caso da confraria) constituiu-se ao impulso da solidariedade da profissão e das necessidades comuns a todos os mesteirais, arregimentados na sequência da aprovação dada pela Corôa ou pelo Senado Municipal. Assim a corporação ou ofício mecânico, no geral, organizou-se no país, dentro de uma conceptualização laica de carácter que hoje poderíamos rotular de mutualista, cooperativo, mesmo sindicalista.
Jesus fundou a sua Igreja “eclesia” (assembleia dos convocados) como resposta à autoridade paternal e sacerdotal do tempo que se tornara prevaricadora e pagã. Com máximas prenhes da mais profunda simplicidade sintetizou toda a filosofia altruista e filantrópica anterior, alcandorando ao requinte da perfeição sobrenatural conceitos como “amai a Deus a ao próximo como a vós mesmos”; “amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”; é nisto que os homens hão-de acreditar que sois meus. E se vos amardes uns aos outros e ainda “tudo o que quereis que os homens vos façam, fazei-o a eles vós também”. Enfim, um amor que exclui toda a hipótese de cobrança de qualquer tipo de juro. Amor desprendido sem nada esperar em troca: “mutum date nihil inde sperantes” (Lc. 6,3).
A Igreja sempre esteve atenta ao problema e veiculou para os mais desfavorecidos e marginalizados de uma sociedade apostada no comércio dos empórios transoceânicos, a força dinamizadora de uma acção caritativa despojada de outros interesses senão o da dignificação e reconhecimento dos direitos da pessoa humana. Por exemplo, as ordens mendicantes fazendo voto de pobreza como os frades menores do “poverello” de Assis, de Domingos de Gusmão, os Carmelitas e Agostinianos, incendiaram o mundo desde o primeiro quartel de trezentos, imprimindo novos rumos nos espíritos sedentos de uma refontalização de critérios vocacionais genuinamente evangélicos. O despojamento radical de si próprio e o esmolar de porta em porta para ocorrer a multidões sofridas no desvalimento da desgraça ou da miséria, constituiu o mais nobilitado refinamento da doação ao próximo e foi capaz de estrançalhar qualquer egoísmo por mais enquistado que estivesse na feracidade do coração humano. A mais fecunda evangelização e pedagogia catequética na missionação popular foi pregada no púlpito da caridade. A palavra de Cristo de “pobres sempre os haveis de ter convosco” parece não ter sido ou nunca ter sido entendida através dos séculos, qual escândalo a evitar a qualquer custo. É certo que a pobreza e a mendicidade subsequente são um fenómeno complexo: condicionado por múltiplas causas, de entre as quais avulta a construção anormal da família, o abandono moral dos filhos, o alcoolismo, o regime prisional, o desprezo pelos delinquentes após a saída da prisão, as crises económicas, a opulência e a miséria. No séc. XIV, não foi a lei Fernandina das Sesmarias, nem com as ordenações Afonsinas com referência ao séc. XV que acabou a pobreza e a mendicidade, já que ao findar deste século enxameavam a capital e as ruas das cidades e vilas, milhares de indivíduos indigentes, repercutindo à distância os ecos da Peste Negra e as crises que se lhe seguiram a partir da segunda metade do séc. XIV e que não cessaria de se agravar no reinado de D. João I, quando a desvalorização monetária atingiu percentagens enormes: viúvas, órfãos, cegos, aleijados, mutilados famintos, empestados de enfermidade que não podiam ou exigiam internamento nos hospitais, tinham de estender a mão à caridade pública. No séc. XVI e XVII a mendicidade aumentou consideravelmente. Alvarás, cartas régias, regimentos e decretos não conseguiram disfarçar alastramento destas crises, nem diminuir os índices de miséria. Portugal, ao abalançar-se às conquistas do mundo com as viagens dos descobrimentos, enche-se de glória, mas também de infortúnios pelos casos de viuvez, orfandade, doenças e abandono a que deram lugar.

1/02/2005
Pe. Armando

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