Arquivo: Edição de 20-12-2019

SECÇÃO: Região

O NATAL da minha aldeia

Homenagem a Fernando José Teixeira (1938-2018)
Como diretor de O Conquistador, muito naturalmente, durante anos, por esta ocasião me empenhei em que o Natal pudesse ser também, através do jornal, aquilo que ele é, na sua essência: a grande Alegria, a alegre Notícia. E atempadamente “batia à porta” do grande amigo Fernando José Teixeira. Não o fiz em 2017, devido à enfermidade declarada que, aliás, viria a pôr termo à sua peregrinação terrena a 12 de março de 2018. A ele quero dedicar esta memória, em nada compatível com a beleza e expressividade dos seus contos e memórias de Natal, mas garantidamente com a intenção de contribuir para que não esmoreça e, muito menos, se apague a grande memória que é, como homem, como cristão e como vimaranense com letra grande, Fernando José Teixeira.

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No princípio dos anos quarenta do século passado, na freguesia de Joane, o Natal era vivido em profunda religiosidade cristã. O adro da igreja e o salão paroquial com o espaço envolvente e um atraente campo de futebol, mesmo de balizas sem redes, era também centro cívico duma comunidade em que “o povo labuta a cantar”. Era também polo de sentida atividade industrial que ia caraterizando aquela região do rio Ave e do rio Pele. Apesar de dispor de duas salas de aula, uma oficial e outra posto de ensino, da instrução primária, um posto do Registo Civil, um posto médico, uma farmácia, uma loja de comércio, onde chegava todos os dias a mala do correio, uma feira semanal, duas padarias, artesãos de calçado e tamanqueiros, alfaiates e outros ofícios de interesse público, naquela terra, agora vila desde 1986, ainda que sobressaindo em equipamentos sociais em relação às freguesias vizinhas, as necessidades básicas eram mais que muitas, bem sentidas no ensino, nas vias de comunicação, na falta de distribuição de corrente elétrica (havia-a nas fábricas, na igreja e nalgumas dezenas de casas), abastecimento de água (era captada em poços, abertos algumas vezes em terrenos insalubres, em fontes, que também serviam de pontos de encontro, pois que as águas sobrantes, devidamente ancoradas, eram lavandaria para muitas donas de casa) nas condições de saúde pública e higiene… Pois, num quadro assim, que hoje classificaríamos de extrema pobreza e indigência, as festas da aldeia e as festas de todos os crentes, como o Natal, Páscoa e a festa do Padroeiro ou outra devoção especial, eram vividas com entusiasmo incomparável.
À semelhança do que hoje acontece, mas na direção certa, isto é, tudo apontado para a celebração do grande encontro de Deus com os homens, o Natal era vivido muito antes da “noite mais bela”. Os peditórios porta a porta, “pró Menino” e os leilões de prendas realizados uns bons domingos antes do 25 de dezembro, eram os meios normalmente utilizados pelos mordomos da festa, geralmente moços novos, nomeados sempre de um ano para o outro, para que o presépio pudesse ser mais lindo e atraente do que o do outro ano e a sessão do fogo-de-vista, na noite de consoada, trouxesse agradáveis surpresas.
As canções de Natal eram ensaiadas com muito entusiasmo. Naquela época, o reconhecido músico e compositor, pleno de juventude e qualidade artística, joanense ilustre, que foi o padre Benjamim Salgado (1916-1977), todos os anos fornecia, em primeira mão, às cantoras e aos quadros da juventude da Ação Católica partituras de novas canções de Natal: que gozo e unção espiritual perpassavam através daquelas canções! O mês de dezembro trazia sempre a carga mais forte da preparação religiosa do Natal: logo a seguir à Senhora da Conceição, vinha a “novena do Menino”: os ingredientes da Natureza, chuva e frio, eram vencidos com devoção e fervor e, mesmo às escuras, todos os caminhos iam dar à igreja para a celebração das 6 horas da matina.
Não era costume, em Joane, celebrar-se a missa da noite (missa do galo); todavia, no dia 25, a partir das seis horas da manhã, a igreja registava um movimento único, incompreensível para os dias de hoje. Como todos os sacerdotes tinham e ainda hoje têm a faculdade de celebrar três missas e aos dois sacerdotes, que serviam a paróquia, se juntavam, pelo menos, mais quatro, naturais da freguesia que, livres de obrigações pastorais, vinham passar o Natal com as famílias, sendo ainda, naquela época, individuais as celebrações, aí temos uma autêntica festa de missas distribuída pelos altares laterais e entremeada, por três vezes, com o “beijar o Menino” ponto apetecido por todas as pessoas. Nestes momentos, havia no exterior grande foguetório. A tarde de Natal era totalmente dedicada ao convívio familiar e encontro de famílias. No Ano Novo, repetia-se o ritual de homenagem ao Menino-Deus semelhante ao do Natal, menos no número de missas. Porém, no dia 6 de janeiro, dia de Reis, a festa tinha um cunho de encanto muito especial, vivido na véspera, com o cantar-dos-Reis e celebrado com o expoente máximo de alegria de ter vindo ao mundo o Salvador.
Paralelamente ou como parte complementar indispensável da festa do Natal era a preparação da ceia da Consoada. Aí funcionavam sentimentos de solidariedade e de requinte dos simples e humildes. Um bom número de proprietários lavradores acolhiam de bom grado as crianças que, munidas com uma infusa, pediam vinho e traziam também batatas e couves para a ceia da Consoada; o toque ao coração dos benfeitores eram “as alminhas das suas obrigações”. Que lindo! Naquela ocasião, também não havia tréguas para a lenha seca das bouças e extensões apodrecidas dos carvalhos a que chamavam cabeços para colocar na lareira da ceia de Natal.
A Consoada constava de um cozido de bacalhau com batatas e couves; os doces eram preparados na parte da manhã do dia 24; eram eles a aletria, formigos (muito semelhantes aos mexidos, sopas (pão ralado embebido numa calda com açucar e canela que, depois, ia ao forno) e rabanadas. Colocavam-se também pinhas, subtraídas pela calada, dos pinheiros mansos, ao calor da lareira; os pinhões delas libertados eram o objeto do jogo “par e pernão”; as crianças sentiam-se afortunadas quando conseguiam acumular um bom número de pinhões. Ninguém se deitava antes da meia noite porque todos queriam contemplar a festa do nascimento do Menino fora de casa, em pontos estratégicos, com o fogo-de-vista que era lançado de junto das igrejas de todas as freguesias em redor. E, logo aí também, todos se arvoravam em juízes para atribuir o prémio à freguesia que apresentava o mais bonito; claro, o da nossa era sempre o melhor.
Os ecos do Natal repercutiam-se, de modo expressivo, pelo mês de janeiro fora. Como a paróquia dispunha, desde 1941, de um amplo salão paroquial, as crianças concentravam-se para sessões especiais de catequese e, numa dessas sessões, distribuição de prendas, geralmente roupas, tão apetecidas pelos mais pobres: esta iniciativa vinha da generosidade de Francisco Simões, joanense que residia no Porto e da criatividade e solidariedade de algumas senhoras muito dedicadas à freguesia.
Outra atividade de convergência da atenção e interesse de toda a comunidade eram as chamadas representações preenchidas sempre com uma boa peça de teatro, normalmente um drama alusivo à infância de Jesus. Estas representações envolviam sobretudo os jovens de Ação Católica.
Sobre as “Reisadas” limitar-me-ei a referir que eram, na letra e melodia, um rosário de loas ao Menino.
Os tempos eram outros, os interesses de hoje serão, em grande parte, bem diversos, mas Natal é sempre Natal. As memórias do passado poderão atrair-nos à fonte…para sentir e viver melhor o Mistério de Deus que, fazendo-Se homem, nos fez membros da Sua Família.
Lima de Carvalho

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