SECÇÃO: Região

A batalha de S. Mamede e a fundação de Portugal

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A Crónica dos Godos, documento muito próximo dos acontecimentos, dá-nos notícia da data e local da Batalha de S. Mamede, nos seguintes termos:
Era de 1166 (1128 da era cristã): no mês de Junho, festa de S. João Baptista, o ínclito infante Afonso, filho do conde Henrique e da rainha dona Teresa (...) travou com eles (...) indignos e estrangeiros da nação combate no campo de S. Mamede, próximo do Castelo de Guimarães, venceu-os e prendeu-os na sua fuga”.
Daqui resulta que a Batalha de S. Mamede ocorreu no dia 24 de Junho de 1128, perto (próximo) do Castelo (prope castellum) de Guimarães.
Uma tradição popular, aceita como boa esta localização e situa o Campo de S. Mamede junto à Colina do Castelo. Esta conceção derivava do facto de se traduzir a expressão “prope castellum”, por “junto do castelo”, quando a tradução mais correta da palavra latina “prope significa “perto ou próximo de”, portanto com um significado de espaço mais alargado.
Outros dois lugares surgiram posteriormente: o Campo de Ataca e Sam Redanhas. O Campo de Ataca, situado no limite sul de S. Torcato com S. Mamede de Aldão, foi o local proposto por historiadores militares, atraídos pelo facto de existir no local a veneração de S. Mamede. Recorde-se, no entanto, que a paróquia de S. Mamede de Aldão é de origem posterior aos factos.
Sam Redanhas, como local da Batalha de S. Mamede, aparece referido num texto do sec. XIV e que Fernão Lopes situa a meia légua de distância de Guimarães, para quem vinha do Porto. Esta é a opinião do historiador José Hemano Saraiva, defendendo que o termo Sam Redanhas significa “façanhas, feitos corajosos”, justificando, por isso, que a palavra tenha sido dada a um local onde se feriu um combate”.
Existem, no entanto, elementos históricos disponíveis que nos levam a uma outra solução, bem mais verosímil.
Uma batalha medieval não pode ser colocada num ponto fixo, nem encarada de um modo estático, mas como uma atividade dinâmica, conforme a estratégica escolhida. As vitórias nas batalhas, até de exércitos menos numerosos, dependiam da superioridade técnica, do exército mais bem comandado e constituído por soldados de maior valor militar. Sabemos que os ensinamentos dos escritores militares gregos e latinos sobre as técnicas de guerra não eram desconhecidas dos militares da idade média em que de uma posição defensiva se passava rapidamente a uma batalha ofensiva (ou vice-versa), com a expulsão do inimigo das posições que ocupava, desorganizando o seu dispositivo, perseguindo-o para obstar à sua reorganização.
Aceitamos como mais verosímil a tese de que o primeiro recontro ocorreu em Sam Redanhas, que Fernão Lopes situa a meia légua de Guimarães para quem vinha do Porto. Segundo o historiador José Mattoso, “as tropas de Fernão Peres e os cavaleiros fiéis a D. Teresa vindos, sem dúvida, das regiões de Coimbra e Viseu, atravessaram o Douro e dirigiram-se a Guimarães, onde Afonso Henriques devia então estar e a batalha campal deu-se, portanto, perto do seu castelo”(Cf. Reis de Portugal – D. Afonso Henriques-pag. 63 – Temas e Debates). Dada a proveniência das tropas inimigas, é lógico que o primeiro recontro ocorresse em Sam Redanhas, local situado muito provavelmente para norte e para sul do lugar de Reboto, tendo como limites as duas pontes sobre o rio Selho.
O palavra Reboto significa “perda de energia, perder o gume (instrumento cortante), derrota, ou em termos de lenda local, a água do rio Selho turbada com o sangue proveniente dos soldados caídos na batalha.
Afigura-se-me que a razão pela qual a palavra Sam Redanhas não é conhecido como topónimo no local acima referido, deve-se ao facto de o termo ter um sentido mais de qualificação do facto do que topónimo, respeitante a toda a zona onde se feriu esse primeiro recontro, tendo em conta as movimentações das tropas comandadas por D. Afonso Henriques e as fiéis a D. Teresa. Segundo o historiador J. Hermano Saraiva, a palavra Sam Redanhas é um castelhanismo que significa “acto de bravura, feito corajoso” e está ligado à Batalha.
Este primeiro recontro, em Sam Redanhas, não invalida a tese que defende o Campo de S. Mamede, junto à colina do Castelo, como lugar culminante da Batalha, já que era alí que o jovem militar, Afonso Henriques, tinha o mais seguro reduto de defesa – o Castelo. Inicialmente, não correndo bem a Batalha a D. Afonso Henriques, este foi obrigado a recuar para junto do Castelo.
A ser assim, como se pensa que é, até faz sentido a narrativa da “Crónica do Cinco Reis” ao afiançar que num primeiro momento D. Afonso Henriques teria sido derrotado e quando se retirava do campo de batalha, indo a uma légua de Guimarães, encontrou Egaz Moniz que lhe diz: “tornai e eu convosco e prenderemos vosso padrasto e vossa madre”. “E então se tornaram à batalha e a venceram”. Esta foi, aliás a versão aceite por Camões e vertida no Canto VIII, estância 13ª dos Lusíadas, nos seguintes termos:

“Este que vez olhar, com gesto irado,
Para o rompido aluno mal sofrido,
Dizendo-lhe que o exército espalhado
Recolha, e torne ao campo, defendido;
Torna o moço, do velho acompanhado,
Que vencedor o torna de vencido:
Egaz Moniz se chama o forte velho;
Para leais vassalos claro espelho”.

E no Canto III, 31, Camões refere-se ao sangue derramado na batalha e as razões do confronto:

“ De Guimarães o campo se tingia
Cò o sangue próprio da intestina guerra;
Onde a mãe, que tão pouco o parecia,
A seu filho negava o amor e a terrra.
Com ele posto em campo já se via;
E não vê a soberba o muito que erra
Contra Deus, contra o maternal amôr;
Mas nela o sensual era maior”

Assim, dentro de um raciocínio lógico, é de concluir que o primeiro recontro terá ocorrido na zona do lugar de Reboto, pertencente atualmente à freguesia de S. Martinho de Candoso, nos limites com a freguesia de Silvares e Creixomil e culminou com a derrota do exército galego nas imediações do Castelo para onde D. Afonso Henriques teria recuado, por questões de estratégia militar, seguindo-se a fuga desordenada do exército galego, com a sua captura, conforme referido na Crónica dos Godos: D. Afonso Henriques “prendeu-os na sua fuga”. E preenchendo a lacuna da Crónica dos Godos, quanto à omissão relativamente ao local em que as tropas galegas foram capturadas, concluimos ter sido no lugar de Ataca, da freguesia de S. Torcato, ou mais genericamente, na veiga de S. Torcato.
O topónimo “Ataca”, no seu significado militar de “progredir sobre o inimigo com o fim de o destruir ou capturar (cf. Dicionário L. Port. – da Porto Editora), está ligado à captura das tropas galegas, expressamente referida na Crónica dos Godos: D. Afonso Henriques “prendeu-os na sua fuga”
De todo o exposto resulta que a Batalha de S. Mamede, de acordo com a tradição, documentos conhecidos e a toponínia local e o seu significado, terá ocorrido, nas suas três fases, ou seja, no triângulo formado pela veiga de S. Redanhas (início da Batalha), Campo de S. Mamede junto ao Castelo (derrota das tropas inimigas) e Ataca (captura das tropas inimigas).
Entre os secs. XIV a XVII, a batalha de Ourique foi vista como o acontecimento mais importante, por se tratar de um facto sancionado pela visão miraculosa de Cristo. Mas, no sec. XIX, o historiador Alexandre Herculano restituiu à Batalha de S. Mamede o significado nacional, passando a ser o facto mais importante, por se tratar de uma ação coletiva, envolvendo a maioria dos senhores do Norte de Portugal, contra o domínio estrangeiro. Herculano chamou-lhe mesmo uma “revolução”. A mesma opinião tem o historiador José Mattoso. Daí que se considere este facto histórico como o mais adequado para a celebração do dia da Fundação de Portugal.
Assim, o desacerto da decisão de manter o dia 24 de junho, o aniversário da batalha de S. Mamede, apenas como feriado municipal é manifesta, porquando se trata de um facto histórico que os autores consideram como sendo o da Fundação de Portugal.
Considerando este circunstancionalismo, a Asssociação “A Grã Ordem Afonsina-Vida e Obra do Rei Fundador”, recentemente criada em Guimarães, promoveu uma petição pública na internet, para a criação desse feriado nacional para a qual todos os vimaraneneses devem estar unidos
Sabemos, através de declarações públicas, que o atual Presidente da Câmara, Dr. Domingos Bragança, há muito tem manifestada a ideia da criação desse feriado nacional. Portanto, o ideal era que todas as associações vimaranenses se reunissem à volta do município (incluindo a Assembleia Municipal) para o bom êxito da petição já lançada.
Por definição constitucional, o Presidente República (PR) representa a República Portuguesa, é garante da independência nacional e da unidade do Estado e é, por inerência, o Comandante Supremo das Forças Armadas (art. 120). Nesta perspetiva, o PR, além de presidir anualmente às cerimónias do 24 de junho, em Guimarães, no cumprimento da mais importante função de Estado, deveria também estar na linha da frente deste movimento vimaranense para a criação do feriado nacional no dia 24 de junho. Este ano, o Presidente Marcelo, além de presidir às cerimónias, irá ser condecorado com a medalha da cidade pela excelente forma como tem exercido as suas funções presidenciais.
PS. Parabens e um abraço ao Prof. José Mattoso pelo prémio “Árvore da Vida”, atribuído pela Igreja Portuguesa, através do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura.

Narciso Machado
(Juiz desembrgador jubilado)
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