Arquivo: Edição de 22-03-2019

SECÇÃO: Região

O regresso a Guimarães dos antigos documentos do Arquivo da Colegiada

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A Academia Real das Ciências de Lisboa, fundada em 1779, teve como um dos objetivos estimular o trabalho de historiadores e investigadores da história e das respetivas disciplinas auxiliares, bem como a publicação dos seus escritos.
Pertence ao historiador Alexandre Herculano (1810-1877) a iniciativa de fazer regressar à referida Academia a sua tradição de publicação de fontes da história. A preparação da sua História de Portugal revelara a A. Herculano - como resulta da “Advertência da 1ª edição (1846) - a carência de elementos acessíveis para a reconstrução do passado medieval. Daí o plano que apresentou à Academia para reunir e publicar os documentos existentes, mas dispersos, desde o século VIII até ao século XV, abrangendo três séries, ou seja, a dos documentos narrativos, a da legislação e a dos diplomas e atos públicos e particulares.
Aprovado o plano e obtidos do governo os recursos financeiros indispensáveis, Herculano lançou-se com os seus colaboradores por todo o país na procura e análise de documentos. Em 1856, pode iniciar a publicação do grande “corpus” intitulado Portugaliae Monumenta Historica (PMH), inicialmente com três séries do plano: Scriptores (1856), Leges et Consuetudines (1856-1867) e Diplomata et Chartae (1867). Posteriormente, a Academia acrescentou uma nova série consagrada às atas das inquirições régias denominada Inquisitiones, cujo 1º volume, 1ª parte saiu em 1888.
Os PMH representaram para a época em que foi iniciada a sua publicação, obra notabilíssima e de inegável mérito, pelo número de textos recolhidos, pelo cuidado paleográfico havido na leitura e na reprodução, pelas notas introdutórias de cada divisão - quase todas da autoria de Herculano - e constituindo algumas delas pequenas e precisas monografias, pelo aparato crítico usado quando se dispunha de mais de um apógrafo, pela soma de conhecimentos jurídicos, económicos, sociais linguísticos, toponímicos, onomásticos… que colocaram ao dispor dos historiadores e investigadores, permitindo-lhes trabalhar a história medieval, segundo um critério científico.
Acontece, porém, que os antigos documentos do Arquivo da Colegiada de Guimarães foram levados, por empréstimo, para a Torre do Tombo, em Lisboa, para comodidade de consulta de Herculano e seus colaboradores, encarregados, como se disse, pela Academia Real das Ciências, da redação dos Portugaliae Monumenta Historica. Esses documentos nunca mais voltaram à sua origem, apesar de algumas diligências encetadas pelos vimaranenses. Entre esses documentos, levados do Arquivo da Colegiada e depositados no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, encontra-se o célebre “Testamento de Mumadona”, códice manuscrito e redigido em latim vulgar, integrado no importante cartulário do sec. XIII, intitulado “Livro de Mumadona”. Os documentos em questão são elementos de grande utilidade para conhecimento das origens do burgo de “Vimaranes” e dos primórdios da nacionalidade portuguesa. Assim sendo, deveriam voltar para Guimarães. E se é certo que em tempos idos, Guimarães não dispunha de um local apropriado e seguro para seu depósito, hoje existe o Arquivo Alfredo Pimenta capaz de exercer essa função, de guarda e preservação.
Por isso, é ocasião de Guimarães e suas instituições culturais solicitarem aquilo que pertence à cidade, promovendo o regresso de todos esses documentos “à casa paterna”, evitando que os vimaranenses se tenham de deslocar a Lisboa para investigar e estudar, mais profundamente, a sua história.

PS. Parabéns ao Conquistador e seu diretor, Mons. José Maria, pelo seu 69º aniversário (2 de fevereiro de 1950).

Narciso Machado
(Juiz desembrgador jubilado)
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