Arquivo: Edição de 21-12-2018

SECÇÃO: Generalidades

História de Portugal contada aos trambolhões

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Um cidadão português que tenha da História de Portugal um conceito de verdade, de coerência cívica e de rigor histórico, fica frustrado perante a sucessão de palpites, de atoardas e de ensaios empíricos para ver se pegam de estaca, como tomates no nabal. Alguns exemplos para justificar-me.
O último dia 1 de Dezembro coincidiu com um fim de semana. E uma boa parte dos portugueses nem se terá apercebido da importância da data que comemora a Independência de Portugal, do jugo Filipino. Em 1580 perdemos essa faculdade política, económica, religiosa e tudo o que havíamos conquistado, entre 24 de Junho de 1128 e as sucessivas batalhas que travámos com os nossos vizinhos e o reconhecimento, em 1179, pela Bula papal Manifestis Probatum. Foram 60 anos desditosos, humilhantes e repressivos. Ainda hoje seríamos tudo isso se, «valentes guerreiros não nos dessem livre a Nação».
Neste último feriado nacional, com bastante relevo televisivo, quem pôde acompanhar as cerimónias, ficou ciente do simbolismo da efeméride. A Sociedade Histórica da Independência de Portugal, fundada em 1861 e com sede no Palácio da Independência, em Lisboa, tem toda a autoridade histórica, cultural, cívica e moral para liderar essa data. E essa missão foi bem vincada através das imagens televisivas de alguns canais ativos.
Há, contudo, reparos a fazer a outras instituições nomeadamente ao Parlamento que tem competência para criar um Grupo de trabalho, no qual devem ter assento, entre outros organismos, como a Academia Portuguesa de História, a Sociedade Histórica da Independência, a Academia de Ciências e outras que têm como preocupação essencial dos seus estatutos o rigor histórico da Portugalidade.
A «Primeira tarde Portuguesa» aconteceu há precisamente 890 anos. Foi em 24 de Junho de 1128, nos campos de S. Mamede, em Guimarães. Ninguém falou nisso. Foi uma data vazia de conteúdo histórico. Em 2028 essa «primeira tarde Portuguesa» completará 900 anos. A crer nas trapalhices que as classes política e histórica devotam à investigação e à proclamação da verdade histórica, Portugal irá virar as costas à data do seu nascimento, como aconteceu em 2009, com os 900 do nascimento do nosso Rei Fundador.
O que se passou com essa data, envergonha a Academia Portuguesa de História, envergonhou o Governo e o próprio Presidente da República que se resignaram perante uma pirueta fantasmagórica, ridícula e de muito mau gosto.
O dia 25 de Julho passou incólume. Nem um arranjo floral, nem uma romagem ao túmulo, nem um Te Deum Laudamus, pelas intenções do Rei que transformou o Condado (galego) no Império Português. Pelo contrário, competindo à Academia Portuguesa de História liderar a data «redonda» dos 900 anos de D. Afonso Henriques, (fosse em 2009, fosse em 2011), já que o ano, para o caso, é irrelevante), a própria Presidente da APH, deu-se ao luxo de entrar em contradições na hora crucial da efeméride. A cambalhota foi tão brusca e tão peripatética que em Setembro de 2009, perante as Câmaras televisivas, rádios e jornais, declarou, desabridamente, que iria propor a mudança dos manuais escolares, trocando Guimarães por Viseu. Ela mesma, que em 27 de Janeiro de 2009, garantiu: «aprendei como dogma de fé que Afonso Henriques nasceu em Guimarães e que fosse em Viseu, não aprendi com certeza». Por essa altura coordenou um dos 34 pequenos volumes dos reis de Portugal, com a chancelada Academia e ela própria exarou, no I volume por ela escrito, a teoria Viseense que meses antes negara, quase como dogma de fé.
Em 2012, na Cronologia da Monarquia Portuguesa, na sequência dessa cabala da Academia da História, abre esse volume com uma calinada de bradar aos céus: «1109 Agosto,15 – nasce D. Afonso Henriques, talvez em Viseu...»
Vivemos em tempo de colagens. Onde foram os autores dessa cronologia buscar esta primeira data, é como o selecionador nacional de futebol, afirmar que em 2020 vamos ganhar o campeonato do mundo. Onde está isso escrito e em que congresso científico o 15 de Agosto apagou o 25 de Julho, duas verdades consagradas pela tradição e nunca, em parte alguma, comprovadamente, substituídas. Resta dizer que a solenidade do 1º de Dezembro não pode ofuscar duas datas maiores: os nascimentos de Portugal e do seu Rei Fundador.

Barroso da Fonte

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