Arquivo: Edição de 09-06-2016

SECÇÃO: Generalidades

A história (quase) esquecida da Igreja no Mali
A vida por um fio

Depois da tentativa de imposição da “sharia”, a lei islâmica mais rigorosa, por grupos jihadistas em 2012, quase não há presença cristã no norte do Mali. Mesmo no resto do país, são poucos. E todos sentem-se ameaçados.
Sexta-feira, dia 20 de Novembro de 2015. Hotel Radisson Blu, em Bamako, capital do Mali. Passavam poucos minutos das seis da madrugada quando se escutaram os primeiros gritos, os primeiros tiros. O hotel de luxo, frequentado essencialmente por ocidentais, transformou-se, num ápice, num campo de batalha. O ataque, que causaria 27 mortos, foi reivindicado por um grupo islamita radical, o Al-Murabitun, ligado à Al-Qaeda no Magreb Islâmico, e ocorreu apenas uma semana depois dos atentados em Paris, cometidos pelo auto-proclamado “Estado Islâmico”. A tragédia na França terminou com cerca de 130 mortos e mais de 300 feridos. Ainda hoje todos recordam esse ataque. O do Mali já caiu no esquecimento. Domingo, 29 Maio, 5 capacetes azuis foram mortos numa emboscada no centro do país, no que parece ser uma nova onda de violência terrorista. Na sexta-feira anterior, dia 27, outros cinco soldados perderam a vida numa emboscada na região de Kidal. A 7 de Janeiro deu-se o rapto de uma religiosa suíça, Beatrice Stockly. Num vídeo, a Al-Qaeda do Magrebe Islâmico (AQMI) reivindicou esse sequestro afirmando que “Beatrice é uma freira suíça que declarou guerra ao Islão procurando cristianizar os muçulmanos”. O Mali continua a ser um terreno fértil para a actuação de grupos armados, apesar da intervenção militar francesa em 2013.

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“Apanhados pela desgraça”
Por causa da violência e da instabilidade, os cristãos são cada vez mais raros no país, especialmente ao norte. O padre Germain Arama, da diocese de Mopti, no centro do Mali, é testemunha disso. “São muito poucos e quase todos expatriados”, explica à Fundação AIS. A presença da Igreja aí é praticamente inexistente. “A situação é muito difícil”, explica Arama. “Há atentados suicidas, bombas que explodem aqui e ali. Todo o trabalho pastoral está em ‘stand by’. O único padre que celebra missa no norte tem de ir num avião militar. No Norte – explica este sacerdote – quando alguém sai de casa para ir trabalhar, despede-se da família pois não sabe se voltará a encontrá-la no regresso.”
No Mali é impossível esquecer os tempos terríveis em que o país foi ocupado pelos jihadistas que impuseram punições como flagelações, amputações e execuções. Nesses meses de terror, os jihadistas andaram “à caça de sacerdotes e religiosos”. Desde o epicentro da crise, em 2012, a igreja do Mali tem sido apoiada pela Fundação AIS, com uma ajuda de emergência para as populações em fuga. Ainda hoje, essa ajuda é essencial. De facto, no Mali, os cristãos são cada vez menos e estão todos inquietos. Para os cristãos, no Mali, a vida pode estar mesmo por um fio.

Paulo Aido | www.fundacao-ais.pt

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