Arquivo: Edição de 18-12-2015

SECÇÃO: Generalidades

NATAL 2015 | Caderno de problemas

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Já lá vão perto de setenta anos em que frequentei a 4ª classe da instrução primária. O livro de leitura e os diversos compêndios cabiam todos numa sacola de pano, que se colocava a tiracolo; também nela era acomodada a lousa, a qual não podia ir na parte que se ajustava ao corpo pelo perigo de partir com os movimentos de corrida nem da parte de fora porque aí poderia servir de alvo às pedradas arremessadas em algum ataque “inimigo”. Protegida assim entre os livros, conservava melhor os conteúdos dos trabalhos de casa, normalmente contas de dividir e outras operações com decimais e, a partir do meio do ano, também soluções de muitos problemas. Era mais uma despesa extraordinária para adquirir um caderno com dezenas de enunciados de problemas, pois que este não fazia parte do conjunto de livros oferecidos aos sócios pelo sindicato da indústria têxtil, então com sede em Delães, Vila nova de Famalicão. O professor tinha o cuidado de retirar a última folha, a que continha a indicação dos resultados de todos os problemas. Não havia, pois, qualquer hipótese de copianço.
Esta memória de infância, que traz ao de cima um bocadinho do que era a pedagogia e os procedimentos educativos daquela época, em que para muitas crianças era quase um luxo ter acesso à escola, poderá ajudar a perceber melhor o que deve ser o Natal e, particularmente, este Natal de 2015, a celebrar em Ano Santo Extraordinário da Misericórdia.
Para todos, na escola da vida, para os crentes, na escola da fé, o Natal deverá ser visto como portador de um sem-número de questões, cujas respostas terão de ser dadas e assumidas responsavelmente. Também aqui não há muletas para facilitar a caminhada; a responsabilidade é, toda ela, pessoal. E mais: como as multidões que seguiam João Batista, o precursor de Jesus, também os homens de hoje deverão interrogar-se a si próprios: e nós – e eu – que devemos fazer? Eis aqui o caderno de problemas. Mais ainda do que um caderno de encargos, aquele levanta indefinidamente perguntas sobre perguntas, ao passo que o caderno de encargos pode conduzir à posição cómoda resultante da convicção de que, cumpridos os deveres e imposições éticas e morais, está tudo feito.
Contemplando o mistério da Encarnação do Verbo de Deus, Palavra feita carne, uma direção de sentido único nos interpela a seguir Jesus, que é Caminho, Verdade e Vida e a descobrir que, nas variadíssimas circunstâncias da vida, não podemos esquecer que o caminho de Deus, como tanto repetia São João Paulo II, é o homem. Deste modo, iluminados pela energia do Evangelho e atentos às necessidades do próximo, nós encontraremos sempre novos pontos de referência para responder prontamente: e nós que devemos fazer? E não se caia na tentação de misticismos ou consolações de vanglória. Olhar em redor uma multiplicidade de círculos concêntricos, a partir do núcleo que é cada um em particular, desfazendo as arestas que magoam e afastam, passando pela família, pela escola, ambiente de trabalho e toda a espécie de relacionamento com vontade constante de alargar horizontes, aí está o mais sugestivo caderno de problemas. O Natal deste ano tem um motivo acrescido de viver a magia que o Natal sempre comporta: é o convite à misericórdia. Alimentar a virtude da Esperança, confiando nas promessas de Jesus e respondendo com práticas de misericórdia, em convivência fraternal, é ter a certeza e a alegria de bom desempenho. E nós queremos que este Natal seja assim.

Lima de Carvalho

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