Arquivo: Edição de 16-10-2015

SECÇÃO: Generalidades

O RI 20, o Boletim de Trabalhos Históricos e o Arquivo Alfredo Pimenta

O Arquivo Municipal Alfredo Pimenta abriu uma exposição com materiais, armamento, fotos e outros vestígios bélicos, relativos à I Guerra Mundial. Esta mostra que reuniu espólio junto de instituições militares e civis e que se esmerou na decoração da sede do bem instalado Arquivo Municipal Alfredo Pimenta, vai continuar acessível ao público, visto que a comissão promotora se preocupou em centrar as atenções nos vimaranenses que lutaram nesse conflito europeu, entre 1914 e 1918. Foram programados debates, ciclos de palestras e de cinema e, para memória futura, foi publicado o Volume V, referente a 2015, da III série.
Estive presente dia 16 do corrente, no pequeno auditório do Arquivo Municipal. Não pude estar na primeira sessão durante a qual foram apresentadas as duas comunicações que ocupam 64 páginas. Este IV volume tem 164 páginas e insere os textos integrais dos seis autores convidados. Três desses autores são exímios historiadores profissionais: Fernando Dias Conceição, Manuela de Alcântara dos Santos e Maria Adelaide Pereira de Moraes. Três notáveis documentos que valem mais do que três volumes anteriores, já que depois de 1990, os responsáveis mudaram radicalmente de grafismo, de formato e de figurino, numa espécie de «recomeçar do zero».
Gostámos, sinceramente, deste volume e do seu conteúdo pela unidade temática, pela inovação estrutural e pela abordagem. Os dois primeiros temas: «1914 – 1918: A grande guerra» e «o 9 de Abril nas memórias de dois Combatentes Portugueses», conjugam-se, lindamente, como se entenderam os dois personagens.
O primeiro é estruturado em oito capítulos onde Fernando Conceição explica, metodologicamente, as origens, as causas, os meios, os sítios, enriquecidos com expressivas imagens a cores: as armas, o equipamento, os meios de transporte, os beligerantes. Uma síntese que dava uma oportuna tese doutoral.
Manuela Alcântara, mulher de Fernando Dias Conceição, com formação histórica na mesma área, relata, em termos operativos, a forma e o modo como dois sargentos Portugueses partilharam, com os leitores do futuro «as memórias inéditas que viveram momentos dos mais acesos do combate». Um deles: José Dias Conceição – passou essas memórias a um caderno a que chamou: «A odisseia de um voluntário na vida militar».
O outro sargento – Sérgio Augusto dos Santos - fez teve odisseia idêntica, reunindo as suas «Memórias Particulares dum combatente da 1ª Grande guerra expedicionário a Cabo Verde na 2ª». Estes dois combatentes da grande guerra e da mesma época, prolongaram-se no tempo, ao legarem esses relatos de guerra aos filhos, respetivamente: Fernando Dias Conceição e Manuela Alcântara dos Santos. Estes, em jovens, conheceram-se, fizeram o mesmo curso, casaram e vivem felizes, ativos e cultos, como bem o demonstram nestes testemunhos. Ninguém melhor do que eles está em condições de elaborar e expor quanto possa dizer-se acerca da primeira guerra mundial.
No segundo dia de reflexão sobre o mesmo tema, igualmente com casa cheia, houve três palestrantes, todos bem preparados. Coube o papel principal ao vimaranense Carlos Manuel Leite Ribeiro de Sousa que vibra com tudo aquilo que gravitou em torno do chamado Centro Histórico da Cidade Berço. Aí teve ele o seu próprio berço. E não vislumbro quem quer que seja que se mostre mais bairrista, em tudo o que respeita aos monumentos históricos, desde o Padrão do Salado, ao antigo Mosteiro da Colegiada da Oliveira, desde a Rua de Santa Maria, ao Castelo, desde a Igreja da S. Miguel, ao Paço dos Duques que foi quartel militar a partir de 1807 até 1933. Por esse aquartelamento passaram várias unidades militares. E aquela que mais tempo manteve o nome foi o Regimento de Infantaria 20.
Carlos de Sousa escreve afirma se manteve aí entre 1884 e 1927. E diz que a Grande Guerra não passou despercebida a Guimarães que viu partir cerca de mil vimaranenses para o conflito. Mas só a 9/3/1916 se alargou o conflito a Guimarães. Dos mil que partiram do RI 20 «apenas um pequeno número regressou». É disto que Carlos de Sousa fala, comovidamente, porque ainda conheceu pessoas, algumas bem próximas, de quem ouviu testemunhos autênticos, de amor à Pátria e à Guimarães. Ilustra o seu bem esquematizado texto, com mapas demonstrativos dos mortos, dos desaparecidos, dos feridos, dos poucos que regressaram e permaneceram nas fileiras. Foi esta a comunicação mais aplaudida, por se tratar de um autodidata que teve também o mérito de ser convidado pela Direção do Arquivo para a Comissão organizadora. Paulo Cunha e Elisabete Pinto apresentaram, respetivamente: «As duas pátrias. Os vimaranenses e a 1ª Grande Guerra» e «Partiram... para onde o dever os chamou».
Maria Adelaide Pereira de Moraes esteve presente por ter escrito, para figurar no volume: «Velhas Casas: A dos Navarros – Arquivo Municipal Alfredo Pimenta». Foi feliz quem se lembrou de convidar esta competente Senhora, investigadora de alto nível, nesta área temática «das Velhas Casas». Serve hoje de sede ao Arquivo Alfredo Pimenta. Já era tempo de se conhecer a verdadeira história,«das melhores relíquias heráldicas, estilo clássico puro, tímpanos irregulares e cachorros elegantes». Adelina Paula Pinto escreveu - e bem - a introdução,
Registo, a terminar, que tendo publicado, em 1995, o livro de História local Unidades Militares que Passaram por Guimarães, onde se fala do Estandarte do Regimento de Milicias de Guimarães, nº 15, que em 1809 acompanhou para a Flandres o regimento preparado no RI 20 e, contando-se nessa obra uma síntese de todas as unidades militares que passaram por este espaço, nenhum dos autores o tenha citado. Do mesmo modo se editou em 2005, o texto integral da única tese que até hoje se preparou ao longo dos cinco anos curriculares, numa universidade pública, sobre «Alfredo Pimenta da praxis libertária à doutrinação nacionalista». Já teve uma reedição em 2015. Nessa obra científica se insere o VI capítulo de 28 páginas todo ele dedicado ao Arquivo, ao seu fundador, ao Boletim de Trabalhos Históricos, às relações do Arquivo com a Câmara e ainda ao arquivo da Colegiada.
Igualmente foi silenciada essa obra e, bem assim, tantos estudos que o mais ilustrado diretor do Boletim de Trabalhos Históricos, (afora o fundador Alfredo Pimenta) que foi Manuel de Oliveira.
Quarenta anos depois de se ter acabado com a censura, já era tempo de, numa cidade que foi Capital Europeia da Cultura, extinguir o «index» do Estado Novo.
Não poderia omitir esta nota, não obstante felicitar a Drª Alexandra Marques, diretora desta boa edição do Boletim de Trabalhos Históricos.

Barroso da Fonte

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