Arquivo: Edição de 16-10-2015

SECÇÃO: Informação Religiosa

Persistem os dias de medo na República Centro-Africana
O Padre coragem

Por mais de uma vez já arriscou a própria vida para salvar pessoas ameaçadas por bandos armados. Num país em caos, como é a República Centro-Africana, este sacerdote consegue ser sinal da esperança de que nem tudo está perdido.
Desde o final de 2012 que a República Centro-Africana vive em estado de sítio quando uma milícia armada, os Seleka, de maioria muçulmana, conquistou a capital, Bangui, e instaurou um reino de terror. Como acontece sempre, a violência gera mais violência e começaram a surgir outras milícias para combaterem os Seleka, como são os Anti-Balaka. Hoje, as populações vivem aterrorizadas. Ainda há duas semanas, 41 pessoas perderam a vida e quase 300 ficaram feridas em distúrbios na capital, depois do assassinato de um jovem taxista.

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Só na região de Bangui mais de 400 mil pessoas estarão em fuga por causa destes bandos armados. Cuidar dos feridos e ajudar quem viveu momentos de horror é uma das tarefas do Padre Barnard Kinvi, de 33 anos, que dirige um hospital em Bosemptélé, a quase 200 km. da capital. Demonstrando uma coragem invulgar, este padre salvou, só num dia, mais de 1.000 muçulmanos que fugiam destas milícias violentas, levando-os para a igreja local e arriscando assim a própria vida. Na República Centro-Africana, os bandidos fazem a própria lei.
Cuidar dos inimigos
Desde que começaram os tumultos, é raro encontrar alguém que não tenha vivenciado cenas de terror. A tentação de responder à violência com violência é muita. Mas o Padre Barnard tem combatido isso com o seu próprio exemplo. “No auge do conflito, reuni todo o pessoal do hospital e disse-lhes: Nós somos um hospital católico. Aqui tratamos todos por igual, seja amigo ou inimigo. Ele matou o seu irmão ou violou a sua irmã? Pois bem, se ele cruzar a porta de entrada do hospital porque está doente ou ferido, tem de cuidar dele. Se concordarem com isto podem continuar a trabalhar aqui. Se não concordarem, têm de ir embora…’” E todos ficaram. “Foi um momento muito emocionante”, diz. As pessoas continuam assustadas. O medo permanece instalado nas ruas. Basta passar um carro a alta velocidade com homens armados lá dentro que todos correm a esconder-se. Basta escutar-se uma rajada de metralhadora para se temer o pior. Ninguém sabe o que pode vir a acontecer. Para agravar o sentimento de impunidade, nos últimos dias cerca de 500 presos evadiram-se de uma cadeia em Bangui e quase uma centena de uma outra prisão, em Bouar. Se as forças da ordem têm vindo a revelar-se impotentes para contrariarem toda esta violência, resta a coragem de alguns, como o Padre Barnard, que todos os dias enfrenta o próprio medo em defesa das populações. “Sinto-me chamado pelo Senhor, que me convida a defender os direitos humanos sem levar em consideração as feridas do meu próprio corpo. É muito bonito amar e dar a vida pelos amigos.”

Félix Lungu - Fundação AIS
Departamento de Comunicação

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