Arquivo: Edição de 25-09-2015

SECÇÃO: Generalidades

É bom ser bom

Nos tempos conturbados do PREC (Processo revolucionário em curso), responsável pela implementação dos ideais de Abril, a cidade de Águeda, que, à falta de vias rápidas, era passagem obrigatória para quem transitava no sentido norte-sul e vice-versa. A circulação era necessariamente vagarosa e sujeita a não poucas paragens, o que permitia algum exercício de descontração. Por isso era quase inevitável observar a mescla de bonecos, frases e palavras de ordem para todas as sensibilidades estampadas num muro bastante comprido e alto; por entre aquela sopa de palavras, destacava-se uma que me chamou a atenção e que tem servido de lenitivo apreciável: é bom ser bom.
Ao preparar a celebração do domingo – 26º do Tempo Comum – a atitude de Moisés que se manifestou contente por o Espírito ter poisado também sobre dois homens que não estavam no acampamento, que não eram do número dos eleitos, dizemos nós, é um elemento precioso para compreender a posição que Jesus tomou, em circunstâncias bem parecidas. De facto, contrariando o entusiasmo dos discípulos, os quais não concordavam que um homem “que não anda connosco” andasse a expulsar os demónios em nome d’Ele, o próprio Jesus respondeu: “quem não é contra nós é por nós” (Mc 9,39).
Parece um paradoxo, mas é verdade: a inveja e o ciúme estão na raíz da pobre natureza humana e são certamente causa de atrasos e dispersão e até de quesílias e guerrilhas. Quando está em jogo o bem das pessoas, das instituições e da sociedade em geral, o que importa é agir desinteressadamente, agir sem olhar a quem. Dizia um célebre prelado que com os cinquenta mil reis dados por um cristão ou um ateu se comprava o mesmo saco de cimento. Isto significa que, na aventura de praticar o bem, o que deve animar as pessoas são os fins e os destinatários dos objetivos propostos. É verdade que os crentes levam vantagem pela convicção ditada pela fé: “quem vos der a beber um copo de água por serdes de Cristo, em verdade vos digo que não perderá a sua recompensa”. Ou: “bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia”.
Um desafio interessante posto à Comunidade Europeia e até à sensibilidade internacional é o problema dos migrados e refugiados de países do Médio-Oriente e de África, que vai sendo considerado como êxodo de proporções bíblicas: todos temos de nos dar as mãos, crentes e não crentes, e abrir o coração sem cuidar de saber à partida a raça, côr ou credo que os carateriza.
Cremos bem que a insistência do papa Francisco numa Igreja de saída, de lembrar as periferias, do diálogo, tem muito a ver com a consolidação desta proposta que é ver no outro simplesmente um irmão. E, como o bem, por essência, é difusivo de si mesmo, ter a preocupação permanente e em tudo de ser bom é também acreditar num novo céu e numa nova terra onde a paz e a justiça reinarão para sempre. É bom ser bom.

Mons. José Maria

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