Arquivo: Edição de 12-06-2015

SECÇÃO: Informação Religiosa

RECORDAÇÃO DE UM CENTENÁRIO

Homilia na Homenagem ao Mons. António Araújo Costa, pelo Centenário do seu nascimento
26 maio 2015 – Nossa Senhora da Oliveira, Guimarães
A vida de qualquer pessoa pode assumir dois itinerários existenciais distintos. Alguns optam por gozar a vida, num imediatismo de sensações agradáveis. Outros, pelo contrário, acreditam que a passagem pela terra é breve e deve ser vivida como preparação da realidade perene. Por qual optar? A primeira leitura diz-nos com clarividência: “não te apresentes diante do Senhor com as mãos vazias” (Sir 35, 4) e “dá ao Altíssimo, segundo o que Ele te tem dado” (Sir 35, 9) e Ele “recompensar-te-á de tudo, sete vezes mais” (Sir 35, 10). É nesta perspectiva que interpretamos a vida cristã. Ela exige-nos que deixemos coisas a que os outros dão valor para nos centrarmos unicamente na vontade de Deus. Quando isto acontece, Ele recompensa-nos sem medida.
A paróquia de Nossa Senhora da Oliveira, no arciprestado de Guimarães e Vizela, e a Arquidiocese de Braga decidiram, em boa hora, recordar os 100 anos do nascimento de Mons. António de Araújo Costa. Este gesto deve significar, desde logo, um apelo a que todos nós gastemos a nossa vida ao serviço dos demais. Apenas a doação de si e a entrega alegre aos outros explica determinadas opções de vida e a razão mais profunda do próprio existir.
Para confirmar esta minha convicção, gostaria de deixar um pensamento sobre um grande santo que a liturgia hoje nos recorda, S. Filipe de Neri. Viveu num período de grave crise na Igreja Católica, o séc. XVI, e desencadeou processos de renovação eclesial. Esta atitude é, por isso, paradigmática para este momento que estamos a viver.
As reformas exteriores são importantes, sem dúvida, mas têm maior credibilidade quando surgem como consequência de uma revolução interna. Dito de outro modo: os grandes santos apostaram primeiro na via da espiritualidade e depois, gradualmente, começou a surgir um novo modo de ser Igreja. Recordo S. Inácio de Loiola e a Companhia de Jesus, S. Camilo de Lelis e o carisma da atenção aos enfermos, S. Carlos Borromeu e a reforma interna da Arquidiocese de Milão, Beato Bartolomeu dos Mártires e a renovação da pastoral da nossa Arquidiocese. Também Filipe de Neri integrou esta geração de homens que viveram a olhar para a eternidade e com o coração na Humanidade.
A ânsia da espiritualidade levou muitos leigos, que não pretendiam a integração numa Ordem Religiosa, a apostarem num estilo de vida evangélico e a atenderem às necessidades dos doentes, dos pobres e dos órfãos. Eram pessoas de todas as condições sociais que se reuniam para se formarem e agirem, segundo as suas capacidades, no seu ambiente quotidiano. Recordo, a título de exemplo, o músico Palestrina que deu um contributo importantíssimo à música polifónica e criou um Oratório do qual saíram artistas influentes na música profana e sacra.
O papel de Filipe de Neri era essencialmente ser um mestre da vida cristã, privilegiar o acolhimento das pessoas e fomentar a direcção espiritual. Desenvolveu, por isso, um trabalho pedagógico com o objectivo de fomentar a vida comunitária, mesmo estando no mundo. Contudo, só mais tarde surgiu, espontaneamente, a comunidade sacerdotal composta pelos seus primeiros companheiros que sentiram o chamamento à vocação sacerdotal. Não estavam ligados entre si por votos como os religiosos. Viviam, antes, em comum pelo vínculo da caridade fraterna. Uma vida sem grandes práticas de penitência, como era habitual nesse período, mas profundamente marcada pela liberdade cristã e pela simplicidade evangélica. Ele dizia que “a nossa regra é só o amor”. Os santos do seu tempo estruturavam, por norma, a vida religiosa ao pormenor. Ele preferiu, ao invés, a vitalidade religiosa numa modalidade mais livre, espontânea e adaptada à presença no mundo. O grande historiador Lortz define S. Filipe como “a melhor personalização católica da liberdade cristã”.
Esta homenagem ao Mons. Araújo Costa pode correr o risco de se limitar a palavras que reproduzem, com maior ou menor fidelidade, a sua personalidade. Peço a Deus que isso não aconteça. Viemos aqui para iluminar a nossa vida e levar algo que nos faça recordar sempre este grande sacerdote que serviu a Igreja em vários lugares. Coloquemos, por isso, na nossa mente quatro recordações:
1. O mundo de hoje necessita de interioridade. Vivemos demasiado apegados a critérios que nos são impostos de fora. Somos pressionados por mensagens que minam a nossa liberdade interior e nos impedem de corresponder à nossa identidade germinal.
Esvai-se a nossa originalidade e transformamo-nos num número sem capacidade de incidir sobre a realidade que nos circunda.
O catolicismo, como não poderia deixar de ser, sempre primou pela apologia da interioridade e da espiritualidade. S. Filipe de Neri insere-se nesta linha dos grandes exemplos vivos do protótipo cristão. Somos católicos não só para ir à missa, participar em procissões ou rondas. Há um estilo de vida, um modo de encarar os problemas, uma luz norteadora que nos orienta. Este estilo é trabalhado mediante uma séria reflexão pessoal e comunitária. Necessitamos de lugares e espaços de criatividade espiritual. Mas quem sabe se eles não existem já em casa ou na comunidade cristã e nós estamos a desaproveitá-los?
O Mons. Araújo Costa está ligado ao Centro Pastoral D. António Bento Martins Júnior. Um espaço que tem sido aproveitado para formação bíblica, para reaprender a oração e para verificar como agir como pessoas que vivem no mundo. Não poderemos ir ainda mais longe e fazer deste espaço uma estrutura evangelizadora nesta realidade única que é a cidade de Guimarães?
2. Da espiritualidade nasce a vontade de discernir. O crente, desde sempre, tende a aproximar a sua vontade à vontade de Deus. Numa linguagem teológica, este processo tem o nome de discernimento vocacional, isto é, o acto de responder a um chamamento de Deus. Ser cristão é sinónimo deste diálogo com Deus que chama constantemente e que, respeitando a liberdade individual, sonha um projecto de vida profissional ou familiar. É neste ambiente que crescem as vocações e surgem as novas congregações religiosas. S. Filipe de Neri começou por uma Ordem Secular e chegou ao Oratório dos Consagrados. Neste ano da Vida Consagrada, não poderemos também nós inspirar-nos na paixão do Mons. Araújo Costa pelas vocações de especial consagração? Existem Congregações e Institutos Seculares. Não poderão ser elas o caminho de muitos e talvez de algum de nós?
3. Desta consciência emerge a importância do sacerdócio ministerial. O Mons. Araújo Costa foi o primeiro Vigário Episcopal para o Clero e a quem tive a honra de suceder, talvez por sua sugestão. S. Filipe de Neri chegou a um Oratório Sacerdotal onde a vida comum dos sacerdotes, em simplicidade e amor fraterno, era a força para viver o ministério com a convicção que as grandes causas exigem. Não poderemos levar, a partir de Guimarães, para toda a Arquidiocese este gosto dos sacerdotes crescerem juntos na vivência da fé? A paróquia de N. Sra. da Oliveira não dispõe de condições para organizar uma residência e comunidade sacerdotal? As exigências do ministério certamente atenuar-se-iam e as dificuldades transformar-se-iam em trampolim para um testemunho mais alegre e contagiante. Por outro lado, como é urgente que as Unidades Pastorais passem de bonitas intenções à realidade.
4. No seu itinerário de vida, o Mons. Araújo Costa foi capaz de intuir as necessidades dos mais pobres e apaixonou-se pelas Obras de Misericórdia. Concretizou-as sobretudo na atenção às crianças, a quem os pais nem sempre podiam proporcionar momentos de convívio e de aprendizagem para uma vida alicerçada nos valores humanos e cristãos. A Igreja sempre dedicou particular atenção às crianças e, é justo lembrar, às crianças mais pobres. Foi a Igreja quem idealizou e construiu estruturas que, a partir de leigos apaixonados pela missão eclesial, fossem resposta a tantas carências. A história de Guimarães confirma-o e são muitas as casas de matriz católica que aqui servem as crianças. O Centro Paulo Mexia, na Penha, agora ao serviço do CNE, foi uma instituição pioneira no acolhimento das crianças e na capacidade de lhes proporcionar momentos de qualidade.
Passaram-se cem anos! Tentei evitar adjectivos para descrever o D. Prior. Optei antes, e tendo por base o esquema de S. Filipe de Neri, por deixar sementes. Não poderemos, a partir do centro de Guimarães, trabalhar a formação humana e cristã? Não teremos a responsabilidade de elevar o patamar de exigência no âmbito da espiritualidade e das opções de vida? Não terão os sacerdotes de converter a sua vida isolada e testemunhar uma vida comunitária e um trabalho em verdadeira unidade? Não necessitarão as crianças e os jovens, assim como os mais pobres, de conhecer esta ternura do amor de Deus que a Igreja pode oferecer?
Que o Mons. Araújo Costa nos desafie a mudar alguma coisa em termos pessoais e estruturais. Deixemo-nos de individualismos que envergonham a Igreja e mostremos um cristianismo, com limitações e deficiências, mas unido no essencial a trabalhar pelo bem da humanidade.

+ Jorge Ortiga, Arcebispo Primaz

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