Arquivo: Edição de 29-05-2015

SECÇÃO: Região

Centenário do nascimento de Monsenhor António de Araújo Costa

Ex - Dom Prior da Insigne e Real Colegiada de Nossa Senhora da Oliveira - Guimarães

Habituamo-nos a balizar a vida de Alguém desde o dia do seu nascimento até ao do seu decesso temporal.
Assim, António da Araújo Costa nasceu na freguesia de Mouquim, Vila Nova de Famalicão, no dia 26 de Maio de 1915 e faleceu a 25 de Março de 1988, no Centro Pastoral D. António Bento Martins Júnior, residência habitual da sua paróquia de Nossa Senhora da Oliveira.
Foi ordenado sacerdote em 30 de Junho de 1940 e exerceu o seu ministério sacerdotal durante 48 anos: 7, como pároco de São Tomé de Caldelas, acumulando, entretanto, São Cláudio de Barco e São Clemente de Sande, do Arciprestado de Guimarães e 41 como pároco de Nossa Senhora da Oliveira, donde partiu para a Casa do Pai.
Também é um hábito meu coligir apontamentos da trajectória existencial de alguns amigos sacerdotes, dos que transpuseram já a carreira terrena, refundindo-os, desenvolvendo-os, amplificando o que me possibilita um enriquecimento maior de momentos especiais, divulgando-os com rigor e vero aprazimento. É, todavia, uma nobre maneira de reconhecer os seus méritos inquestionáveis e fazer cópia fidedigna de caminhos maravilhosos, singularmente vividos.
Não desejando nunca correr instâncias recorrentes e inadvertidamente repetitivas, permito-me nestas breves e despretensiosas palavras de homenagem neste centenário de Monsenhor António Araújo Costa, transcrever um texto editado nas “Memórias da Cidade” com o nr. 75 pelo saudoso Cónego Eduardo de Melo Peixoto, figura tão sobejamente conhecida que o foi em toda a arquidiocese bracarense, rezando assim:

Monsenhor António Araújo Costa - D. Prior da Oliveira (Guimarães) e Arcipreste

Ter um amigo é bom… vê-lo partir faz sofrer.
Era eu muito pequeno quando ouvi estas palavras… Gravei-as e aplico-as aos amigos verdadeiros.
Recordo a propósito as palavras de Monsabré, o grande orador dominicano: “As andorinhas aproximam-se de nós nos dias bonitos; mas fogem com o tempo agreste. Quantas andorinhas na amizade!”; e ainda as palavras do Padre Bonnet: «os amigos são como os táxis; não se encontram quando está mau tempo».
Por estas razões, impõe-se o velho aforismo: «Quem tem um amigo tem um tesouro».
Conheci, verdadeiramente, Monsenhor Araújo Costa nos trabalhos comuns e intensivos entre 1968 e 1988. Foram vinte anos de íntima e profunda convivência – humana e sacerdotal – e partilhada também por outros grandes amigos e irmãos no sacerdócio: D. Carlos Pinheiro, hoje Bispo Emérito, meu ilustre condiscípulo, o falecido Monsenhor Daniel Machado e o Monsenhor Cónego Joaquim Fernandes, generoso e activo resistente. E os trabalhos mencionados realizaram-se nos pontificados de D. Francisco Maria da Silva e de D. Eurico Dias Nogueira.

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Monsenhor Araújo Costa nasceu na freguesia de Mouquim, Vila Nova de Famalicão, em 26 de Maio de 1915, mas ingressou no Seminário de Braga como paroquiano de Louro, do mesmo concelho, visto os pais terem aqui fixado residência e recebeu a ordenação sacerdotal em 30 de Junho de 1940 – um ano em que a Arquidiocese recebeu no seu presbitério insignes sacerdotes.
Logo em 16 de Agosto foi nomeado pároco de Caldelas (Taipas) onde, durante sete anos, exerceu o seu ministério acumulando as paróquias de Barco e São Clemente de Sande. Em 22 de Setembro de 1947 foi nomeado pároco de Nossa Senhora da Oliveira do Castelo, cidade de Guimarães, e Arcipreste, tendo solicitado dispensa destas missões, por motivos de saúde, quase no termo da carreira terrena.
O título de Monsenhor (Prelado Doméstico) foi-lhe conferido pelo Papa João XXIII em 19 de Maio de 1960.
Em 13 de Fevereiro de 1967 o Arcebispo D. Francisco Maria da Silva conferiu-lhe o cargo de D. Prior da Colegiada de Guimarães. Na mesma data foi chamado a exercer a missão de Vigário Episcopal do Clero, depois confirmado por D. Eurico Dias Nogueira e de que pediu a exoneração em 1 de Outubro de 1985. Foi neste labor que Sua Ex.cia Rev.ma se distinguiu, sobremaneira, contactando dia a dia e de modo muito directo com o clero, quer visitando os doentes, quer incentivando os mais novos na vida apostólica, quer organizando os Exercícios Espirituais para o Clero, reciclagens e várias actividades de apoio aos padres.
A paróquia da Oliveira renovou-se espiritual e culturalmente. Para isto concorreu o lançamento do jornal “Conquistador”, que deu origem ao actual “Colina Sagrada”. Criou o Centro Pastoral D. António Bento Martins Júnior, o Centro Vocacional da Colegiada (Pré-Seminário), o Campo de Férias J.P.Mexia (na Penha), a Aldeia do Arcebispo junto ao Santuário da Penha, etc. E procurou dar novo incremento à Catequese no Arciprestado a partir da criação do Secretariado Regional da Catequese.
Promoveu, localmente, várias jornadas Eucarísticas e Marianas e o Congresso sobre Guimarães e a sua Colegiada.
Esta é, apenas, uma visão rápida e bastante superficial sobre quanto realizou o D. Prior da Colegiada, com muita inteligência, grande zelo e extraordinária dedicação.
Após uma vida sacrificada e em absoluto entregue à santificação das almas, na Arquidiocese que tanto amou, Monsenhor Araújo Costa deixou-nos em 25 de Março de 1988.
Olhando frontalmente este “homem de Deus” que sempre procurou dignificar e honrar a Santa Igreja, recordo o generoso lutador que jamais cruzou ou deixou cair os braços, que sempre procurou unir as pessoas para trabalhos apostólicos e que lealmente serviu a Igreja em união com os Arcebispos do seu tempo: D. António, D. Francisco e D. Eurico.
Os caminhos que percorreu não foram “tapetes”… mas soube, sempre, retirar as pedras e os espinhos dos caminhos andados… e dar a mão aos outros.
Também na missão de Vigário Episcopal territorial que lhe foi entregue, conseguiu realizar acção altamente meritória.
Penso que, entre outras, há duas coisas às quais nos devemos habituar sob pena de acharmos a vida insuportável e sucumbirmos: são as injúrias do tempo e as injustiças dos homens. É doutrina comum… Devemos reflectir.
Fogem as andorinhas! E não há táxis!
Estou a ver Monsenhor Araújo Costa, confiante na vida, firme no seu lugar e olhando de frente as dificuldades para, em luta as ultrapassar.
Ter um amigo é bom… vê-lo partir faz sofrer!
Cónego Eduardo de Melo Peixoto

NB. Este texto encontra-se no “Diário do Minho”, de 27 de Junho de 2004

In Memoriam

A totalidade da transcrição supra dá-nos ensejo de rever com rigor aquilo que foi a vida empenhada e apostolicamente exaustiva de Monsenhor Araújo Costa, na visão do seu grande admirador, o saudoso Cónego Melo Peixoto. A mim, pessoalmente, é um texto que me toca com relevância inusitada, tendo em conta a memória tão presente, como se fosse hoje, da personalidade que estamos a celebrar. Era eu uma criança das cercanias da Cidade, mais propriamente da prolífica rua da Arcela quando, providencialmente, me aproximei da porta principal da Igreja da Oliveira, decorrendo no seu interior exéquias fúnebres pelo falecido Pároco e Arcipreste de então, Padre João do Carmo da Cruz Magro, oriundo da vila de Montalegre. Fora, antes, também Pároco de São João Baptista de Airão, deste Arciprestado. Era o dia 13 de Maio de 1947. O entoar solene do canto gregoriano fez-me estremecer profundamente e a plêiade de numerosíssimos sacerdotes presentes com as suas vestes talares, ainda mais. Repito, era o dia 13 de Maio. Sei que não se tratava de uma concelebração sacerdotal e, ainda hoje me pergunto porque fiquei ali especado, absorto, faltando ao trabalho com os meus onze anos no armazém da sapataria Abel de Oliveira Bastos, Oliva, frente aos “20 Arautos”, na rua Gravador Molarinho. Porquê? – Não sei, foi sem dúvida, o despertar de uma vocação…
O futuro Pároco, Padre António de Araújo Costa, também lá estava, cantando o cantochão exequial com os colegas; daí a quatro meses (22 de Setembro) seria o sucessor como Pároco e Arcipreste. Sempre me liguei à Igreja da Oliveira, desde aí, sobretudo, frequentando os ensaios de canto do Senhor Arcipreste com o “Deus e Senhor que nos criastes”… É uma melodia e uma letra que nunca mais esquecerei.
Encaminhado para o Seminário, em Braga, passei as minhas férias dos doze anos de seminarista, sempre na Oliveira, aí dormindo e desfrutando a mesma mesa do Senhor Arcipreste, ao depois, Monsenhor. Fui ajudante da sua missa diária no altar do Santíssimo. Recordo o seu amor à Eucaristia, ao Terço, ao Breviário e ao Confessionário. Relevo as procissões eucarísticas aos doentes. Magníficas. O amor à capela de Santo António da Arcela e aos presos da Cadeia.
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O sorriso cativante e, por vezes, estridente, desbordado do seu gabinete de atendimento e diálogo nos momentos solenes da sua representatividade, como Pároco, Arcipreste, Dom Prior da Colegiada e Monsenhor.
Sei como ele era, porque sempre o acompanhei, menino e moço, com a certeza de que via nele um amigo e muito dedicado à minha saudosa mãe. Estas recordações de criança e jovem não se olvidam nem desmoronam dos seus alicerces.
Não esquecerei jamais esta proximidade sacerdotal do bondoso Monsenhor. Mesmo quando fui nomeado para Cavalões, Famalicão, onde estive catorze meses e logo de volta fui recebido por ele em Fermentões de braços abertos, onde completo, agora, no próximo dia 22 de Agosto, 50 anos.
Fui marcado a sério por este Padre, o Monsenhor Araújo Costa.
Gostaria ainda de recordar os maravilhosos colaboradores ali residentes: Padre Manuel de Oliveira, Padre Firmino Lopes da Cunha, Padre Rios Novais, Padre Abílio Aires, Padre Jorge Pais dos Santos, Padre António Cunha, Padre Torres Lima, Padre Manuel Lima, Padre Augusto Torres, Padre António Guimarães, Padre Oliveira do Colégio Egas Moniz, Padre Bártolo, Padre Lourenço Castro Fernandes, Padre José Maria e Padre Américo, Padre Hilário Silva e tantos outros que faziam parte de uma equipa onde sempre imperou a vera prestação sacerdotal repleta de muita alegria.
Bem haja por tudo o que fez por nós, jovens padres e seminaristas que sempre sentiram o carinho de um verdadeiro irmão mais velho, abrindo-lhes a todos o largo horizonte de consagração, destinando-lhes o seu “Conquistador” por ele fundado em 1950, para o tirocínio da escrita jornalística sobretudo pela maravilhosa e proverbial “Página” em que todos intervieram com o seu labor na descoberta dos grandes vaticínios do Vaticano II. Seria um não mais acabar das coisas boas vividas, que guardo no segredo dos arcanos mais íntimos, assegurado, por certo, pela sua bem-aventurança na Eternidade. Muito obrigado, de joelhos, ao Monsenhor Araújo Costa.

25/05/2015 - Padre Armando

Na próxima edição deste quinzenário regionalista publicaremos a homilia do senhor Arcebispo Primaz, D. Jorge Ortiga, na celebração da eucaristia comemorativa do centenário de nascimento de Monsenhor António de Araújo Costa, realizada na igreja de Nossa Senhora da Oliveira, no passado dia 26 deste mês.

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