Arquivo: Edição de 10-10-2014

SECÇÃO: Informação Religiosa

Igreja transformada para um mundo em transformação

1. Sempre me impressionou a forma como, a partir do Pentecostes, os Apóstolos deram cumprimentos à ordem de Jesus do “Ide e ensinai todos os povos da terra” (Mt 28, 19-20): nem se interrogaram se sabiam ou não falar as línguas das gentes a quem pregariam, nem se tinham dinheiro para comprar o bilhete que os haveria de conduzir às quatro paragens do mundo, nem fizeram complexos e abrangentes planos pastorais, nem organizaram simpósios para reflectir sobre esquemas de actuação. Milénio e meio depois, algo de semelhante haveria de acontecer na Europa, graças à acção dos portugueses: na época das descobertas, uma nação quase insignificante em número e em meios, meteu ombros à tarefa hercúlea de levar o Evangelho a praticamente todos os pontos de um globo terrestre até então desconhecido. E inscreveu no mapa e no roteiro da salvação o nome de muitos povos.
2. E foram para onde? Para usar a feliz expressão do Papa Francisco, foram às “periferias”. Geográficas, evidentemente. Mas também às periferias humanas. Encontrámo-los, de facto, nas cosmopolitas Roma e Corinto e em paisagens quase desérticas como as da Capadócia e muitos lugarejos da Ásia Menor. Deparamos com eles ao lado do “alto funcionário da rainha de Candace, da Etiópia” (Act 8, 27) e com os órfãos, os pobres e as viúvas, a quem serviam à mesa (cf Act 6, 2). E aos missionários portugueses vemo-los na corte imperial do Japão ou entre os índios do Brasil, pregando o Evangelho aos mais pobres dos pobres da Índia e criando cidades, escolas e hospitais por toda a parte. Exactamente como, ainda hoje, fazem os missionários.
3. Tal como desenvolve o Papa Francisco na “A Alegria do Evangelho”, abalançaram-se porque se deram conta de que “a acção missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja” (EG 15). Sim: primeiro está a obra missionária e só depois é que vêm as estruturas (p.11) de cristandade. Não o contrário. Se os Apóstolos se propusessem começar por criar as estruturas «indispensáveis» em Jerusalém, ainda hoje não teriam de lá saído.
4. O que caracteriza a Igreja é a imagem da «pequena grei» ou sempre reduzido número dos que se propõem ir ao encontro dos «confins» da existência humana, de contactar com as diferentes condições de vida, culturas e visões da pessoa. É o ímpeto dos que, animados pela força do Espírito do Ressuscitado, continuam a Sua obra salvífica: pregar a solidariedade e fraternidade universais, curar os enfermos, aproximar-se dos pobres, incutir fome e sede de justiça, perdoar aos pecadores, sarar os corações dilacerados, enfim, ajudar a endireitar-se a todos “aqueles cujas costas estão curvadas devido ao peso e à fadiga da vida” (Papa Francisco).
5. Que a Mãe de Deus e da Igreja e a Padroeira das Missões, Santa Teresinha do Menino Jesus, nos ajudem a criar uma nova consciência de Igreja, mais missionária e empenhada em levar a causa do Evangelho a todos os confins do humano. Que o amor de Cristo acenda em nós o fogo da paixão pelo reino de Deus e seu anúncio. Que nos disponhamos a continuar a missão de Cristo como solidariedade para com os mais pobres e excluídos. Que o exemplo dos grandes missionários de todos os tempos nos lance o desafio vocacional, quer na consagração nos Institutos Missionários, quer nas acções de voluntariado e cooperação. Enfim, que, com novo ardor, sejamos capazes de dar uma resposta decidida ao célebre repto que nos lançou São João Paulo II : “Portugal, convoco-te para a missão”.

+Manuel Linda
(Bispo das Forças Armadas
e Segurança)

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