Arquivo: Edição de 13-06-2014

SECÇÃO: Informação Religiosa

Para chegar à paz, somos chamados a dizer uma palavra: «Irmão»

O convite lançado pelo papa Francisco, por ocasião da Sua recente visita à Terra Santa, aos presidentes de Israel e da Autoridade Palestiniana, resultou no encontro de oração pela Paz realizado no passado dia 8 deste mês, solenidade do Pentecostes.
A ousadia do convite e a coragem daquele encontro impele-nos a divulgar as palavras então proferidas pelo Santo Padre.

«Senhores Presidentes,
Com grande alegria vos saúdo e desejo oferecer, a vós e às ilustres Delegações que vos acompanham, a mesma recepção calorosa que me reservastes na minha peregrinação há pouco concluída à Terra Santa.
Agradeço-vos do fundo do coração por terdes aceite o meu convite para vir aqui a fim de, juntos, implorarmos de Deus o dom da paz. Espero que este encontro seja o início de um caminho novo à procura do que une para superar aquilo que divide.
E agradeço a Vossa Santidade, venerado Irmão Bartolomeu, por estar aqui comigo a acolher estes hóspedes ilustres. A sua participação é um grande dom, um apoio precioso, e é testemunho do caminho que estamos a fazer, como cristãos, rumo à plena unidade.
A vossa presença, Senhores Presidentes, é um grande sinal de fraternidade, que realizais como filhos de Abraão, e expressão concreta de confiança em Deus, Senhor da história, que hoje nos contempla como irmãos um do outro e deseja conduzir-nos pelos seus caminhos.
Este nosso encontro de imploração da paz para a Terra Santa, o Médio Oriente e o mundo inteiro é acompanhado pela oração de muitíssimas pessoas, pertencentes a diferentes culturas, pátrias, línguas e religiões: pessoas que rezaram por este encontro e agora estão unidas connosco na mesma imploração.
É um encontro que responde ao ardente desejo de quantos anelam pela paz e sonham um mundo onde os homens e as mulheres possam viver como irmãos e não como adversários ou como inimigos.
Senhores Presidentes, o mundo é uma herança que recebemos dos nossos antepassados, mas é também um empréstimo dos nossos filhos: filhos que estão cansados e desfalecidos pelos conflitos e desejosos de alcançar a aurora da paz; filhos que nos pedem para derrubar os muros da inimizade e percorrer a estrada do diálogo e da paz a fim de que triunfem o amor e a amizade.
Muitos, demasiados destes filhos caíram vítimas inocentes da guerra e da violência, plantas arrancadas em pleno vigor. É nosso dever fazer com que o seu sacrifício não seja em vão. A sua memória infunda em nós a coragem da paz, a força de perseverar no diálogo a todo o custo, a paciência de tecer dia após dia a trama cada vez mais robusta de uma convivência respeitosa e pacífica, para a glória de Deus e o bem de todos.
Para fazer a paz é preciso coragem, muita mais do que para fazer a guerra. É preciso coragem para dizer sim ao encontro e não à briga; sim ao diálogo e não à violência; sim às negociações e não às hostilidades; sim ao respeito dos pactos e não às provocações; sim à sinceridade e não à duplicidade. Para tudo isto, é preciso coragem, grande força de ânimo.
A história ensina-nos que as nossas meras forças não bastam. Já mais de uma vez estivemos perto da paz, mas o maligno, com diversos meios, conseguiu impedi-la. Por isso estamos aqui, porque sabemos e acreditamos que necessitamos da ajuda de Deus.
Não renunciamos às nossas responsabilidades, mas invocamos a Deus como acto de suprema responsabilidade perante as nossas consciências e diante dos nossos povos. Ouvimos uma chamada e devemos responder: a chamada a romper a espiral do ódio e da violência, a rompê-la com uma única palavra: «irmão». Mas, para dizer esta palavra, devemos todos levantar os olhos ao Céu e reconhecer-nos filhos de um único Pai.
A Ele, no Espírito de Jesus Cristo, me dirijo, pedindo a intercessão da Virgem Maria, filha da Terra Santa e Mãe nossa:

Senhor Deus de Paz, escutai a nossa súplica! 
Tentámos tantas vezes e durante tantos anos
resolver os nossos conflitos
com as nossas forças 
e também com as nossas armas; 
tantos momentos de hostilidade e escuridão; 
tanto sangue derramado; 
tantas vidas despedaçadas; 
tantas esperanças sepultadas... 
Mas os nossos esforços foram em vão. 
Agora, Senhor, ajudai-nos Vós! 
Dai-nos Vós a paz, ensinai-nos Vós a paz, 
guiai-nos Vós para a paz. 
Abri os nossos olhos e os nossos corações 
e dai-nos a coragem de dizer: 
«nunca mais a guerra»; 
«com a guerra, tudo fica destruído»! 
Infundi em nós a coragem
de realizar gestos concretos 
para construir a paz. 
Senhor, Deus de Abraão e dos Profetas, 
Deus Amor que nos criastes 
e chamais a viver como irmãos, 
dai-nos a força para sermos cada dia
artesãos da paz; 
dai-nos a capacidade de olhar
com benevolência 
todos os irmãos que encontramos
no nosso caminho. Tornai-nos disponíveis 
para ouvir o grito dos nossos cidadãos 
que nos pedem para transformar 
as nossas armas em instrumentos de paz, 
os nossos medos em confiança 
e as nossas tensões em perdão. 
Mantende acesa em nós
a chama da esperança 
para efectuar, com paciente perseverança, 
opções de diálogo e reconciliação, 
para que vença finalmente a paz. 
E que do coração de todo o homem 
sejam banidas estas palavras: 
divisão, ódio, guerra! 
Senhor, desarmai a língua e as mãos, 
renovai os corações e as mentes, 
para que a palavra que nos faz encontrar 
seja sempre “irmão”, 
e o estilo da nossa vida se torne: 
shalom, paz, salam! 
Amen.»

(Papa Francisco na celebração de invocação da paz
na Terra Santa, no Médio Oriente e no mundo, diante do patriarca ecuménico de Constantinopla, Bartolomeu, e dos presidentes
de Israel e da Autoridade Palestiniana, Shimon Peres
e Mahmoud Abbas (Vaticano, 8.6.2014):

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