Arquivo: Edição de 11-10-2013

SECÇÃO: Região

A Propósito de… O Tanque da Torre da Oliveira - 2

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Em artigo que publiquei em Setembro neste jornal, fiz referência ao tanque que se vê desenhado na torre da igreja da Senhora da Oliveira num mapa quinhentista português da vila de Guimarães levado para o Brasil e aí existente.
O mapa mostra que o tanque não apresenta a reentrância que vemos em representações mais recentes, aberta certamente para facilitar o acesso à bica do meio por parte das mulheres que aí iam buscar água: tanque que exibia as armas reais e da vila de Guimarães, hoje guardadas na Sociedade Martins Sarmento.
À falta de notícias em contrário, será de presumir que a esse tanque manuelino se referem as deliberações tomadas a respeito do tanque ou chafariz existente no adro da igreja da Colegiada no ano de 1531. Infelizmente, apenas chegaram até nós as vereações desse ano; se outras não tivessem desaparecido, certamente nelas haveria outras alusões a esse tanque. Sendo assim, contentemo-nos com as deliberações tomadas em 1531:
Consta que, a 31 de Março desse ano, os nossos edis “acordaram que nenhuma pessoa lave nas fontes e chafarizes da Vila e arrabaldes e em todas as fontes de que a Vila se serve pague cada vez que lavar hortaliça ou roupa ou couros ou outra qualquer coisa por cada vez duzentos e quarenta réis para o coimeiro e o mandaram apregoar…” (“Livro dos Acordos da Nobre e Sempre Leal Vila de Guimarães no ano de mil quinhentos e trinta e um anos”, transcrição de João Lopes de FARIA na Revista de Guimarães nº 107 (1997), pág. 51). Desta decisão deduz-se que a Câmara via com maus olhos que o povo usasse como lavadouro o tanque da Oliveira e os demais existentes na vila.
E, logo a 21 de Julho, mandaram apregoar nova resolução segundo a qual “qualquer pessoa que se meter no chafariz da praça a nadar ou a outra coisa e que quem quer que lavar dentro dele nenhuma coisa pague de cada vez vinte réis e da pertiga sendo pessoa para isso e o rendeiro que não o executar pagará duzentos e quarenta réis nem na bica de fora tão pouco sob a dita pena e foi apregoado por Pero Alvares, pregoeiro”.
Note-se que, se a primeira deliberação não menciona explicitamente o tanque da Oliveira, a segunda, ao falar do “chafariz da praça” refere-se, evidentemente, a esse tanque. Parece, pois, que o povo gostava de nadar no tanque e nele lavava outros artigos além dos referidos na deliberação de 31 de Março. Estipulou a câmara a respetiva coima para os infratores, prevendo-se agora o seu encarceramento na prisão do castelo (“pértiga”), “sendo pessoa para isso”, isto é, não tendo estatuto social que dessa pena o isentasse.
No século XVII há muitos mais livros de Vereações, assim, encontramos mais referências ao chafariz da Praça, castigando em 22 de Junho de 1605 quem se aproveitar da água para as suas hortas e campos ou nele lavasse “sangue, hortaliça, panos, nem outra cousa, com pena de 2$000 rs.”; em 21 de Março de 1628, proibindo a lavagem de roupa; e em 31 de Julho de 1632, estendendo a proibição a quem nele trouxesse gansos (Alberto Vieira BRAGA – Administração seiscentista do Município Vimaranense, Guimarães, 1953, págs. 130, 156 e 159).
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Às vezes encontramos aqui e além efemérides que lançam uma centelha de luz na história do nosso tanque. Assim, na visitação que o Arcebispo de Braga, D. Sebastião de Matos, fez à igreja da Colegiada no dia 27 de Abril de 1637 deixou escrito o seguinte capítulo: “… mandamos sob pena de excomunhão maior que nenhuma pessoa eclesiástica nem secular, fale das janelas da mesma capela dos Pinheiros para fora, nem converse com as pessoas que estiverem no terreiro, ou no adro, nem com as que forem buscar água ao chafariz, pela decência do lugar e pelos inconvenientes que o contrário resulta…” (João Lopes de FARIA - Velharias da Colegiada, vol. VIII, fl. 62v). E na visitação do D. Prior feita a 19 de Setembro de 1661, ficou registado: “Fomos informados que a Capela dos Pinheiros estava sempre aberta, e os criados dos Reverendos Cónegos e outras pessoas entram nela a jogar e falar para a praça com as mulheres que vem ao tanque, e fazem outras cousas indecentes no lugar sagrado…” (Idem, pág. 84).
É então que aparecem as primeiras descrições detalhadas desse tanque. Mas o tanque já não era o mesmo… como se verá.

6 de Outubro de 2013
Fernando José Teixeira

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