Arquivo: Edição de 28-06-2013

SECÇÃO: Região

Elevação da Vila de Guimarães a Cidade

Celebrou-se com pompa e circunstância, na passada semana, os 160 anos da passagem da Vila de Guimarães e dessa efeméride resta uma rica exposição que estará à disposição dos interessados no Tribunal da Relação de Guimarães, na rua da Rainha D. Maria II, até ao dia 22 de setembro do corrente ano.
Façamos aqui um rápido bosquejo biográfico da nossa rainha. A Princesa D. Maria da Glória subiu ao trono de Portugal com o nome de D. Maria II, em 1834, por morte de seu pai, D. Pedro IV. Tinha apenas 15 anos de idade.
O seu reinado de 19 anos foi muito acidentado, ensombrado por numerosas revoluções, pronunciamentos militares e rebeliões populares que puseram à prova a sua tenacidade e sangue-frio.
O “Dicionário de História de Portugal”, dirigido por Joel Serrão (livro IV, págs. 180-181) termina assim o seu retrato:
“De grande coragem, nunca vacilou perante as revoluções e manteve sempre bem alto as prerrogativas da coroa e a defesa da Constituição, que ela acatava e compreendia como poucos. A sua dignidade e a sua firme e séria maneira de encarar o novo sistema levavam-na a arriscar tudo para que o regime constitucional medrasse no País. Teve, ao mesmo tempo – e não deve esquecer-se isto – de ser o “bode expiatório” de medidas impopulares que os seus ministérios tomaram, medidas de progresso dadas a um povo retrógrado. Deve ter-se em mente que D. Maria II atravessa este agitadíssimo período da história de Portugal numa idade jovem e quase sempre grávida, aguardando o nascimento de um próximo filho. Morreu no parto do 11º filho, nado-morto, deixando como herança a consolidação de um sistema que tanto ajudara a estabelecer e os prenúncios de uma paz interna que iriam dar a Portugal meio século de progresso e de riqueza mental inigualáveis”.
Do que se disse e ouviu na cerimónia de inauguração da exposição bastará reter o que se lê no texto da carta régia que outorgou a Guimarães o título de Cidade, documento que se encontra guardado com particular carinho no nosso Arquivo Municipal de Alfredo Pimenta.
Com a ortografia da época, reza assim o documento:
“Dona Maria, por Graça de Deos, Rainha de Portugal e dos Algarves & Faço saber aos que esta Minha Carta virem que, Tendo consideração ao que pelo Ministro e Secretario d’Estado dos Negocios do Reino Me foi exposto acerca da antiquíssima Villa de Guimarães; Attendendo a haver ella sido o berço da Monarchia, e assento da primeira Corte dos Reis Portuguezes, onde nasceo e foi baptisado o poderoso Dom Affonso Henriques; Attendendo a que a mesma Villa desfructa a primazia de ser uma das mais populosas da provincia do Minho, e a mais florescente em diversos ramos da industria, à qual são devidas a sua opulência e prosperidade, e as suas relações commerciaes dentro e fóra do Paiz; Attendendo a que a famosa Villa de Guimarães, sempre honrada por Meus Augustos Predecessores com especiaes privilégios, possue as condições e elementos necessários para sustentar a dignidade e categoria de Cidade; Por todas estas circunstancias, e Querendo Eu também dar, aos habitantes de tão nobre Povoação, um testemunho authentico do distincto Aprêço em que tenho a sua honrada e habitual dedicação à cultura das artes e trabalhos uteis, por Mim presenciados na ocasião da Minha visita às províncias do norte: Hei por bem Elevar a Villa de Guimarães á categoria de Cidade com a denominação de Cidade de Guimarães, e Me praz que nesta qualidade goze de todas as prerrogativas, liberdades e franquezas que direitamente lhe pertencem. Pelo que Mando a todos os Tribunaes, Auctoridades, Officiaes e mais pessoas a quem esta Minha Carta fôr mostrada, que indo assignada por Mim, referendada pelo Ministro e Secretario d’Estado dos Negocios do Reino, e sellada com o sêllo pendente das Armas Reaes, hajam a sobredita Villa por Cidade, e assim a nomeiem sem duvida ou embargo algum […] Dada no Paço das Necessidades em vinte e dois de Junho de mil oitocentos e cincoenta e trez. A Rainha”.
Parabéns a quem teve a iniciativa destas comemorações – Guimarães ficou um pouco mais rica e provou que ainda há entre nós gente agradecida.
 
24 de Junho de 2013
Fernando José Treixeira

Email do Jornal: jornal@oconquistador.com
Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.
Dom DigitalProduzido por ardina.com,
um produto da Dom Digital.