Arquivo: Edição de 12-04-2013

SECÇÃO: Generalidades

COISAS SIMPLES, OU NÃO! (26)

TEMPO DO MEU TEMPO

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Sempre afirmaram os teóricos e os práticos que o presente deve ser construído com base no passado e visando o futuro. Acredito que esta norma de vida tenha filosofia, sociologia, inteligência, realismo. Acredito também, hoje não existirem tantas preocupações dessas. O mundo não tem tempo para pensar, programar: corre demasiado e a meta cada vez parece mais distante. Tudo muda vertiginosamente e as pessoas também: formas de “ser”, de “estar”, de “atuar” e de analisar a vida e as atitudes.
Por isso me interrogo do porquê de ausência de faltas de educação, de civismo, de carácter, de sentimentos nobres, de sensibilidade e hoje muito se falha. Até quando se desvia uma pedra do caminho riem da ação!
Vê-se ambientes stressantes, palcos e praças de guerra, conflitos, canteiros de ansiedade. Estamos no auge das doenças de foro psicológico e da necessidade absoluta da ida aos confessionários do catolicismo.
Não me sinto ultrapassado ou velho, mas pelo que vivi, penso conhecer a realidade atual, isto é, a forma como sente o homem deste século.
Sou do tempo em que só mulheres usavam brincos e os porcos piercings, para não destruírem as hortas; Sou do tempo em que muitos homens usavam chapéu e tinha (também) a intenção de dar a saber: “eu tenho palavra, uso chapéu”; Sou do tempo em que os Domingos queriam dizer: “hoje é dia de Missa, da reza do Terço à tarde” e de recolher a casa ao toque das Trindades; Sou do tempo do xarope Benzodiacol e das cataplasmas de linhaça no peito; Sou do tempo em que rapaz só casava com rapariga e de nunca se ouvir a palavra gay; Sou do tempo dos tostões, das cinco “croas” e dos vinte paus; Sou do tempo dos confeitos apanhados do chão no fim dos batizados e do óleo de fígado de bacalhau; Sou do tempo do perfume Realce, vendido por medida, das calças “manga de casaco” e das calças “à boca- de sino; Sou do tempo da brilhantina, dos telegramas e da Emissora Nacional; Sou do tempo do Cantinflas, do rin-tin-tin e do pirlimpimpim; Sou do tempo dos contos da Carochinha, do tempo das portas abertas ou só com trinco - mesmo de noite - e do tempo em que às duas ou três da madrugada se passeava (seguro), pelos caminhos ou ruas da cidade; Sou do tempo em que sentado no café, no restaurante ou na rua, não se diziam palavrões diante de uma senhora; Sou do tempo em que se pai e mãe dissessem algo ou dessem uma ordem, cumpria-se alegremente ou não, sem nunca questionar; Sou do tempo da pena com aparo que se molhava no tinteiro, dos deveres escolares limpos e bem- feitos - a tempo e horas - e de não contestar a qualidade ou a quantidade das refeições postas na mesa.
Enfim, sou dum tempo que não volta mais e, se pretendesse ensinar hoje o “modus vivendi” do meu tempo, chamar-me-iam ditador, velho desatualizado e diziam: “vai-te encher de moscas, ó finório”!
Eis por que o homem sensato, entre outras boas atitudes, também tem de ser sábio: como, quando e onde deve agir, e saber o que nunca deve dizer ou impor.
Assim, não vou nunca desistir do tempo de hoje, até porque ainda tenho muitas meias-solas para romper. Mas tijolo a tijolo, irei procurar construir o edifício e o ambiente cristão que devo, tendo em conta que o teimoso ou o intolerante nunca conseguirá ser admitido ou elevado.

Por: Artur Soares
(soaresas@sapo.pt)

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