Arquivo: Edição de 22-03-2013

SECÇÃO: Informação Religiosa

Uma surpresa de Deus vinda dos confins do mundo

A primeira aparição pública do novo Papa, Francisco, fez-me recordar uma exortação que São Francisco de Assis teria dirigido a um grupo de franciscanos enviados em missão para o Médio Oriente: «Falai sempre de Cristo e, se necessário, usai palavras». Deste modo, São Francisco queria sublinhar a importância que as atitudes dos missionários têm no anúncio do Evangelho. As primeiras palavras do Papa à multidão presente na Praça de São Pedro apontam para elementos fundamentais da vida cristã. Mas, os gestos e as atitudes que as acompanharam deram-lhes um selo de autenticidade que a todos comoveu. Ainda sob o impacto da eleição, gostaria de salientar alguns gestos do novo Papa onde já podemos antever caminhos de renovação da Igreja.
Em primeiro lugar, a escolha do nome. «Francisco» é todo um programa de vida e de missão, de serviço e de proximidade. Do santo de Assis, o cardeal Bergoglio já escolhera a via da simplicidade e da pobreza, de uma Igreja humilde e próxima dos pobres. Francisco de Assis é também «o homem da paz, o homem que ama e preserva a criação». No outro Francisco, o de Xavier e jesuíta como ele, decerto encontra um testemunho apaixonado pela missão.
Depois da saudação inicial, familiar e íntima, «Irmãos e irmãs, boa noite!», o Papa apresenta-se simplesmente como bispo de Roma. E repete esta ideia várias vezes ao longo da sua alocução, usando a imagem do caminho que juntos estão iniciando, o bispo de Roma e a igreja de Roma. Em apenas duas frases, dá-nos uma grande lição de eclesiologia, onde o ministério petrino é devolvido à sua fonte e à sua missão primeira: presidir a todas as Igrejas na caridade. A menção especial à colaboração e ajuda do seu cardeal vigário, presente ao seu lado, remete para a colegialidade episcopal como um «caminho de fraternidade, de amor, de confiança» entre todos os membros da Igreja.
Na sua primeira intervenção pública, o Papa Francisco não esqueceu o seu antecessor, Bento XVI. Mas fê-lo de uma forma original. Em vez de tecer considerações laudatórias – que seriam sinceras e apropriadas – prefere rezar por ele. E assim, vemos o bispo de Roma e a multidão a recitar as orações mais simples e populares, com profunda devoção, implorando a bênção de Deus e a proteção de Nossa Senhora para o papa emérito.
Mas a grande surpresa ainda estava para vir. Antes de dar a sua primeira bênção, o Papa Francisco pede um favor ao povo presente na praça: «Antes de o bispo abençoar o povo, peço-vos que rezeis ao Senhor para que me abençoe a mim; é a oração do povo, pedindo a bênção para o seu bispo». E, inclina-se como um peregrino prestes a iniciar o caminho ou como uma criança que pede a bênção ao pai e à mãe. Talvez nunca antes fora presenciado tal gesto na Praça de São Pedro: uma multidão orante e em silêncio pedindo a bênção de Deus para o seu pastor.
O amor dos católicos pelo Papa deve traduzir-se em gestos que ajudem a aliviar o peso que está sobre os seus ombros. Em primeiro lugar, o amor ao Papa exprime-se através da oração. Depois, deve ser visível no modo como assumimos as nossas responsabilidades enquanto cristãos: procurando ser fiéis a Cristo, levando uma vida mais simples e solidária, promovendo o diálogo dentro e fora da Igreja, construindo comunidades cristãs acolhedoras e fraternas, dando um lugar privilegiado aos pobres na nossa ação pastoral. No nome que escolheu e nos gestos já conhecidos, o cardeal Bergoglio sugere-nos um caminho de renovação pessoal e eclesial. Deste modo, sempre que assumimos as nossas responsabilidades à luz da fé, estamos a contribuir para que, e citando o Papa Francisco, «haja uma grande fraternidade» no mundo.
 
P. José Antunes da Silva, SVD

Queria pedir, por favor, a quantos ocupam cargos de responsabilidade em âmbito económico, político ou social, a todos os homens e mulheres de boa vontade: sejamos «guardiões» da criação, do desígnio de Deus inscrito na natureza, guardiões do outro, do ambiente; não deixemos que sinais de destruição e morte acompanhem o caminho deste nosso mundo! Mas, para «guardar», devemos também cuidar de nós mesmos. Lembremo-nos de que o ódio, a inveja, o orgulho sujam a vida; então guardar quer dizer vigiar sobre os nossos sentimentos, o nosso coração, porque é dele que saem as boas intenções e as más: aquelas que edificam e as que destroem. Não devemos ter medo de bondade, ou mesmo de ternura.

(Papa Francisco: excerto da homilia na missa de início do ministério petrino do bispo de Roma, 19.03.2013)

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