Arquivo: Edição de 08-03-2013

SECÇÃO: Informação Religiosa

QUARESMA

Rosto da Misericórdia e do Perdão

Na sua componente natural de ser contingente e perfectível, o homem sente a necessidade e o dever de resistir à tentação de sobreposição do ter ao ser, em conformidade com os imperativos da própria consciência. E do bom sucesso desta luta constante e sem tréguas é que se afirma e exprime o homem criado à imagem e semelhança de Deus, que na plenitude dos tempos, veio libertá-lo das trevas e da escravidão do pecado pelo mistério de Jesus Cristo, Salvador e Redentor.
No exercício da liberdade, os homens vão construindo os diversos cenários do mundo em que têm de viver, batidos sempre pelas forças do Bem e do Mal. Este todo, que é a sociedade, melhor ou pior articulada e organizada, não destrói a individualidade e singularidade de cada um e, deste modo, é sempre possível usar e aplicar as mais belas e expressivas atitudes de amor.
No dia-a-dia das instituições e coletividades não cessam os atos públicos de reconhecimento a diversas personalidades pelos gestos de altruísmo e solidariedade. Todavia é no reconhecimento da capacidade de compreensão e entrega ao outro e ainda nas atitudes de esquecimento de si próprio para compreender as ofensas e ingratidões, que é possível fazer brilhar o mais nobre da grandeza humana. Misericórdia e perdão são atitudes sem a coexistência dos quais o mais elevado caudal de adjetivos corre o risco de ter um significado banal.
Tendo em vista a riqueza espiritual do tempo da Quaresma, toda a força e dinamismo para alimentar aqueles sentimentos vem da Palavra de Deus. E é neste tempo litúrgico que mais transparece a essência da Palavra: o Verbo de Deus, Filho Unigénito do Pai, Palavra encarnada, que sofreu, morreu e ressuscitou para nos salvar.
Na parábola do filho pródigo e do encontro com a mulher adúltera, quadros de reflexão propostos para estes domingos mais próximos, contemplam-se dois dos muitos exemplos apresentados por Jesus Cristo.
No primeiro, Ele retrata-se na pessoa do pai que, respeitando a liberdade do filho mais novo, reparte a fortuna que lhe toca e o vê partir unicamente movido pela ânsia de gozo dos prazeres da vida. Mas o seu coração ficou amargurado pela tristeza e do pressentimento de que as coisas iam correr mal. E esperou pelo regresso daquele filho, não numa atitude passiva a pensar ou a ver como as coisas aconteceriam, mas ansiosamente a aguardar a hora do reencontro. E, por isso, “ainda ele estava longe quando o pai o viu: encheu-se de compaixão e correu a lançar-se-lhe ao pescoço, cobrindo-o de beijos”. Acolhe, é certo, a confissão do filho mas instantaneamente todas as atenções vão para a festa em grande que deveria assinalar a alegria da chegada. Esta parábola vem complementar, aliás, a do Bom Pastor que vai ao encontro da ovelha perdida e que assegura que há mais alegria no céu por um pecador que se arrepende do que por noventa e nove justos que não precisam de penitência.
No episódio da mulher adúltera, é Ele próprio que se vê confrontado pelos zeladores da lei que lhe apresentam uma mulher feita objeto desprezível porque foi surpreendida em pecado. Desta vez, Jesus estava no templo a ensinar rodeado de muito povo que acorreu para o escutar. No ódio rancoroso dos escribas e fariseus estava em jogo a credibilidade de Jesus, cuja bondade e misericórdia era transparente e posta mesmo como sinal do Reino.
“Quem entre vós estiver sem pecado atire a primeira pedra” foi a resposta imediata de Jesus à maldade e hipocrisia dos acusadores e por isso foram-se retirando a começar pelos mais velhos. “Vai e não tornes a pecar” foi a palavra de alívio e consolação que transformou o protagonismo daquela mulher: da condição de desprezível passou à expressão contagiante do amor com que Jesus a todos persegue.
Estas duas passagens do Evangelho, verdadeiramente pragmáticas, são apelos que se propõem aos crentes como convite indeclinável, sobretudo neste tempo litúrgico, para os encontros que acontecerão de certeza, se houver, da parte de cada um, propósito de regresso, na humildade e sinceridade de coração.

Lima de Carvalho

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