Arquivo: Edição de 21-12-2012

SECÇÃO: Generalidades

Natal em tempos de crise

Nos últimos tempos, temos andado rabugentos, impacientes e indispostos com os outros e connosco próprios: afinamos por tudo e por nada, mandando às urtigas a tradicional hospitalidade lusitana. E desculpamo-nos com a crise, uma crise que, afinal, não atinge todos do mesmo modo – é ver o dinheiro que continuamos a gastar nas prendas natalícias que oferecemos aos outros e a nós próprios.
Na minha meninice, - era tempo de guerra, com muitos a comer e um só a ganhar -, as prendas do Menino Jesus cabiam bem no sapatinho que colocávamos na chaminé: umas libras de chocolate, umas pequeninas tabletes quadrangulares envolvidas em folhas de alumínio, tão pequeninos esses chocolates que cabiam à vontade na palma da nossa mão! Mas a prenda maior era um automóvel de lata ou um brinquedo comprado nas Gualterianas e escondido durante meses para ser oferecido nesta altura. A somar aos brinquedos e às guloseimas havia sempre uma prenda utilitária: umas peúgas de lã ou uma camisola de malha que iriam proteger-nos do frio nesses invernos que sempre nos pareceram mais agrestes do que os invernos de agora.
Hoje, nos hipermercados e nas lojas de electrodomésticos, ninguém descobre a crise nas multidões que se acotovelam para aproveitar as promoções. E vemos o nosso povo, feliz, (quem diria?) carregando para os carros embrulhos com televisores, gravadores, computadores, telemóveis de topo de gama e brinquedos de todos os tamanhos, cores e feitios. Deixaram nas lojas muitos euros, é certo, mas filosoficamente encolhem os ombros: é melhor gastá-los em proveito próprio do que reservá-los para serem levados pelos impostos. E, consolados por essa doce ilusão, sorriem felizes.
Mas é um sorriso que se apaga logo ao sair das lojas, ao ler nos jornais dos quiosques ou ao observar na televisão os senhores da Troika que chegam, o rosto anafado da senhora Merkel distribuindo beijinhos aos primeiros-ministros que a visitam, tudo isto misturado com notícias mil de assaltos a Multibancos, de violências que se assanham contra velhos indefesos e que nada têm além da sua pobreza e da sua velhice, de reportagens sobre os escandalosos balúrdios que se desperdiçam com obras públicas sumptuárias que, depois da efémera fama da sua inauguração, para pouco ou nada servem por falta de dinheiro que assegure a sua manutenção. E são também as notícias de julgamentos infindáveis que terminam sem justiça, de agentes da autoridade acusados de crimes, de violências que transformam os estádios em recintos de alto risco, dos milhões de euros que se pagam a uns poucos de privilegiados, (futebolistas e não só), das leis que se promulgam minadas por excepções vergonhosas que só se toleram em países como o nosso onde todos somos iguais mas onde uns são mais iguais do que outros!

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Não surpreende, pois, que nos sintamos avinagrados e intolerantes.
Há dias, ouvi no café alguém que dizia que o Papa estava a dar cabo da religião ao dizer que Jesus Cristo não nasceu no dia de Natal e que no presépio não havia nem a vaca nem o burrinho! Ora, o Papa nada disse que fosse novidade. Se os nossos cristãos tivessem um mínimo de cultura religiosa saberiam que não consta do Evangelho que Cristo tenha nascido no dia 25 de Dezembro. Essa data era, aliás, pouco provável porque em Belém e em Dezembro os anjos que anunciaram o nascimento de Jesus não encontrariam nos campos os pastores citados no texto sagrado: habitualmente, os rebanhos só saíam para os campos na Primavera e no Outono.
Assim, como ninguém sabia o dia exacto do seu nascimento, a Igreja escolheu o dia 25 de Dezembro para a festa do nascimento de Jesus. E não fez essa escolha de ânimo leve: nesse dia, celebravam os Romanos a festa do deus-Sol, divindade que haviam importado de outros povos pagãos. Por outras palavras: a Igreja apropriou-se dessa festa para que nela se celebrasse o nascimento de outro sol, Cristo Jesus, o “sol da justiça” referido pelo profeta Malaquias (4, 2): “Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça”.
Não sabemos de ciência certa em que dia Ele nasceu e, mais do que isso, nem sequer sabemos o ano em que incarnou e veio viver no meio de nós. Quando alguém quis que o tempo se dividisse em duas eras – antes de Cristo e depois de Cristo – porque não constava do Evangelho o ano do seu nascimento, calculou uma data… e errou.
Sabemos, porque o Evangelho o diz, que Cristo nasceu antes do falecimento de Herodes, o Grande, e sabemos que Herodes morreu no ano 4 antes de Cristo. Por isso, podemos dar por certo que Jesus nasceu em Belém quatro anos antes da data fixada para a separação das duas eras. Se quiséssemos fazer ironia, diríamos que “Cristo nasceu no ano 4 antes de Cristo, ou antes”!
Mas também sabemos que o nascimento de Cristo verificou-se na altura em que os Judeus faziam em Belém um recenseamento imposto pelos Romanos. Esse recenseamento deveria realizar-se em todo o império no quarto ano antes da morte de Herodes (ano 8 a. C.), mas como os Judeus puseram obstáculos à sua realização, o seu recenseamento realizou-se no oitavo mês do ano seguinte, ou seja, em Agosto do ano 7 a. C.. Jesus Cristo nasceu no decurso desse recenseamento.
Há outros factos que também ajudam a precisar a data exata do seu nascimento.
De acordo com o Evangelho de S. Lucas (2, 22), “quando se completaram os dias para a purificação deles, segundo a lei de Moisés”, levaram o Menino Jesus a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor. A Lei de Moisés estipulava que essa purificação deveria ter lugar num sábado 40 dias depois do parto (Levítico, 12, 2-4). Como o nascimento de Jesus ocorreu durante o recenseamento e este realizou-se em Belém entre 10 e 24 de Agosto, se contarmos os 40 dias a partir dessas datas, teremos que a apresentação de Jesus no Templo verificou-se entre 19 de Setembro e 3 de Outubro.
Segundo as minhas contas, como a apresentação teve lugar num sábado e nesse período só houve dois sábados (em 25 de Setembro e 2 de Outubro), o nascimento de Jesus ter-se-ia verificado em 16 ou 23 de Agosto do ano 7 antes de Cristo.
Tudo isto é interessante mas não é importante. Importante é o que lemos no início do Evangelho de S. João (1, 9-14) a propósito da Encarnação do Verbo: “O Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo o homem; ele vinha ao mundo; ele estava no mundo e o mundo foi feito por meio dele mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam. Mas a todos os que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus, ele que não foi gerado nem do sangue, nem da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”.

14 de Dezembro de 2012
Fernando José Teixeira

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