Arquivo: Edição de 21-12-2012
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SECÇÃO: Generalidades |
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Natal em tempos de crise Há dias, ouvi no café alguém que dizia que o Papa estava a dar cabo da religião ao dizer que Jesus Cristo não nasceu no dia de Natal e que no presépio não havia nem a vaca nem o burrinho! Ora, o Papa nada disse que fosse novidade. Se os nossos cristãos tivessem um mínimo de cultura religiosa saberiam que não consta do Evangelho que Cristo tenha nascido no dia 25 de Dezembro. Essa data era, aliás, pouco provável porque em Belém e em Dezembro os anjos que anunciaram o nascimento de Jesus não encontrariam nos campos os pastores citados no texto sagrado: habitualmente, os rebanhos só saíam para os campos na Primavera e no Outono. Assim, como ninguém sabia o dia exacto do seu nascimento, a Igreja escolheu o dia 25 de Dezembro para a festa do nascimento de Jesus. E não fez essa escolha de ânimo leve: nesse dia, celebravam os Romanos a festa do deus-Sol, divindade que haviam importado de outros povos pagãos. Por outras palavras: a Igreja apropriou-se dessa festa para que nela se celebrasse o nascimento de outro sol, Cristo Jesus, o “sol da justiça” referido pelo profeta Malaquias (4, 2): “Mas para vós, os que temeis o meu nome, nascerá o sol da justiça”. Não sabemos de ciência certa em que dia Ele nasceu e, mais do que isso, nem sequer sabemos o ano em que incarnou e veio viver no meio de nós. Quando alguém quis que o tempo se dividisse em duas eras – antes de Cristo e depois de Cristo – porque não constava do Evangelho o ano do seu nascimento, calculou uma data… e errou. Sabemos, porque o Evangelho o diz, que Cristo nasceu antes do falecimento de Herodes, o Grande, e sabemos que Herodes morreu no ano 4 antes de Cristo. Por isso, podemos dar por certo que Jesus nasceu em Belém quatro anos antes da data fixada para a separação das duas eras. Se quiséssemos fazer ironia, diríamos que “Cristo nasceu no ano 4 antes de Cristo, ou antes”! Mas também sabemos que o nascimento de Cristo verificou-se na altura em que os Judeus faziam em Belém um recenseamento imposto pelos Romanos. Esse recenseamento deveria realizar-se em todo o império no quarto ano antes da morte de Herodes (ano 8 a. C.), mas como os Judeus puseram obstáculos à sua realização, o seu recenseamento realizou-se no oitavo mês do ano seguinte, ou seja, em Agosto do ano 7 a. C.. Jesus Cristo nasceu no decurso desse recenseamento. Há outros factos que também ajudam a precisar a data exata do seu nascimento. De acordo com o Evangelho de S. Lucas (2, 22), “quando se completaram os dias para a purificação deles, segundo a lei de Moisés”, levaram o Menino Jesus a Jerusalém para o apresentarem ao Senhor. A Lei de Moisés estipulava que essa purificação deveria ter lugar num sábado 40 dias depois do parto (Levítico, 12, 2-4). Como o nascimento de Jesus ocorreu durante o recenseamento e este realizou-se em Belém entre 10 e 24 de Agosto, se contarmos os 40 dias a partir dessas datas, teremos que a apresentação de Jesus no Templo verificou-se entre 19 de Setembro e 3 de Outubro. Segundo as minhas contas, como a apresentação teve lugar num sábado e nesse período só houve dois sábados (em 25 de Setembro e 2 de Outubro), o nascimento de Jesus ter-se-ia verificado em 16 ou 23 de Agosto do ano 7 antes de Cristo. Tudo isto é interessante mas não é importante. Importante é o que lemos no início do Evangelho de S. João (1, 9-14) a propósito da Encarnação do Verbo: “O Verbo era a luz verdadeira que ilumina todo o homem; ele vinha ao mundo; ele estava no mundo e o mundo foi feito por meio dele mas o mundo não o reconheceu. Veio para o que era seu e os seus não o receberam. Mas a todos os que o receberam deu o poder de se tornarem filhos de Deus, ele que não foi gerado nem do sangue, nem da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo se fez carne e habitou entre nós”. 14 de Dezembro de 2012 Fernando José Teixeira |
