Arquivo: Edição de 14-09-2012

SECÇÃO: Generalidades

Pastoral para os tempos que correm

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Afadigam-se os nossos Bispos a procurar novos esquemas pastorais que minimizem a falta de vocações sacerdotais. Sem entrar na apreciação dos esquemas adoptados, julgo que deverá ser equacionada com urgência a questão dos “professores de Moral”, actividade que absorve grande parte do tempo dos nossos sacerdotes. E lembrei-me de incluir aqui um texto que escrevi em 8 de Junho de 1998 e foi publicado no “Conquistador” de então, onde se transcrevia o testemunho de um velho padre de aldeia:
“Sempre fui um padre pobre. Oriundo de uma família necessitada, paroquiei primeiro uma comunidade rural tão pobre como eu, depois, com indescritível pesar, fui mandado para uma freguesia dos subúrbios tão pobre como a primeira. Sem bens próprios, vivia exclusivamente da generosidade dos meus fregueses. O óbolo da viúva, de que fala o Evangelho, tem um valor incalculável aos olhos de Deus, mas seguramente não enriquece o pobre do padre que o recebe!...
Os meus irmãos de sacerdócio sempre olharam com piedade a minha velha batina coçada de tantos anos, e um deles, mais velho e mais sábio, chegou mesmo a recriminar-me: “Deus não exige que os seus ministros vivam no limiar da miséria. Tu, fazendo ostentação da tua pobreza, deves lembrar-te que a humildade é como a roupa interior das mulheres: nunca deve ver-se, pois quando está à mostra passa a ser quase indecente”…
Olhando à minha volta, vi que quase todos os padres eram mais inteligentes do que eu, já que tinham um decente nível de vida, mesmo quando paroquiavam, como eu, pequenas e pobres comunidades. Não foi difícil descobrir o seu segredo: eram todos professores de Moral, recebendo do Estado uma remuneração que, modesta embora, garantia-lhes uma subsistência relativamente desafogada quando somada aos parcos rendimentos paroquiais. Pensei por isso que seria do meu interesse ser professor como eles. Bem vistas as coisas, o ensino da Moral é uma forma indispensável de catequese.
Mas como todas as moedas têm o seu reverso, receei que para usufruir desse desafogo tivesse algo de importante a sacrificar. Certa noite, pus-me a especular sobre o problema e, não sei se acordado se a sonhar, vi-me a observar alguns dos párocos vizinhos que acumulavam com as funções de professores de Moral. Aos poucos, comecei a sentir pena deles vendo como se sentiam constrangidos ao procurar conciliar a docência e a preparação das lições com as exigências pastorais do rebanho que Cristo lhes tinha confiado.
Apercebi-me que se enveredasse pelo mesmo caminho teria de reduzir drasticamente a minha disponibilidade para com os paroquianos, teria de estabelecer um restritivo horário de funcionamento para o cartório paroquial, teria de limitar ou mesmo suprimir a maior parte dos contactos informais com o meu povo, teria de reduzir ou delegar a minha assistência espiritual aos movimentos apostólicos da paróquia, seria forçado a seleccionar drasticamente as minhas leituras, teria de suprimir auqelas pequenas coisas com que ocupamos os tempos livres e que dão um certo sabor à existência: ler um livro, ver um ou outro programa de televisão. E tudo isto apenas e só para usufruir de um vencimento que me garantia um relativo desafogo financeiro, já que o êxito catequético das aulas de Moral – que me perdoem se estou errado - sempre me pareceu muito duvidoso. Quando acordei, a decisão estava tomada: não seria professor de Moral.
Passados uns tempos, o senhor Bispo Auxiliar perguntou-me se estava satisfeito com a minha resolução. Respondi-lhe convictamente que sim. E expliquei-lhe que me sentia livre como um passarinho: tinha o prazer de levar, eu próprio, todos os dias, a Sagrada Comunhão aos doentes que não podiam recebê-la na Missa, (e que palavras maravilhosas ouvi da boca de muitos que no leito da dor, sabendo que iam morrer, exprimiam a sua alegria, o conforto e a esperança da ressurreição final prometida pelo Grande Amigo, pelo Amigo sempre presente que todos os dias recebiam discretamente no seu leito).
E tinha o gosto de andar pelos campos dando dois dedos de conversa com os meus paroquianos que se afadigavam nas sementeiras, nas mondas, nas colheitas, de mãos calejadas, de socos enlameados, de camisas suadas; aqueles mesmos paroquianos que uma vez por outra encontrava no confessionário e a quem, depois de ouvir as suas faltas, impunha uma leve penitência, porque penitência, e pesada, já eles tinham todos os dias bem desproporcionada em relação aos seus pecados. Deus, que tem uma contabilidade muito sofisticada, lança certamente a crédito tal sofrimento que será levado em linha de conta no dia do Juízo.
Mantive a minha convivência diária com as crianças da Catequese que conhecia, uma por uma, a quem chamava pelo nome, crianças que um dia, já adolescentes, me escolherão por confidente, procurando de mim o conselho que às vezes não se atrevem a pedir aos pais.
Continuei a conviver com aqueles que não encontro na Missa do Domingo: talvez eles não acreditem em Deus, mas Deus seguramente acredita neles.
Como não tenho de dar aulas, o cartório paroquial não tem horário de abertura e de encerramento como uma repartição do Estado, em que o chefe chega atrasado, assina apressadamente o expediente e num ápice desaparece: o tempo chega bem para que eu faça, e sem pressas, o que é de minha obrigação, não precisando de ser substituído por leigos para acompanhar ao cemitério os irmãos falecidos, presidir à Via-Sacra, ao Mês de Maria, à reza do terço e a outras devoções. E até me permite, sem me submeter à tirania do relógio, ir a casa do Senhor Manuel da Estrada para estar ao seu lado e dar um abraço de boas-vindas ao seu filho mais velho, emigrante no Canadá, que acaba de chegar; ou ir ao hospital ver um paroquiano que caiu de um andaime ou que foi operado de urgência ao colo do fémur.
E tenho tempo para passar pelo adro e jogar a bola com os rapazes que regressam da escola, e para aceitar o convite de paroquianos para com eles partilhar as bodas dos seus filhos, já que a solidariedade cristã tanto se manifesta nos momentos de luto e dor como nas horas de júbilo e alegria.
Finalmente, tenho tempo para fazer ao fim do dia, sem pressas e de coração contrito, o meu exame de consciência, para ver onde falhei, pedir a Deus perdão e dormir em paz.
O Senhor Bispo Auxiliar suspirou, deu-me uma palmada no ombro e respondeu-me com uma pontinha de inveja: “Como eu gostaria de dispor assim das vinte e quatro horas que Deus me deu em cada dia!... Se se lembrar, reze por mim que, sendo Pastor de um grande rebanho, passo semanas sem ter oportunidade de falar com uma sequer das minhas ovelhas!...”
Hoje, os meus colegas já concluíram que sou um caso perdido; sabem que nunca serei, como eles, um professor de Moral. Alguns certamente compreenderam e aceitaram a minha pobreza voluntária ao topar com aquelas palavras de Jesus: “Não vos preocupeis quanto à vossa vida com o que haveis de comer ou de beber, nem, quanto ao vosso corpo, com o que haveis de vestir. Não é a vida mais do que o alimento e o corpo mais do que o vestuário? Olhai para as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; o vosso Pai as sustenta. Não valeis vós muito mais do que elas? Procurai primeiro o Reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo”.
Como Maria, irmã de Lázaro, talvez eu - sem me aperceber - tenha escolhido a melhor parte”.

1 de Agosto de 2012
Fernando José Teixeira

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