Arquivo: Edição de 14-09-2012

SECÇÃO: Região

O pelote e as cerimónias religiosas do 14 de Agosto

Redigido por Alves Pinto e recolhido em diversas fontes históricas

Guimarães, berço de Portugal (“Aqui Nasceu Portugal”), guarda no seu património um conjunto de memórias pátrias que evidenciam uma indomável vontade de afirmação independente, de emancipação, de resistência e insubmissão a poderes estranhos, de querer ser uma individualidade com raça, com carácter, com arrojo, com abertura à vida e ao mundo. Esses são valores genéticos do povo português, dos quais nos devemos recordar e orgulhar, sobretudo em momentos de angústia e de sofrimento.
D. João I, a exemplo de outros monarcas portugueses, tinha um apreço e uma devoção muito profundos relativamente a Nossa Senhora da Oliveira, Nossa Senhora de Guimarães.
O pelote, que é tudo quanto resta de um laudel que D. João I usou na batalha de Aljubarrota e que veio oferecer à Senhora da Oliveira como prova de reconhecimento pelas graças obtidas durante a batalha, é um símbolo vivo e refrescante do arreganho e do fervor com que se lutou pela independência e dignidade nacionais. Em Guimarães, D. João I percorreu descalço o caminho que liga o Padrão de S. Lázaro à Igreja da Oliveira, para oferecer à Senhora da Oliveira o pelote, um altar em prata dourada e esmaltada e um cordão de ouro do tamanho de uma milha.
De referir que o pelote é uma parte (interior) do laudel (ou loudel), peça de vestuário acolchoada que se usava sob a armadura para evitar ou amortecer os golpes que se dirigissem ao corpo dos combatentes. De então para cá, no dia 14 de agosto de cada ano, celebra-se em Guimarães, com grande entusiasmo, a vitória de D. João I na batalha de Aljubarrota e, por extensão a Independência de Portugal.
Segundo testemunhos escritos e orais, a cerimónia religiosa que assinala a efeméride tradicionalmente consta de uma celebração com missa cantada e sermão, realizada no Padrão de Nossa Senhora da Vitória (frente à Igreja de Nossa Senhora da Oliveira), com a presença do pelote de D. João I. Há ainda o registo de uma procissão que se formava na Colegiada e que, com a imagem de Nossa Senhora da Oliveira, percorria as ruas da cidade, seguindo até à Porta da Vila e regressando pela Senhora da Guia.
Há notícia de fervorosos sermões pátrios proferidos na referida cerimónia por diversas entidades religiosas, sendo o mais repetidamente mencionado o do franciscano Frei Luís da Natividade, em 1638, quando, outra vez, Portugal mergulhara num tempo de subordinação a Castela e dela tentava livrar-se. Dirigindo-se ao pelote disse o frade: «Vejo-vos, pelote, velho e roto: vejo-vos atravessado com a vossa própria lança (…). Só me resta para consolação ver-vos diante desta Virgem da Oliveira, que se uma vez vos livrou da morte, vos pode ainda ressuscitar a nova vida”.
Hoje, importa valorizar estes símbolos e recuperar, com a maior dignidade, a tradição da cerimónia religiosa, ao ar livre, na presença de símbolos queridos e identificadores do que somos como pessoas e como povo, contra os perigos, diversos e indefinidos, que assolam estes nossos conturbados tempos.

Email do Jornal: jornal@oconquistador.com
Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.
Dom DigitalProduzido por ardina.com,
um produto da Dom Digital.