Arquivo: Edição de 15-06-2012

SECÇÃO: Informação Religiosa

Átrio dos Gentios

Da Gaudium et Spes ao Pátio dos gentios

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“Para tudo há um momento e um tempo para cada coisa que se deseja debaixo do céu” (Ecl 3, 1). Este momento bíblico é um tempo de contraposições – “tempo para nascer e tempo para morrer” –, onde a natureza e a graça se encontram para recriar o próprio tempo e dar origem a algo novo. Ulrich Beck, um sociólogo alemão, dizia uma coisa interessante: o risco não é a catástrofe, mas aquilo que nos separa dela, isto é, o eterno presente. O risco é permanecer imóvel, apático, dentro de um mundo que é mudança.
Segue-se, então, uma questão pertinente: como podemos ser, no presente, testemunhas de um futuro capaz de operar mudanças? O futuro apenas pode ser testemunhado se, de algum modo, ele já nos foi dado. É que o futuro é do domínio do sagrado – como uma visita não autorizada (Mia Couto) – e, contudo, sentimo-nos atraídos por ele. Esse evento futuro, capaz de transformar o presente, é sem dúvida o mistério pascal. Ele permite-nos reler a História à luz da salvação, com serenidade, e perceber que, afinal, a salvação é dom universal, um mistério que ultrapassa o nosso entendimento.
Também a Igreja tem o seu tempo, habita esse presente salvador, e o Concílio Vaticano II foi disso uma imagem significativa. João XXIII, o “Papa bom”, foi capaz de abrir as portas e as janelas ao Espírito para que se lessem os sinais dos tempos.
Abrir e ler. Durante muito tempo, aquilo que a Igreja via causava medo: uma sociedade ao ritmo do comboio a vapor e que, na perspectiva de Gregório XVI, poderia descarrilar para a perda de referências culturais, familiares e, em última circunstância, levar ao ateísmo. Mas, escancarar as portas e as janelas implica um êxodo da Igreja. Implica sair de casa, ir até ao pátio e habitar aquele que é o seu espaço por excelência: o mundo actual.
Um abrir para escutar e dialogar. Existe, hoje, um novo tempo propício para o diálogo, para a procura do sentido do ser humano, que não pode ser desperdiçado. Contudo, é um diálogo peculiar: começa com a escuta gratuita.
Uma constituição pastoral – Gaudium et spes – e o florir de um projecto – Pátio dos gentios – oferecem-nos as bases para lermos este novo tempo. Sublinha a GS: impõe-se, hoje, “construirmos, na verdade e na justiça, um mundo melhor. Somos assim testemunhas do nascer de um novo humanismo, no qual o homem se define antes de mais pela sua responsabilidade com relação aos seus irmãos e à história” (GS 55). Recorda ainda, no horizonte da dignidade da pessoa humana, que a questão de Deus não deve estar ausente das grandes questões do nosso tempo.
Felizmente, o modo como a Igreja dialoga com os ateus e agnósticos representa, neste documento, uma novidade refrescante: “muitos dos nossos contemporâneos não percebem esta íntima e vital ligação a Deus, ou até a rejeitam explicitamente” (GS 19). Entender que muitos vivem o drama de não “perceber” Deus, ou que não lhes “foi dado o dom de poder crer”, ainda que procurem a verdade, coloca-nos num espaço totalmente novo. Diálogo entre crentes e ateus não é duelo. Pelo contrário. É uma via da qual Deus  pode servir-se para comunicar a plenitude da graça.
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Afirmou recentemente Bento XVI num discurso à Cúria romana: “penso que a Igreja deveria também hoje abrir uma espécie de «átrio dos gentios», onde os homens pudessem de qualquer modo agarrar-se a Deus, sem O conhecer e antes de terem encontrado o acesso ao seu mistério, a cujo serviço está a vida interna da Igreja” (21 Dezembro 2009).
Este não é decerto um empreendimento fácil. Tal como um bebé que está a aprender a andar, assim também os intervenientes do pátio estão a dar os primeiros passos para se encontrarem. Passos pequenos, mas seguros. Dizia Friedrich Hölderlin: “longo é o tempo, mas a verdade surge”. Testemunhar é também sinónimo de paciência. Importante é que extensão do tempo não nos leve a duvidar da verdade do humano. Porque, olhar gratuitamente nos olhos do nosso irmão, independentemente da sua (não) opção religiosa, é profundamente humano... porque profundamente cristão.
 
Tiago Freitas
www.patiodosgentios.com

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