Arquivo: Edição de 15-06-2012
|
SECÇÃO: Informação Religiosa |
||
|
Átrio dos Gentios Segue-se, então, uma questão pertinente: como podemos ser, no presente, testemunhas de um futuro capaz de operar mudanças? O futuro apenas pode ser testemunhado se, de algum modo, ele já nos foi dado. É que o futuro é do domínio do sagrado – como uma visita não autorizada (Mia Couto) – e, contudo, sentimo-nos atraídos por ele. Esse evento futuro, capaz de transformar o presente, é sem dúvida o mistério pascal. Ele permite-nos reler a História à luz da salvação, com serenidade, e perceber que, afinal, a salvação é dom universal, um mistério que ultrapassa o nosso entendimento. Também a Igreja tem o seu tempo, habita esse presente salvador, e o Concílio Vaticano II foi disso uma imagem significativa. João XXIII, o “Papa bom”, foi capaz de abrir as portas e as janelas ao Espírito para que se lessem os sinais dos tempos. Abrir e ler. Durante muito tempo, aquilo que a Igreja via causava medo: uma sociedade ao ritmo do comboio a vapor e que, na perspectiva de Gregório XVI, poderia descarrilar para a perda de referências culturais, familiares e, em última circunstância, levar ao ateísmo. Mas, escancarar as portas e as janelas implica um êxodo da Igreja. Implica sair de casa, ir até ao pátio e habitar aquele que é o seu espaço por excelência: o mundo actual. Um abrir para escutar e dialogar. Existe, hoje, um novo tempo propício para o diálogo, para a procura do sentido do ser humano, que não pode ser desperdiçado. Contudo, é um diálogo peculiar: começa com a escuta gratuita. Uma constituição pastoral – Gaudium et spes – e o florir de um projecto – Pátio dos gentios – oferecem-nos as bases para lermos este novo tempo. Sublinha a GS: impõe-se, hoje, “construirmos, na verdade e na justiça, um mundo melhor. Somos assim testemunhas do nascer de um novo humanismo, no qual o homem se define antes de mais pela sua responsabilidade com relação aos seus irmãos e à história” (GS 55). Recorda ainda, no horizonte da dignidade da pessoa humana, que a questão de Deus não deve estar ausente das grandes questões do nosso tempo. Felizmente, o modo como a Igreja dialoga com os ateus e agnósticos representa, neste documento, uma novidade refrescante: “muitos dos nossos contemporâneos não percebem esta íntima e vital ligação a Deus, ou até a rejeitam explicitamente” (GS 19). Entender que muitos vivem o drama de não “perceber” Deus, ou que não lhes “foi dado o dom de poder crer”, ainda que procurem a verdade, coloca-nos num espaço totalmente novo. Diálogo entre crentes e ateus não é duelo. Pelo contrário. É uma via da qual Deus pode servir-se para comunicar a plenitude da graça. Este não é decerto um empreendimento fácil. Tal como um bebé que está a aprender a andar, assim também os intervenientes do pátio estão a dar os primeiros passos para se encontrarem. Passos pequenos, mas seguros. Dizia Friedrich Hölderlin: “longo é o tempo, mas a verdade surge”. Testemunhar é também sinónimo de paciência. Importante é que extensão do tempo não nos leve a duvidar da verdade do humano. Porque, olhar gratuitamente nos olhos do nosso irmão, independentemente da sua (não) opção religiosa, é profundamente humano... porque profundamente cristão. Tiago Freitas www.patiodosgentios.com |
