Arquivo: Edição de 27-04-2012

SECÇÃO: Região

O VARANDIM DO TOURAL

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“Varandim do Toural” é o nome dado, indevidamente, ao gradeamento nele colocado meses depois da solene inauguração da nova Praça. Regozijemo-nos pela atitude tomada por quem atrasou uns meses a sua colocação, pois, graças à demora, os vimaranenses e os forasteiros que nos visitaram puderam ver, em todo o seu esplendor, a magnífica “fachada pombalina” que é o maior título de glória do Toural.
Sempre que alguém tentava justificar a chamada “requalificação urbana do Toural”, sorvedouro de dinheiro que tanta falta nos faz, alegava que o objectivo essencial era “devolver aquele espaço aos vimaranenses” permitindo-lhes desfrutar da visão ampla e desimpedida da sua fachada oriental. E, na verdade, todos nós, sem excepção, ficámos rendidos ante a visão do novo Toural. E fechamos os olhos ao dinheiro que se gastou, ao mosaico sem valor artístico ou decorativo ao nível do solo, que substituiu o mosaico que lá estava, esse sim, de evidente bom-gosto e prenhe de memórias.
Quando soube que iam colocar um varandim no Toural, pensei, ingenuamente, que se trataria de um lapso de comunicação: que se saiba, as varandas existem para, do alto, se desfrutar o que, em baixo, possa existir de digno de observação. Estando o varandim ao nível do solo, não descortinava o que se poderia existir a um nível ainda mais baixo; e concluí que esse varandim iria certamente ser colocado a um nível superior, talvez na berma do passeio, para, a título preventivo, profiláctico e acautelatório (como diria o saudoso prefeito de Sucupira, na telenovela de saudosa memória), proteger o transeunte distraído. E lembrei-me que, nos primeiros tempos da República, alguém se lembrou de colocar nesse local uma “marquise”, para dar sombra aos passeantes que miravam as vitrinas do comércio local, ideia que germinou durante décadas mas não frutificou.
Mas não, nada disso: a varanda era mesmo para ser colocada no chão da própria praça. Descrente, como S. Tomé, quis ver para crer. E lá fui, para ser testemunha desse momento histórico. E vi o varandim a crescer.
Não sabia que serventia ele poderia ter, mas graças a uma entrevista da autora do projecto, Ana Jotta, fiquei esclarecido. Inicialmente, asseverou ela, apenas se lhe solicitou a elaboração do mosaico de pedrinhas, mas depois, “foram aparecendo coisas” que vieram enriquecer o projecto inicial: umas dessas “coisas” foi o varandim. Serviria, segundo a autora, para facilitar a leitura de um mapa estilizado do centro histórico de Guimarães que seria desenhado com pedrinhas pretas e brancas no pavimento da praça.
Informado pela entrevista da autora, (entrevista que, em 20 de Março, o “You Tube” teve o patriótico mérito de levar a todos os cantos do globo), desloquei-me ao Toural, debrucei-me sobre o varandim, e examinei os traços que, segundo dizem, reproduzem o mapa do centro histórico de Guimarães. Olhei uma vez, duas vezes, três vezes, e o desenho continuava tão impenetrável como sempre. E desisti.
Raciocinemos: se o objectivo essencial da requalificação urbana do Toural era garantir a máxima visibilidade para as fachadas do Toural, bastaria roubar à praça a fonte monumental e as árvores que a rodeavam: obra que se executaria sem despesas de monta. Portugal, na penúria, agradeceria. Mas não, dinheiro, ao que parece, havia com fartura, era necessário gastá-lo numa obra faraónica, acrescentando algumas “coisinhas” ao projecto.
Uma dessas “coisinhas” foi a trasladação do tanque do Carmo para uma das extremidades do Toural. Não fica mal aí, não senhor: é uma obra de arte a sério que ficaria bem em qualquer sítio. Mas, posta no Toural, rouba-lhe um bom pedaço ao seu tamanho: pecado impensável por parte de quem tinha o propósito de dar à praça a sua maior dimensão. Melhor seria, penso eu, se o desviassem alguns metros e o levassem para marcar o princípio da alameda, à frente da muralha (há mais gente que pensa o mesmo).
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O dito “varandim” é um pecado muito mais grave. Colocado onde está, tem o condão de fixar a atenção do visitante: até agora - como se desejava - os seus olhos eram atraídos pela monumentalidade das fachadas; a partir de agora, os seus olhos não já não conseguem elevar-se do chão, presos pelo extravagante varandim com que Ana Jotta ornamentou esta terra, com o aplauso unânime da vereação vimaranense.
Hoje, quem vai ao Toural, vai ver o varandim, estimulado pelas pícaras anedotas que a seu respeito crescem na Internet como tortulhos no monte. E Guimarães, Capital Europeia da Cultura de 2012, transformou-se em alvo do escárnio da Europa e do Mundo.
Por isso, é preciso agir imediatamente. À Câmara Municipal que, por unanimidade, aprovou esta “coisinha”, só lhe resta penitenciar-se adequadamente, deliberando, por unanimidade, a sua imediata remoção: não há tempo para tentar salvar a face.
Em todo este folhetim, uma só coisa me serve de consolo: quem o imaginou não é de Guimarães… e duvido que os vereadores o sejam.

18 de Abril de 2012
Fernando José Teixeira

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