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Não se faça a minha vontade, mas a tua (Lc 22, 42)
Aproxima- se a Páscoa, festa que, num âmbito cultural alargado, bem poderia ser designada festa da liberdade. Para os cristãos é-o certamente. De facto, “Cristo tornou-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fil2,8) e, assim, não resta qualquer dúvida de que nada nem ninguém foi capaz de O demover ou desviar da missão que aceitou do Pai para ser o Salvador e Redentor da humanidade. A Sua vida e sobretudo o mistério da Paixão, Morte e Ressurreição foi um exercício de liberdade em plenitude. A verdadeira liberdade deverá ser caracterizada por um percurso retilíneo com os olhos postos no objetivo natural, sustentado pela consciência, que é o melhor bem. Na linguagem bíblica, o símbolo da liberdade vem expresso, de modo sugestivo, “na árvore do conhecimento do bem e do mal”, que teria de ser respeitada, qual voz da consciência. A desobediência ao imperativo desta voz provocou, na natureza humana, um vulcão de desordens e debilidades irreconciliáveis com o Criador.
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Todavia o plano de Deus de partilhar com os homens o crescimento e desenvolvimento do mundo, por parte d’Ele, não foi desfeito e, por isso, “na plenitude dos tempos”, por mistério insondável da Sua Providência, por Jesus Cristo Seu Filho, os homens puderam encontrar o caminho da Esperança. Deixando-se morrer na árvore da Cruz, Ele reconciliou definitivamente os homens com Deus. E assim olhando para ela, para a cruz, opostamente ao que aconteceu no princípio, nós vemos nela um convite permanente à prática do dom inestimável da liberdade. Da parte do homem, para sentir a alegria da vida, ato de louvor e gratidão, só com a disposição constante de, perante toda a variedade de solicitações e dificuldades, obedecer à voz da consciência, agora iluminada pela fé. Não se faça a minha vontade, mas a Tua é certeza de exercício de liberdade, porque convite da Fonte de toda a Luz, Verdade e Bem. A festa da Páscoa da Ressurreição do Senhor vem, em cada ano, despertar-nos, para acertarmos o passo pelo ritmo misterioso da vida que ela contém.
Lima de Carvalho
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