Arquivo: Edição de 16-03-2012
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SECÇÃO: Informação Religiosa |
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Vocação da mulher num mundo global: «Estar junto à Cruz» 2 - A nossa vocação de mulher. Livre para libertar e “estar junto à Cruz” Jesus Cristo teve a audácia de se aproximar da mulher de a libertar e de lhes dar a missão do discípulo: “Servir”. Não as mandou a anunciarem o Reino pelos campos da Galileia porque dados os condicionalismos da época a sua palavra teria sido rejeitada mas a presença das mulheres no meio dos discípulos não eram secundária ou marginal. Estavam habituadas a ocuparem os últimos lugares e o seu lugar era “servir” que para Jesus é a orientação de qualquer discípulo “Estou no meio de vós como quem serve”. A mulher oprimida foi libertada por Jesus tanto das ataduras mentais que a sociedade e a cultura do seu tempo tinham imposto como das suas próprias ataduras, que não a deixavam viver o seu ser de imagem de Deus. Também foi libertada dos seus próprios egoísmos, chamada a ser testemunha da Ressurreição e portadora deste anúncio. 3 - Em tempo de crise realço a nossa vocação de mulheres: “estar de pé junto à cruz” É a vocação da maternidade de Maria. Estar junto à cruz de Jesus quando outros se afastam. Pela nossa sensibilidade, dedicação e entrega somos vocacionadas a estar ao lado dos que sofrem com misericórdia e ternura, “limpando as chagas” de tantas mulheres violentadas e maltratadas “enredadas” em teias de exploração e dor.Estar de pé “junto à cruz” é acolher no coração os gritos da humanidade sofredora, todas as mulheres e crianças que precisam de ser acolhidas no mundo atual . E este sofrimento está aqui ao nosso lado no nosso bairro na nossa rua, em todas as classes sociais. Todos os dias vêm ter comigo mulheres que sofrem na pele o desemprego, o dos filhos, o do marido. E é sempre a mulher que dá a cara: “ O dinheiro não me chega para a água, Luz, renda farmácia”. E é sempre outra mulher ou um grupo de mulheres que voluntariamente acolhem esta cruz e dão respostas de ressurreição. Os projetos sociais, as organizações de voluntariado estão sempre ligadas a mulheres que tecem a vida servindo os outros. Onde está uma mulher sofredora está outra mulher com um projeto de esperança. É esta a vocação da mulher cristã. Gastar-se pelos outros sem esperar reconhecimento algum e em todos os projetos que assina desejar apenas que resultem e sirvam a humanidade. 4 - Desafio das Mulheres na Igreja: Protagonismos diferentes mas igual dignidade Na missão da Igreja todos temos lugar e às mulheres não nos falta trabalho. Complexos de inferioridade e superioridade à parte, não existem papéis maiores ou menores no cenário da missão evangelizadora; o que há é protagonismos diferentes com a mesma dignidade. Creio que também se pode aplicar na Igreja o velho slogan: “Todos iguais, todos diferentes” . Todos iguais porque todos filhos no Filho e todos diferente porque para Deus cada um é único e irrepetível. Deus ama no singular e a cada um com a sua especificidade. Sinto-me bem na minha missão na Igreja de estar junto à cruz, de fazer o meu “Retiro” na rua, todos os dias junto de quem sofre. Neles me encontro com Jesus todos os dias e escuto: “Foi a mim”. A Igreja, sempre assistida pelo Espírito Santo, situada no mundo e para o mundo há de continuar a juntar a sua voz à proclamação da igualdade de género e contar com a mulher para intervir, liderar e servir na Igreja. É este o meu lugar de mulher cristã. Gastar-se pelos outros sem esperar reconhecimento algum e em todos os projetos em que me envolvo desejar apenas que resultem e sirvam a humanidade. Discípulos ou discípulas de Cristo todos somos chamados a “celebrar a Eucaristia” embora de maneiras diferentes. Todos temos que tornar o Senhor presente na humanidade e sabê-lo presente nela. Gosto de pensar que no Monte das Oliveiras, junto de Jesus a suar sangue, as mulheres não teriam adormecido e que as mulheres também não discutiriam como os homens sobre quem tinha o primeiro lugar. À medida que Jesus vai para a cruz, os homens afastam-se e as mulheres aproximam-se. Estão junto à cruz até ao fim sem traições, negações ou abandonos. Não foi uma mulher que o negou, nem uma mulher que o traiu. Não foi um homem que lhe limpou o rosto no caminho da Cruz. O Cireneu foi “obrigado a levar a cruz”. Foram as mulheres que foram ao sepulcro e que O reconheceram na manhã de Páscoa. Não porque somos melhores, mas porque somos diferentes. É esta diferença que enriquece a sociedade e a Igreja. Sermos Maria, a Mulher Crente que está junto à cruz, que ama, que inclui nas suas lágrimas as lágrimas dos que hoje choram. Quem sabe se esta CRISE atual, que no fundo é uma crise de valores, não se deve às assimetrias desta parceria de género… Há um longo caminho ainda a percorrer na valorização da mulher e nesta parceria em paridade. Creio que essa descoberta terá de ser interiorizada, acreditada, defendida e ostentada. Se me pudesse alargar apresentava uma imensa galeria de mulheres que na Igreja foram “santas e sábias”. Nomeio apenas duas cuja espiritualidade é de extrema atualidade para os dias de hoje. Teresa de Ávila - Apelo à interioridade (1515-1582) : “Não vos considereis vazias… dentro de vós, como num castelo de rara beleza e mui fino cristal, mora Jesus Cristo. Peço que olheis para Ele.” Teresa de Calcutá – Apelo ao Amor (1910-1997): “Não devemos permitir que alguém se afaste de nós sem se sentir melhor e mais feliz” Irmã Fátima Magalhães - stj (A.Ecclesia) |
