Arquivo: Edição de 09-12-2011
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SECÇÃO: Generalidades |
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NATAL DE 2011 E abanei a cabeça: não, ainda não é altura de celebrar o Natal. Hoje, nesta manhã de Advento, quando a Liturgia se veste de roxo para pedir às nuvens que chovam o Justo, apercebi-me que o Natal foi, há muitos anos, vivido com antecipação por Maria e José. Já havia Natal na Anunciação, quando, por obra e graça do Divino Espírito Santo, Jesus foi habitar nas entranhas puríssimas da Virgem de Nazaré. E Maria adorou, a toda a hora e momento da sua gravidez, o Deus feito homem que vivia dentro de si; e José, ciente do mistério que envolvia a gravidez de Maria, contava os minutos que faltavam para que o mistério se concretizasse. A expectativa desse nascimento acentuou-se no fim do tempo da gravidez quando fizeram uma viagem que os obrigou a deixar Nazaré, na Galileia, para se recensearem em Belém, a cidade de David, por ordem do Usurpador, de Roma, que um dia acordou, angustiado, porque não sabia, ao certo, quantos homens e mulheres tinha debaixo do seu jugo! Viajem longa, de cerca de 120 quilómetros, por caminhos de cabras e veredas esconsas, fojo de salteadores e refúgio de leprosos. As estalagens que encontravam (se é que as encontraram!) nada ofereciam além de um lugar para dormir e, talvez, uma lareira onde cozinhar. E estavam pejadas de gente que, como eles, demandavam Belém para o recenseamento. E o Menino Jesus, que estava para nascer, esperou. Mas, a sua presença no ventre de Maria, fazia dele uma espécie de presépio. E aí já era Natal. Quando terminaram a sua jornada, Maria e José entraram em Belém - uma terrinha insignificante onde nada tinha acontecido de relevante desde o dia em que aí nascera o Rei David, mas em relação à qual Miquéias profetizara: “Mas tu, Éfrata (Belém), embora sejas o menor dos clãs de Judá, de ti sairá aquele que será dominador em Israel”. Mas Jesus, no ventre de Maria, apesar de ter vindo para o que era seu, constatou que “os seus não o receberam”, pois foi numa estrebaria que abriu os seus olhos pela vez primeira e viu um bocadinho da Humanidade que viera salvar: ao seu lado, aquecendo-o com o seu amor, estavam Maria e José. Escandalizados com tamanha pobreza, os autores dos Evangelhos apócrifos imaginaram que à cabeceira da manjedoura estavam uma vaca e um burrinho que aqueciam Jesus-Infante com o seu bafo. A Igreja, sempre tão preocupada com a credibilidade dos textos sagrados, desta vez fechou os olhos, e deixou que a arte de muitos séculos e a piedade de tantas gerações colocassem a vaca e o burrinho adorando o Menino. E ninguém se escandalizou por isso. E o Evangelista concluiu: “E o Verbo se fez carne a habitou entre nós, e nós vimos a sua glória, glória que ele tem junto do Pai como Filho único, cheio de graça e de verdade”. Vem-me à memória aqueles versos que o Padre Zezinho cantava: “Tudo seria bem melhor Se o Natal não fosse um dia E se as mães fossem Maria E os pais fossem José E os filhos parecessem com Jesus de Nazaré” Por isso, mudei de opinião: todos os dias são Natal, desde que Jesus nasça, cada dia, no nosso coração. Fernando José Teixeira 29 de Novembro de 2011 |
