Arquivo: Edição de 25-11-2011

SECÇÃO: Informação Religiosa

Para ver o que aconteceu em Belém (Lc 2,15)

Uma pergunta do Advento
No quotidiano somos confrontados com inúmeras perguntas. A pergunta é um atentado à nossa identidade, pois destrói a nossa quietude existencial, levando-nos a redefinir constantemente a nossa diferença.
Neste momento em que chegamos ao fim do Tempo Comum, surge um novo tempo: Advento. Trata-se de um tempo com exigências pastorais peculiares, uma nova cor litúrgica, reformulação do reportório musical e uma espiritualidade específica. Um tempo que não se fecha em si mesmo, pois tem como horizonte o mesmo desejo dos pastores: “ver o que aconteceu em Belém” (Lc 2,15). E um tempo que, neste ano Pastoral, se transforma também numa pergunta sobre a nossa identidade (diferença) eclesial: Quem somos?1 Neste sentido, subscrevo esta mensagem para o Tempo de Advento em três pontos: teologia, espiritualidade e itinerário pastoral.

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1 cf. Programa Pastoral 2011-12 (Arquidiocese de Braga), pp. 4-6.
1. A História da Salvação resume-se a um jogo dialéctico entre as perguntas (propostas) divinas e as respostas humanas. O Advento, por seu turno, evidencia-nos a dimensão messiânica e escatológica desta História. É um tempo de espera (esperança) na vinda de Jesus Cristo! Contudo, o Advento não é somente o tempo em que esperamos a chegada deste Messias. Ele também espera por nós: pela nossa chegada à sua proposta de salvação. Aliás, Ele não se importa de perder tempo connosco, isto é, de esperar pela nossa resposta. Daqui provém um outro carácter do Advento: a dimensão missionária.
2. Toda a missão tem por base uma espiritualidade. E o Advento vivifica essencialmente três valores cristãos: a esperança, a alegria (Domingo Gaudete) e a pobreza. Porque vivemos tempos austeros, a partilha gera alegria naqueles que passam dificuldades, restitui-lhes a esperança para continuar a viver e educa-nos a todos para a pobreza: viver com o essencial.
Neste sentido, Partilhar com Esperança é o nosso fundo que recebe e dá para testemunhar o amor. O anúncio da vinda do Messias passa pelo amor. Por isso, os Conselhos Pastorais Paroquiais devem ter essa sensibilidade para ver e fazer mostrar tal amor, através de grupos sócio-caritativos nas suas mais variadas denominações, a nível paroquial ou interparoquial.
Esta “missão social” é um dos rostos mais visíveis da Igreja, sempre guiados pelo desejo de edificar “novos céus e nova terra” (2Pe 3,13). Porque quando se escuta “com ânimo disponível a Palavra de Deus na Igreja, desperta-se a caridade e a justiça para com todos, sobretudo para com os pobres” (VD 103).
3. Alimentados pela mesma Palavra, a liturgia dominical apresenta-nos um itinerário adventício ao ritmo de quatro perguntas:
I Domingo: Porventura sabeis “a que horas virá o dono da casa”? (vigiar)
II Domingo: Quem é esse que “vai chegar depois de mim”? (preparar)
III Domingo: “Então quem és tu?” (acreditar)
IV Domingo: “Como será isto, se eu não o conheço?” (confiar)
Este é um itinerário a ser reflectido nos Conselhos Pastorais, nas reuniões dos movimentos, nas sessões de catequese, na homilia, na oração pessoal… Cada pergunta dominical remete para uma atitude bíblica, a qual deverá ajudar-nos a responder à pergunta sobre a nossa identidade eclesial (Quem somos?).
Ver o que aconteceu de perene novidade em Belém necessita de alguém que nos “explique” o modo de entender “coisas” diferentes do pensar comum. Maria é o testemunho eloquente de quem se disponibiliza para servir segundo a Palavra: “Eis a escrava do Senhor, faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38).
Que Maria, a Senhora do Advento, que acreditou nas promessas do anjo Gabriel, no compromisso assumido pelo seu esposo José e na gravidez da sua prima Isabel, nos ensine também a acreditar na verdadeira Encarnação do próprio Deus na pessoa de Jesus e na Sua vinda escatológica, de modo a passarmos assim do enigma daquela pergunta (identidade eclesial) à alegria de uma resposta comprometedora (vivência eclesial).

+ Jorge Ortiga, A.P.
8 de Novembro de 2011

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