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Património, expressão de Beleza
Na sessão de abertura do Dia Nacional dos Bens Culturais da Igreja, realizada a 18 do corrente mês, no Auditório Vita, em Braga, D. Jorge Ortiga, arcebispo primaz, falando da Igreja, Projecto Cultural de Beleza, quis acentuar a responsabilidade das entidades eclesiásticas mais vinculadas ao respeito, defesa, conservação e preservação do património nestes termos: Mais do que nunca, torna-se imprescindível procurar e entrar nas nossas origens para um autêntico reencontro com o essencial que se foi expressando em coordenadas variadíssimas. O Património, enquanto expressão de beleza, é um destes elementos e descortinar a finalidade originária que o motiva, a evolução cronológica por que passou, pode ajudar a identificar-se com a história. Daí que, conhecer o património para consciencializar-se da riqueza interpelativa que encerra, pode ser um elemento estruturante dum projecto cultural que a Igreja em Portugal deve possuir. Conhecer pode significar recrear e recrear-se.
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Para alguns será uma simples evasão do quotidiano no amargo dos seus dias. Outros, e particularmente os crentes, deveriam aproveitar para efectuar uma consistência intelectual e afectiva com uma fé que motivou o Património, colocando-se à escuta da mensagem oculta e recompondo-se a si mesmo nos seus critérios e opções. Conhecer não é curiosidade mas predisposição para dar consistência a uma convicção pessoal que encontra fora de si outras motivações. Para que isto aconteça é necessário empenhar-se e comprometer-se em criar uma mentalidade, a que alguns apelidam de cultura activante. Da parte das comunidades - Paróquias, Santuários, Dioceses – importa investir, criando as condições que proporcionem um autêntico conhecimento. Importa acolher na responsabilidade de dar a conhecer em profundidade. Não basta disponibilizar! Compete corresponder às expectativas e, quem sabe, colocar-se para além destas expectativas. A nossa riqueza, como recordava o Santo Padre, é para “colocar ao serviço da sociedade” para que, conhecendo a “sã e alta tradição”, se questione sobre a verdade para a qual aponta.
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Criar condições para dar a conhecer, significa que a Igreja Católica eduque para a vontade de conhecer e para uma fruição digna do homem, em geral, e do cristão, em particular. Este elemento falta muito na nossa missão evangelizadora. Criar gosto por conhecer o que nos antecedeu pode tornar a fé mais consistente. Impressiona a falta de curiosidade e muito menos de vontade em conhecer o nosso património que caracteriza a vida dos cristãos. Impressiona um certo analfabetismo cultural em relação ao Património que nos está próximo. Não somos capazes de conhecer minimamente os tesouros que temos ao lado das nossas casas. Partimos dum pressuposto de quem conhece e nem sequer os elementos básicos conseguimos descrever. Se há mais tempos livres, não é difícil ocupá-lo com atitudes cognoscitivas dum património que é nosso. Caímos na rotina dum estar nos mesmos lugares e não nos colocamos nesta vontade de conhecer. Não podemos desculpar-nos, como Igreja, destes comportamentos. Por vezes só sabemos o valor duma peça de arte da comunidade a que pertencemos, quando é roubada e a comunicação social a descreve com elementos valorativos que outros descobrem antecipadamente. Este criar mentalidade para conhecer, num autêntico projecto cultural, supõe, entre outras coisas, a continuação na aposta dos Inventários. A comunidade deve conhecer – insisto no verbo – o que lhe pertence. Só o inventário permitirá que a comunidade não se prejudique através de roubos ou mesmo de oportunismos de pessoas, que enganam com demasiada facilidade sacerdotes e membros dos Conselhos Económicos. Por isso, é grande a responsabilidade em conhecer para preservar e poder fruir! E é uma grande falta de respeito ignorar esse património local, fruto do suor, das lágrimas e dos sacrifícios dos nossos antepassados na fé!
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