Arquivo: Edição de 21-04-2011

SECÇÃO: Generalidades

A Verdade e a Mentira

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Na sua segunda epístola a Timóteo, S. Paulo ensinava que estava chegando o tempo em que os homens não tolerariam qualquer ensinamento são, procurando em vez disso coisas que os alegrassem, seguindo apenas os mestres que lhes falavam do que eles queriam ouvir. E não mais escutariam a verdade.
Este ensinamento foi escrito há vinte séculos atrás e mantém ainda hoje plena actualidade: nós só ouvimos o que queremos ouvir. Os latinos criaram um aforismo que consagra essa realidade “Quod volumus, facile credimus”: é fácil acreditar no que queremos ouvir, por isso, num tempo de crise como aquele em que vivemos, em que se assiste à derrocada dos valores que durante séculos foram a base estruturante da nossa civilização, o culto da Verdade tem vindo a perder terreno e, a curto prazo, será uma virtude em vias de extinção. E talvez as Nações Unidas venham a criar, uma vez por ano, o “Dia da Verdade”, em que todos serão convidados a, pelo menos nesse dia, dizer a verdade.
A mentira era então um pecado tão vergonhoso que o mentiroso tinha uma espécie de pudor, procurando ocultá-la sempre que o podia fazer. Para isso, inventaram-se as chamadas “mentiras piedosas”: mentiras que se diziam para, segundo apregoavam, se evitarem males maiores! Hoje, como nunca, a mentira apresenta-se com um refinamento que quase oculta o que tem de hediondo, mostrando-se sob a forma aparentemente inócua de “ocultação da verdade”. O silêncio é hoje a forma mais descarada da mentira quando as circunstâncias impõem imperiosamente que se diga a verdade, a verdade nua e crua.
A mentira, a mentira descarada, a mentira sem rebuços, prolifera hoje, como nunca, no mundo da política. Criou-se uma subespécie de mentira: a “mentira política” que, por estar tão generalizada, já não causa repugnância. Há mesmo quem não a considere uma “verdadeira mentira”, por ser inerente à própria actividade política. De facto, para muitos, a grandeza de um verdadeiro político é directamente proporcional ao número e gravidade das suas mentiras.
É o que estamos presenciando nos dias de hoje na campanha eleitoral, altura em que a pirotecnia da mentira atinge o deslumbramento. O “Manual do Político Moderno” recomenda que se evite a todo o transe falar de programas eleitorais e de outras coisas sérias: o povo é estúpido e não percebe nada de economia e finanças. Que se limite a pôr a cruzinha no boletim de voto, para dar a chancela de “legitimidade democrática” ao governo que sair das eleições, e deixem tudo o mais para os políticos: os únicos que “percebem da poda”.
E que os políticos se ocupem a escabichar a vida pregressa dos opositores procurando qualquer incidente que, tortuosamente, possam manipular para arruinar o bom nome e a sua credibilidade; e, sobretudo, que prometam, prometam muito, prometam tudo, mesmo o que não querem ou não podem cumprir.
Hoje, no momento em que Portugal atravessa o momento mais negro da sua história em que da sua soberania já nada resta, impõe-se um regresso aos antigos valores que fizeram de Portugal um país respeitado no concerto das nações. Hoje, Portugal é apontado a dedo como o exemplo acabado de um país desgraçado que vive à custa de dinheiro emprestado pela comunidade internacional, e os portugueses são assinalados como indivíduos invertebrados, sem querer, que não conseguem ter um assomo de humildade que os faça abandonar a vida fácil do dinheiro emprestado e que, portanto, não é seu..
Na nossa história, o ano de 2011 só tem uma data equivalente – 1580 – quando, perdida a nossa independência, passamos a ser um domínio dos reis de Espanha… Hoje, temos o FMI dentro de portas para governar as nossas finanças durante uma dezena de anos. Por outras palavras, teremos o FMI a fazer o que o nosso Governo nunca se atreveu a fazer, enredado como estava numa teia de mentiras que ele próprio teceu e da qual nunca conseguiu liberta-se.
O Governo, impenitente, continua a mentir: coerente até ao fim, negando a evidência das suas gravíssimas culpas, por acção e omissão, pela situação catastrófica que estamos vivendo; e atribuindo à Oposição as culpas que, por inteiro, pertencem ao Governo.
Sabe-se que no decurso da II Guerra Mundial, um guru do maquiavelismo nazi, Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, afirmou (e a frase passou para a História): “Uma mentira mil vezes repetida passa a ser tida verdade”.
As últimas sondagens mostram que ainda há muitos que se mostram sensíveis às mentiras “mil vezes repetidas” do Governo. Muitos deles serão certamente os “boys” sem mérito, colocados no aparelho e nas estruturas do Estado, receosos de uma mudança política que ponha em risco os seus “tachos”; mas muito serão os que, por fidelidade ao emblema, continuarão a votar nos coveiros da Pátria.
O Senhor Cardeal Patriarca de Lisboa, em entrevista recente concedida à televisão, garantiu que a Igreja irá ter uma forte intervenção nesta campanha eleitoral. É bom que assim seja, e seria bom que os cristãos fossem convidados a fazer um sério exame de consciência para apurar onde está a verdade e onde está a mentira, para depois, no dia das eleições, votarem em conformidade.
Se assim não fizerem, terão o Governo que merecem que não será, certamente, o que Portugal merece.
Jesus, que é o “caminho, a verdade e a vida”, ilumine tanta cabeça dura que há por este país fora.
Assim seja!

Fernando José Teixeira
18 de Abril de 2011

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