Arquivo: Edição de 25-02-2011

SECÇÃO: Informação Religiosa

Igreja de Guimarães e Vizela (re)pensou a Pastoral em Portugal (I)

Em reunião arciprestal, realizada a 10 de Fevereiro passado, o Clero de Guimarães e Vizela debateu a proposta de reflexão emanada da Conferência Episcopal Portuguesa, aglutinando numa síntese final o trabalho de reflexão de alguns grupos paroquiais.
“Igreja em Portugal, “que vês na noite” da sociedade em que vives (cf. Is 21, 11) e quais os sinais de Deus e os desafios para a tua missão?”, era um dos desafios de reflexão lançados.
Da reflexão feita, concluímos: “Uma sociedade lê-se pelas pessoas que a fazem. Por isso, a nossa leitura faz-se do menos para o mais, da postura das pessoas diante do fazer-se dos grupos, da sociedade. No plano humano e social, verificamos que a dúvida é o 1º passo para tudo e de todos. Não há valores inquestionáveis, nem os valores de sempre: respeito, verdade, trabalho, sacrifício, austeridade, justiça…, nem a noção e consideração pela memória dos que nos fizeram chegar até onde estamos hoje. As pessoas fazem do seu interesse a medida de todas as coisas, (se me convém, que mal tem?), ou pior, (o que apetece no momento); a verdade - sou eu que a faço (ou porque tantos o dizem e vivem, confunde-se e tenta-se impor como verdade aquilo que é o agir de uma relativa maioria). Há uma certa (por vezes descarada) partidarização da verdade.
“O fácil acesso ao conhecimento, o desenvolvimento e a facilidade de comunicação, se bem que é uma mais-valia/positivo, e se tornou um veículo e ferramenta de interacção e de partilha de conhecimentos, esfriou o contacto humano, trazendo um novo significado a certos conceitos. Vejam-se, por exemplo, o significado de “amigo” nas redes sociais (Facebook, Hi5…). A nova era digital, está a criar um novo paradigma no “mundo dos afectos” e, a par disso, a construir mundos de relações susceptíveis de já verificadas “violências”.
“O querer aparecer, o culto da personalidade (por efémero que seja), a projecção social (mesmo no seio da Igreja), são objectivos de muitos. Nesta sociedade fragmentária, deixamos o texto e a capacidade de fazer síntese; e voltamo-nos para a imagem, dirigida aos sentidos! Característica clara da pós-modernidade, ex: sinto, logo existo.
“Sociedade líquida, predominância do relativismo, materialismo, hedonismo, neo-liberalismo, era do vazio e egolatria: auto-satisfação e auto-realização.
“O crescendo de confiança (absoluta e cega) na ciência, na técnica, “no mercado” leva à ambição material desmesurada. Nem uma nem outra “são eticamente neutras, nem de natureza desumana e anti-social. Pertence à actividade do homem; e, precisamente porque humana, deve ser eticamente estruturada e institucionalizada…, devendo cada decisão económica ter carácter moral” (Bento XVI, Caritas in Veritae, 36.37).
“A proliferação do crédito fácil levou muitas pessoas a viverem “acima das suas possibilidades”. Esta sociedade actual é competitiva e cria um fosso entre as pessoas e grupos. A perda do sentido social e comunitário fabricou uma urbanização em que o anonimato predomina e destrói.

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“Por outro lado, a crise económica afecta muita gente e em particular os pobres, sem trabalho, sem educação… sem voz na sociedade. Isto leva ao aumento da crise de confiança, perda de auto-estima, e de forças para recomeçar de novo. Leva as pessoas a cair no fatalismo / destino, à dependência do Estado, a viver sem esperança…
“Os jovens, geração dos “nem, nem” sem motivação ou possibilidade para estudar, vivem o presente, o imediato, sem projecto de futuro…, ou de um futuro a muito curto prazo… Há uma nova vaga de emigração, e o consequente desperdício de recursos humanos que fazem falta ao País, às Instituições, mas que, não tendo aqui garantias de futuro, perdemos.
“Alargando e concretizando um pouco mais esta leitura, vemos que “a Pessoa não está só de costas voltadas (desinteressada) da Igreja, mas tudo que seja Institucional. Ou as Instituições se credibilizam ou o desinteresse permanecerá. A rejeição / demissão de envolvimento em cargos associativos, denota esse desinteresse na participação cívica, muitas vezes resultado do clientelismo nefasto que desacredita qualquer Instituição pública, ou privada.
“No campo concreto da Igreja, e partilhando esta, como Instituição, o mesmo espaço (o mundo), ela carece, como as outras, de interesse e entrega maior da parte das pessoas. Deste desinteresse, a uma Sociedade (que afronta a Igreja, sem um razoável interesse pelas respostas que a Igreja possa dar às afrontas/questões, colocadas), é um passo pequeno. Assim o mostram a relatividade dos valores, o secularismo, indiferentismo e ateísmo prático… como “aversão e resposta”, (d)e indignação (à identidade da Igreja Católica) do respeito pela identidade da Igreja Católica.
Um outro campo; que muito nos diz, é a construção de novos padrões de família. Também por aqui entrou a crise de valores nas Instituições, e nesta como primeira e fundamento de qualquer outra. Impera a “lei da selva”: veja-se o número elevado de divórcios, de famílias monoparentais, de filhos de “vários” casamentos / matrimónios pais a conviverem na mesma casa, aborto, eutanásia, idosos abandonados…, o casamento civil e religioso posto em causa… uniões livres favorecidas até pelo sistema fiscal… tudo isto é uma grande montra sobre a família de hoje! Quando já havia tão poucas referências, até esta se está a perder, se não se perdeu já! E com famílias assim, a Igreja pouco pode contar com elas na Evangelização.
As questões “quais os sinais de Deus e os desafios para a tua missão? O que verdadeiramente precisam as pessoas de hoje, a nível espiritual e humano, e o que podes tu oferecer-lhes?”, levantadas pela Conferência Episcopal, motivaram-nos as seguintes reflexões.
“A existência de uma oposição entre vida e fé cristã; o indiferentismo religioso e ateísmo prático, mesmo entre os que se dizem cristãos; a rivalidade nos grupos paroquiais, a centralização e dependência da sua existência num ou dois membros, que não os faz viver nem testemunhar Jesus Cristo, sua verdadeira identidade; o clericalismo na Igreja (em padres e leigos); a acentuada falta de criatividade celebrativa e formativa desfasada dos tempos de hoje, apesar de inúmeras iniciativas audazes…¸ longe de nos desanimarem, alertam-nos! Contudo, isso não nos dispensa de maior coerência.
“A busca de sentido não terminou nas pessoas: a valorização da amizade; a procura de experiências religiosas fora do contexto das religiões históricas (Cristianismo, Judaísmo, Islamismo…); a procura de experiências místicas (religiões do Oriente); o panteísmo ou uma certa religião à la carte (como quem vai ao mercado buscar o que interessa, e o mais caro/exigente, deixa ficar); a Nova Era e a sua literatura, discografia, etc…; o interesse pela Ecologia; a procura de bruxos; a leitura do horóscopo, e outras propostas de religiosidade, que mostram senão que essa procura de sentido está bem viva nas pessoas? (sobre a proliferação de comunicação: folhetos e panfletos, a Igreja, apesar do que tem, de presença nos mass media, deve sair mais, e mais localmente a terreno.)
“Um novo desafio colocado aos cristãos, à Igreja, surge pela nova vaga de imigrantes que chegam (alguns deles bem mais determinados na vivência da sua fé), sem uma resposta da Igreja para os acolher e integrar na sua diferença e para abertura ao outro, ou diferente. Neste aspecto, verificamos a insegurança e falta de formação sólida da parte dos cristãos, que lhes permita defender a sua fé, sem ser pelo simples voltar as costas, ou pelas palavras tão escutadas: “nasci e fui criado assim, já não mudo”: uma fuga para frente, ou para nunca, poderíamos dizer! Onde ficam “as razões da nossa fé?”
“A falta de conhecimento do “valor” da realidade “Sacramental”. Afastamento da vida cristã e da vivência dos Sacramentos, incluindo a frequência celebrativa da Eucaristia, acompanhada do abandono da frequência da Catequese Sistemática. Uma Catequese Sistemática que não faz discípulos, cristãos comprometidos e conscientes, merece ser urgentemente repensada.
A Pastoral do Baptismo, concretamente quando sabemos que as crianças raramente terão quem as acompanhe com seriedade no caminho da fé que iniciam; quando cria tantos problemas a questão pastoral dos padrinhos e a sua idoneidade, que tanto atormenta os párocos dado ao elevado número de situações irregulares, merece e tem de ser repensada.

(continua no próximo número)

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